Utópica

Ela gostava de cinza. Dos dias nublados, das fotos antigas, do fogo apagado. A t-shirt descorada puída roída cansada. Olhos fechados, aranhas na teia, cortinas cerradas, luzes apagadas. Milhares de pulseiras enroladas nos pulsos, as voltas do mundo. Gatos pretos, trens passando, Augusto dos Anjos rabiscado pelos cantos e capas de cadernos, silêncio de cemitério. Línguas estrangeiras, guarda-chuvas, bibliotecas, Chopin, praia deserta.

Calçava suas galochas e dançava de calcinha e sutiã na sala quieta vazia, a música gritando dentro. Na casa esquecida no lado obscuro da fazenda antiga, ela pintava árvores em telas: ipês desfolhados, paineiras soberbas, carvalhos tristonhos. As paredes descascadas figuravam fantasmas cantantes e ela ouvia. Ouvia e pintava: Chopin, Augusto, fantasmas, o vento.

Almoçava com o gato, fotografava, bebia cervejas sem hora, lia livros e manuscritos, fazia café, inventava receitas, comia, brindava, esperava na rede a volta do relógio, um cochilo.

Na sombra do crepúsculo, cultivava tomates, salsinha, cebolinha, flores. Gostava de sentir o suor na fronte, pequenas gotículas, insetos, falar sozinha. E saber que a vida passava em algum lugar. Ali não. Ali ela apenas ficava.

E a noite salpicava o céu de estrelas infinitas.

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