Decompor

Pesadelo. Falta a mínima força necessária para abrir os olhos. E descobrir que o amor é aquela mistura de doce e amargo na língua da alma. E você me fez triste para sempre, o sorriso forçando os dentes amarelecidos pra fora. Um horror.

Lambi lentamente o sal do teu corpo, len ta men te, meus olhos fechados, os sentidos todos prostrados nus no chão. Era veneno. Eu me despi pra você e quem vê o bem e o mal nos olhos de alguém jamais esquece.

Minha maldade entrelaçada a sua, ao nosso desejo de errar insanamente até tatear a parede escura de um beco sem saída nem volta.

Matei você tantas vezes que não sei mais onde esconder os corpos em decomposição. Os teus pensamentos flutuam sobre a cama, o teto do quarto me diz coisas com a tua voz, mas baby, eu te matei outra vez e os pensamentos antigos me decompõem, ah como se eu pudesse morrer.

Desci a escadaria em espiral, o elevador me sufocava já nessa época e eu deixava meus cabelos crescerem e eles me perseguiam suavemente, degraus abaixo… decompondo.

Os olhos me olhavam por entre as pessoas que seguiam as mais variadas direções, as mesmas direções, todos azumbizados em sua rota de auto destruição e eram os olhos de meu pai que eu via, dos teus filhos, das corujas que me observavam da cerca da estrada. Eram teus olhos e não eram mais, eram olhos que perdoavam e eram olhos acusatórios, intolerantes, sádicos. Os olhos de meu pai.

Eu estava atrasada, eu sentia o sol na minha pele e o relógio queimava meu pulso dizendo as horas. Eu devia estar lá, enquanto liam o testamento de meu velho e diziam que ele se foi e não me restava nada. E eu sentia o cheiro das pessoas que passavam e esbarravam em mim com seus corpos decompondo. Estamos todos tão mortos que não podemos voltar.

À sua filha única, desgraçada, maldita, perdida, cansada, deixa todas as suas características sanguíneas e bens que não me servem de nada e uma casa se decompondo, morta por entre as treliças e trepadeiras determinadas.

Ah, meu bem, você partiu e deixou decompor as nossas canções e poemas rabiscados ebriamente em guardanapos de bares sujos nunca mais encontrados. O testamento não me deixava nada além das escolhas que eu não queria ter feito e me foram forjadas.

No caminho de volta, paro no bar quase vazio àquela hora e me deixo decompor enquanto sorvo lentamente a cerveja gelada. Viver para morrer… de tanto viver, de tanto amar. Morrer.

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