Ela chora

Ela chora. Um amor perdido talvez. Uma mulher. A idade devora seu corpo, mas sua mente se agarra à vida apesar da impossibilidade de tudo. Um amor antigo agarrado às teias de memória. Nem lágrimas, nem soluços. Seus olhos secos choram. Sua garganta sedenta chora, apertada entre o silêncio e o suspiro. Seu vestido de alças caídas chora amarelado, descolore a rua e o batom da moça distraída porque tem tempo. Sua sobriedade desbota o azul dos olhos e do céu, sombreia de cinza as pálpebras cansadas. Em meio a tantas e tantas lágrimas contidas, ela apenas passa, mas tudo nela chora. Gente demais ao redor, gente demais ignora, eu observo, entristeço. Seus pés voltados pra dentro, incertos de seus próximos passos, meros sapatos. Suas mãos caídas ao lado do corpo, inertes, desertas. O que vê a mulher enquanto olha? As pedras na calçada, a margarida cabisbaixa na seca do jardim, a grama amarelada, nada. Talvez seja mesmo nada. Coisa alguma àsua frente. O vazio ao redor, nem crianças, chafariz ou pardais. Apenas aquelas imagens improváveis, sombras diluídas trancadas atrás dos olhos parados. Memórias indeléveis, intocáveis, retratos secos de lágrimas empilhados por anos e anos pesando sobre a mulher que chora.

Like what you read? Give Magnolia a round of applause.

From a quick cheer to a standing ovation, clap to show how much you enjoyed this story.