Um homem

Era um homem alheio. Enquanto o ônibus seguia seu percurso meus olhos me envergonhavam por fixarem-se daquela forma no estranho à minha frente. Pertencia àquela classe de indivíduos desprovidos de qualquer coisa que o classificassem como eu frustradamente tento fazer agora. Era um homem alto e um pouco calvo, de pele irremediavelmente branca, salpicada por pintas marrons pelos braços e pescoço, seus braços e pernas longos eram desconformes, desproporcionais em relação ao tronco. A cabeça um pouco calva exibia parcos e finos cabelos espalhados aqui e ali, colocados para trás da maneira comum aos carecas. Estava sentado diante de mim, com os olhos fixos em seus sapatos impecavelmente limpos, as mãos entrelaçadas no colo, como quem está à espera. Sim, ele estava obviamente à espera de seu ponto de descida. Mas placidamente, não como os demais passageiros suados e descompostos pelo calor e correria ou simples rotina, seja o que for, coisas da vida que nos transformam em seres diferentes daqueles que deixaram suas casas no início do dia. Era apenas alguém sentado esperando como quem espera o sol nascer, ou como quem contempla as ondas do mar que se desmantelam nas rochas. E era inevitável observar seu semblante irradiando tranqüilidade e sapiência, mas talvez essa fosse a paz que se observa apenas nos rostos daqueles que nada sabem.

Enquanto o ônibus sacolejava pela rua de pedras antigas, parando com solavancos, saindo em arrancadas, meus olhos estavam presos àquela figura meticulosamente alinhada destoando do estofado amarelado pela sujeira, com partes de sua espuma à mostra. Procurava nele algum indício de humanidade talvez… uma marca nas calças que o identificasse socialmente, quem sabe um relógio, uma etiqueta que o rotulasse como uma qualquer pessoa incrustada na sociedade atual. Mas ele usava sapatos marrons, do tipo que talvez meu pai tenha usado em seu casamento, vestia calças de cor indefinida, entre o cinza e o branco, sem marca, sem vinco, sem nome. Sua camisa branca era simplesmente branca. Não havia nela nenhum outro adjetivo classificatório, limpa talvez possa ser acrescentado. Nenhum anel, ou outro acessório que o enquadrasse como casado, nenhuma pasta que indicasse trabalho, estava limpo. Suas mãos eram longas, suas unhas eram adequadas, curtas, higiênicas. No momento em que vi suas mãos passou pela minha mente a frase pronta de que as mãos são o espelho da alma, e não os olhos como todos dizem. As pessoas entravam e saiam do ônibus, esbarrando-se a todo o momento, falavam alto, derrubavam coisas, o barulho da rua invadia o ambiente, guardas, buzinas, freadas, sirenes, vendedores ambulantes, motores de todos os gêneros pipocando fumaça, a vida caótica, enfim. E os olhos do ser a minha frente quase fechados, voltados para baixo, para onde quer que estivessem seus reclusos pensamentos. Era a imagem da paz interior, da placidez que eu procurava, da quietude, do lago sereno onde o cisne deixa seu rastro silencioso.

O meu ponto era o final e por essa razão o ônibus tornava-se cada vez menos sufocante, todos os corpos passavam por mim pesadamente e saíam pela porta de trás carregando suas mentes cansadas, cheias do dia inteiro que se acabava. Mas, curiosamente, o homem em sua atitude serena não fazia menção de descer. O veículo barulhento se enfurnava cada vez mais escuridão adentro, afastando-se do centro, levando-me ao meu bairro sujo e perigoso. Durante algum tempo pude manter meu olhar afastado e apenas deixar que fluíssem pensamentos cotidianos, o jantar que estaria por fazer, em seguida a louça a ser lavada, as crianças chorando de sono, sem banho, meus pés inchados saltando dos sapatos. Quando a rua de terra se estendeu a nossa frente o homem se levantou. Seu olhar encontrou o meu por um instante, mas nada disse, era um olhar distante, destituído de significado. Então, quando me deu as costas vi a arma. Estava enfiada na parte de trás, no cós de sua calça, uma winchester comum, de cano prateado. Ele seguiu pelo corredor e desceu pela porta de trás antes que eu pudesse me segurar com o solavanco do ônibus que parava. Do chão ouvi os tiros, três ou quatro. Em seguida o grito da mulher. E o choro pesado de uma mãe que perde seu filho. Desci do ônibus e meus olhos o alcançaram, o vulto longilíneo de branco, efetuando sua marcha destituída de culpa, apenas um caminhar qualquer, um ir ao cinema, um voltar pra casa.

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