Dança

Ela tirou a camiseta que cobria o corpo recém despertado. O espelho cruel não escondia nada e as marcas do tempo mostravam-se impiedosas aqui e ali. Não sabia exatamente quando deixou de se reconhecer pelas manhãs, quando percebeu a estranha encarando de volta, desafiadora, feroz, cansada. Observou os ombros levemente flexionados à frente, tocou os seios que pareciam encolhidos e acariciou de leve a pequena barriga que saltava suavemente sobre a renda da calcinha preta. Ficou de lado, endireitou as costas, procurou-se nos quadris e nas curvas das nádegas, nas marcas de nascença pontilhando um triângulo no dorso - a maldição dos três que a perseguia desde o começo, amores divididos, ímpares, a sós. Virou-se, interrogou-se com o queixo, chegou bem perto da imagem refletida no espelho e nesse momento a claridade do sol da manhã deitava no chão do quarto tornando tudo real demais para um sábado preguiçoso. Perto demais, olhos nos olhos, mais perto, dentro, sem piscar, buscando no abismo escuro a fenda secreta que a levaria dali, para antes, para o lugar de onde o para sempre podia ser vislumbrado e quase tocado, o alto do farol que indica o caminho do azul, da eternidade reluzente… e ardem os olhos. A imagem oscila feito a água da lagoa com a brisa, o corpo balança numa dança. Um giro, um balanço, uma valsa, o corpo baila na fresta de sol, na mão o sutil toque do tempo que conduz loucamente, nas costas o abraço frio da lâmina que corta e fere e lembra sempre que nada volta, não tem volta. E ofegante ela gira, ela chora, ela dança.

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