Refúgio

Doía. A lembrança dos olhos era uma pontada de dor aguda debaixo das costelas. A voz ainda sussurrava bobagens macias perto do ouvido muito claramente na sua imaginação.

Era sábado, o dia se estendia languidamente à sua frente, como um gato que se espreguiça. Da cama, ela podia imaginar o céu e o sol iluminando tudo, cegando, exagerado, claro demais. Pensou em café, em caminhar com o cachorro, em mergulhar na piscina, em morrer. Em seguida, nas coisas que perderia se partisse: parecia tão pouco… Mas ela não era capaz de fugir para o desconhecido como quem decola num avião que sabe-se, vai cair.

Na cama. A dor daquele olhar decompondo seus ossos, o corpo dolorido, as costas sobre mil agulhas, a memória seca do beijo. Nada. Precisava que fosse verdade tudo em que acreditou.

O vestido vermelho pendurado na porta do armário lembrava que a noite não falharia. A festa estava marcada, pessoas se equilibrando em palavras bêbadas, risos se esgueirando pelas paredes da casa, copos quebrados, fumaça, cigarros acendendo feito vaga lumes na escuridão dos rostos. A felicidade era mesmo uma máscara tão bonita!

Esticou-se e alcançou o copo com água e o comprimido. Permanecer na cama, dormir, fazer a dor sorrir ao cavalgar o corcel dos sonhos, despida dos artefatos e angústias libertar-se das memórias intranquilas, das correntes fictícias que a prendiam àqueles olhos. Jazer enfim sem a percepção constante de que tudo é espera e frustração, deixar-se embrenhar lascivamente em breve morte, refúgio dos desesperados, dormir.

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