Esperança

Acordei com pedaços do sonho presos nos cabelos e um resto de brilho nos olhos. Sempre achei exaustiva a noite de Réveillon, a quantidade exacerbada de pensamentos perturbadores, desejos não concretizáveis rondando pelos labirintos internos, torturas mentais intermináveis pela noite longa, desejos de prosperidade e paz brilhando no celular, palavras tão tão distantes, honestas talvez, mas a léguas de mim. Brindes, todo tipo de comida, barulho de fogos e burburinho de gente querendo ser feliz.

No sonho, as coisas estavam aparentemente no lugar, o céu interminável azul, crianças brincando e ondas chegando lentas perto dos pés, da cadeira estrategicamente enterrada na areia, para ser tocada pela água algumas vezes, não todas, até para que isso se tornasse também uma espera.

Alguns barcos distantes levavam meus pensamentos para outros lugares, nunca navegados talvez, cheiro de peixe e sal de mar, céu devastando tudo de azul, gaivotas gritando e o calor da brisa marinha tocando tudo ao redor, pele e coração.

Estava deitado ao meu lado, sujo de mar e areia, os olhos fechados e a pele absorvendo o sol. O jeito que foi desenhada sua boca pra encaixar na minha e transmitir os segredos que nunca falamos, os traços ao redor do lábios, as marcas na testa que acompanham aquela expressão entre confuso e questionador, os cílios aos redor dos olhos marrons, olhos inspiradores, devoradores, meus, tudo ali tão perto do toque da minha mão e das coisas que eu não dizia, mas podia, se quisesse.

Ouvia a música que vinha da barraca de aperitivos, o rumor que se ouve em praias, risos, vozes, ondas. Nuvens brancas rolavam no céu, gosto de sorvete na boca, nenhum vestígio de medo ou cinza. Era um sonho.

Agora o ano novo se desembrulha à minha frente, inteiro. A memória da ilusão vai se misturando às vozes do dia, vizinhos, maritacas, a tv ligada. No ar o cheiro de café, na boca o gosto do sonho ainda suave na boca e o olhar meio perdido do lado de dentro. Não vou cometer o crime de sufocar a esperança, não. Mas vou esperar apenas o mínimo, um pouco só, o suficiente para que a felicidade seja minha cúmplice e parceira, em dias ímpares talvez, de surpresa, de repente, sem esperar.

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