Refém

Estava escuro. Sempre estava escuro. Ela abriu os olhos pra ter certeza de que antes estavam mesmo fechados e viu que a escuridão era reconfortante e serena. Deitada de lado na pequena poltrona colocada diante da porta fechada do quarto, com as pernas dobradas sobre um dos braços e o pescoço meio torto buscando conforto no outro, manteve a posição quanto pode, pois sabia que mover-se só acordaria o corpo dolorido da última noite, ou tarde, não tinha mais certeza sobre o tempo. Sentiu o ardor ao redor dos lábios e lhe veio à mente a barba cerrada ao redor da boca que devorava a sua horas antes e experimentou outra vez o calor no rosto e o coração acelerar seguidos de raiva e um leve desespero.

Soube que a pequena bandeja com frutas, queijos, torradas estava já colocada no chão ao lado da porta, mas não sentiu fome, parecia ter comido há pouco, ou teria sido ontem? Moveu o corpo devagar, sentou-se na poltrona e sentiu o quarto girar quando ficou em pé, escapou-lhe um sorriso, estranho demais para a situação. Andou lentamente como se atravessasse o deserto na direção do pequeno banheiro e ao entrar a luz branca que acendia por sensores a cegou por um momento como fazia sempre. Só então, depois de uma pausa, abriu o chuveiro e deixou a água cair sobre sua mão até que a temperatura baixasse o suficiente para entorpecer e acordar. Com a água fria rolando por seu corpo e tentando ficar lúcida buscava calcular há quanto tempo estava lá, imaginava se a procuravam, se ele voltaria e no fim concluiu que talvez fosse só isso que importava: ela queria saber se ele voltaria.

Estava exausta porém desperta quando voltou à poltrona usando as peças íntimas que lhe eram deixadas diariamente, sempre macias e bonitas. Ficou sentada recostada de olhos fechados no escuro e deu-se conta que esperava. Esperava que ele abrisse outra vez a porta e só de pensar nisso estremecia, ansiava que ele viesse e não dissesse nada, quase podia sentir seu beijo e suas mãos manuseando seu corpo como se fosse feita de pano.

No início pensou que eram homens diferentes que a visitavam, ficava em pânico cada vez que a porta se abria, mas logo passou a reconhecer o cheiro dele e a forma como suas mãos seguravam sempre primeiro seu pescoço para que ela entendesse quem mandava e em seguida guiava seu rosto, sua boca, e em pouco tempo ela já não lutava, pelo contrário, ela cedia, facilitava e isso a enlouquecia, incomodava e até frustrava um pouco.

Quando ele entrou ela dormia e acordou sentindo seu o rosto entre suas pernas e quando tentou alcançá-lo, ele a afastou. Não a segurou como sempre, mas deu a volta e amarrou seus braços nas costas, de forma assustadoramente rápida e firme. Ficou por um instante ofegante, no escuro, sentada na poltrona, à espera, ouvindo o coração esmurrar seu peito e quando, em pé na sua frente, ele segurou seu cabelo e a puxou para si, ela só pensava em ficar.

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