Espírito de Natal

A bolsa estava cheia dessas paradas, restos de comida, cupons de mercado-padaria-motel, preservativos, moedas…

“ Sou aquela pecadora da pior espécie desejando um milagre de Natal.” Ela era drama e vontade fugir, de entrar naquele trem inexistente que a levaria dali, para outros planos, outras línguas, quiçá verdades. “Não viaja!” Sentiu os olhos quentes do moço moreno assim que entrou no vagão e ficou enjoada. Sexo, desejos estúpidos que movem as pessoas em direção a precipícios como se fossem robôs cegos, teleguiados por algum deus insano de humor duvidável. “Que merda, ele podia disfarçar um pouco e parar de sugar saliva por entre os dentes amarelos”. Tirou o chiclete sem gosto nem cor da boca açaí e enrolou no papelzinho com o telefone do boy que ela acabou beijando quase sem querer na saída da festa chata, meu Deus, ela nem deveria ter ido. “Tempo perdido”. A bolsa estava cheia dessas paradas, restos de comida, cupons de mercado-padaria-motel, preservativos, moedas, papeizinhos com telefones de gente que ela nem sabia, nem queria saber. A vida sendo a vida, mudando as rotas e distribuindo armadilhas, ou eram estações, nesses dias já não tinha certeza de pra onde ia e se fosse, se ficaria. Só queria partir. Lembrou da velha mãe sempre à janela da casa de paredes descascadas, namoradeira petrificada de olhos perdidos. “Minha preta velha, por que morrer?” Revirou os olhos, ajeitou o decote, conferiu o endereço na bolinha de papel amassada na mão fechada, desceu com o fluxo no abrir de portas e subiu as escadas pensando em voltar. “Que vadia!” Mas sorriu quando viu o rapaz bem vestido que a esperava ao lado do táxi, aluguel do mês garantido, mais uns mimos para o Natal, quase conformada. Ele a conduziu gentilmente pela cintura e nem pareceu que ela era quase barata pr’aquele rolex que apareceu sob a manga da camisa. “Sobreviver é o milagre.”

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