Academia É Para Quem Não Sabe Dançar

O hábito de se exercitar existe há muito tempo. Era praticado pelos antigos egípcios e gregos, e seus atletas levantavam e arremessavam pesos para – sim, claro – ver quem era o mais forte. Eles corriam, e lutavam uns contra os outros também.

Nem todos nós somos atletas. Mas sabemos que precisamos de exercício. Uma academia, cujo nome em português vem do termo que também designa um lugar de estudos – de onde vem a palavra acadêmico – era no princípio frequentada por halterofilistas e boxeadores. Pessoas “comuns” começaram a procurar academias de ginástica na década de 60 nos Estados Unidos, e a prática se espalhou pelo mundo nos anos subsequentes.

Na década de 80 se viu a ascensão da aeróbica, modalidade que combina dança e ginástica e foi uma loucura com suas roupas coloridas, faixas de cabeça e penteados arrepiados. Existiam competições de aeróbica no mundo todo. Fazer exercício se tornou cool.

De repente todo mundo e seu papagaio começou a ir à academia, porque os médicos começaram a dizer que a atividade física era importante.

Durante a Revolução Industrial, todo mundo começou a ir morar nas cidades, e profissões braçais deixaram de ser normais para ser indesejáveis – suar é para os menos educados. Ao mesmo tempo, as técnicas de produção modernas de comida nos deu alimentos caloricamente densos que nunca estragavam, e que estavam disponíveis nas prateleiras dos supermercados. As mulheres se juntaram à força de trabalho, e cozinhar em casa se tornou mais raro. Esta combinação de alimentos hipercalóricos e menos atividade física deu aos nossos corpos o caminho perfeito para fazer o que a evolução quer que façam – aumentar o percentual de gordura corporal para que possamos sobreviver à proxima fome ou outras fases naturais de pouca comida, como todas as outras criaturas no Reino Animal. O problema é que ao menos no mundo desenvolvido menos gente está sujeita a passar fome hoje em dia.

Isto é um reflexo muito claro do desenvolvimento do Ocidente. É lógico que seria ingênuo dizer que as população pré-Industrial era mais saudável e mais ativa do que somos hoje, mas com a grande migração campo-cidade e o surgimento do trabalho de escritório no século XX, é fácil perceber que tendemos a nos mexer cada vez menos conforme crescemos.

A resposta natural a isso vinda de nós bípedes facilmente adaptáveis foi encontrar uma maneira de gastar mais energia, já que não sabíamos que o que nos estava engordando era a comida. Daí surgiu a era da cultura de academia.

As academias têm estado lotadas por décadas. As pessoas correm, levantam pesos, pulam corda, fazem leg press, remam e colocam caneleiras nas pernas, e fazem flexões e abdominais. Alguma vez você já pagou um semestre inteiro de mensalidade na academia apenas para discretamente desistir na terceira semana? Aposto que sim. Todos nos já fizemos isso.

Queremos ser melhores. Queremos comer comida saudável, e nos exercitar quatro vezes por semana, porque todo mundo nos diz para fazer isso.

Todo mundo quer ser aquela pessoa viciada em exercício, com a barriga sarada e que ama suar.

Você sabe, aquele seu vizinho/amigo/primo/colega que pula da cama às 6 da manhã todos os dias para ir correr, com chuva ou sol, enquanto você aperta o botão da soneca dez vezes e precisa se arrastar pra sair da cama – e só porque sua bexiga está explodindo.

A maioria de nós não é assim – e secretamente odiamos e invejamos quem é. Como não odiar? Isto é comprometimento, e por mais que tentemos, não conseguimos nos comprometer com um regime de exercícios assim.

Mas tudo bem. Sério.

Não, não estou querendo dizer que você está liberado de fazer exercício. Era isso que você estava esperando? Sinto muito. Você ainda precisa ser fisicamente ativo.

Exercício físico se tornou uma maldição, quase como dizer a uma criança que está na hora de fazer a tarefa de casa. Reclamamos em voz alta quando chegou a hora de ir para a academia. É uma tarefa, uma atividade a mais que precisamos enfiar no nosso dia, e abrir mão de parte do nosso precioso tempo livre. Preciso fazer isso para ser saudável. Existem cada vez menos estudos novos dizendo que o exercício é fundamental. É porque já aceitamos isso como verdade absoluta. Agora os estudos são focados em que tipo de exercício é melhor para diferentes tipos de pessoas. É óbvio que precisamos nos mover mais.

Então por que é que ir para a academia é tão dolorido? Por que resistimos tanto a malhar? Este é o porquê:

Ir para a academia é muito chato.

É sim. Não discorde de mim agora. Claro, é uma oportunidade de limpar a mente, focar em si mesmo, ter um pouco de tempo para você, e relaxar depois de um dia longo, mas você sabe do que eu estou falando e não estaria aqui lendo até agora se não tivesse acenado “sim” com a cabeça algumas vezes.

Ir para a academia é muito chato. Sentar em um banco duro levantando um pesinho 30 vezes é nada mais do que… uma tarefa. Caminhar ou correr em uma esteira não faz muito sentido, porque existem quilômetros e quilômetros de estrada, parque e rua para isso. O único objetivo de levantar peso é isso mesmo – não existe outro benefício além de desenvolver músculos. E por outro lado, estamos sentados nos nossos escritórios por 8 horas ao dia, nunca nos alongamos, e então passamos uma hora horrenda na academia fazendo coisas que só suportamos porque somos obrigados a fazer exercício.

Por que é que fazemos isso com nós mesmos?

Por que insistimos em fazer atividades físicas das quais não gostamos? É pra ser bonito e saudável?

Sim, em parte.

Mas estamos deixando de fora uma variável da equação. E essa variável é o divertimento.

Sim.

Você sabe por que é que os pais do mundo todo matriculam seus filhos na natação, dança, artes marciais, esgrima, hipismo, aulas de tênis?

Porque essas coisas são divertidas e porque fazer esporte é bom.

Elas ajudam a desenvolver a coordenação motora, e gastar um pouco da energia extra que as crianças têm, e fazer amigos e se divertir um pouco.

É daí que vêm os atletas, sim. E muita gente vai ter uma ou duas histórias de como eles faziam kung-fu quando eram crianças, ou eram o corredor mais rápido da classe. Ou como fizeram ballet dos 6 aos 12 anos e desistiram — mas queriam nunca ter desistido.

Quando é que perdemos de vista o fato de que se exercitar deve ser divertido, algo de que gostamos e que nos faz sentir bem, e não só algo que fazemos para ser saudáveis?

Está na hora de largar um pouco os kettle bells e pensar a respeito do que é que nos faz feliz e nos faz ter vontade de mexer o esqueleto. A maioria de nós perdeu totalmente o contato com nosso físico. Consciência corporal é algo de que as pessoas nunca ouviram falar. Tudo que ouvimos é ganhar massa magra, ganhar músculos, correr, correr, crescer, perder gordura, comer sua batata doce e seu frango. Levantamos pesos e ainda não estamos nos movimentando.

Levantar pesos repetitivamente e fazer bench press e coisas do gênero são atividades muito estranhas. Não parecem movimentos de verdade, e para mim sempre foram muito intrigantes, porque me dá a impressão de tem algo impedindo essas pessoas de se movimentar, como… ter medo do próprio corpo. Ou ter vergonha de mostrá-lo, na verdade. Como se fossem de algum modo inadequados, e fazer estes pequenos movimentos limitados fosse algo que pudesse melhorá-los.

Nenhum corpo é inadequado, estranho ou feio demais para se movimentar livremente.

O corpo humano é uma ferramenta extremamente poderosa que precisa ser utilizado como é – como um inteiro, e não quebrado em partes menores que precisam ser estimuladas individualmente.

Fazer musculação de braços e costas não tem muito sentido se você jamais malha as pernas, ou nunca se alonga, ou faz sempre a mesma coisa. Você consegue encostar nos seus pés? Ou seus dedos do pé são como aqueles amigos que você acha que nunca mais vai ver? Quando foi a última vez que você ficou empolgado em se mexer e suar porque seria divertido?

Você tem um corpo. Use-o por inteiro.

Da próxima vez em que você estiver no sofá comendo pipoca e vendo alguma coisa besta no Netflix, sendo o bicho-preguiça que todos somos, pause por um minuto o episódio e pense a respeito do que te faria feliz em fazer com o corpo inteiro.

Fazer exercício não precisa ser uma tortura. Você não precisa começar a correr só porque sua amiga disse que é a melhor coisa que já aconteceu a ela. E você definitivamente não precisa começar a fazer Crossfit porque todo mundo trata isso como a chegada de um novo Messias com quadradinhos na barriga.

Será que é dançar? Ou dança de salão? É capoeira, ou aquele tipo de arte marcial que você viu uma vez no Youtube e que parecia bem legal? É esgrima, ou arremesso de dardo, ou pole dancing, ou mesmo… levantamento de peso? Pense bem. É bem provável que você encontre algo que te interesse.

Nunca é tarde demais para começar, e a maioria dos lugares hoje em dia adora iniciantes adultos. Fale com o seu médico, faça uma avaliação física, e vá mexer o corpo. Levante o queixo, endireite os ombros e vá fazer alguma coisa que seja divertida pra você.

Use seu corpo – se mexa! Vá brincar como as crianças fazem, como esquecemos de fazer depois de crescer.

Eu tentei correr, tentei aulas de spinning, e Zumba, e salsa, e outras coisas que não lembro mas que provavelmente comecei a odiar depois de um mês, porque eram uma obrigação.

Então encontrei a coragem de voltar para o ballet clássico. Sou a aluna mais pesada da minha turma, e minhas pernas jamais vão voltar a ter a flexibilidade que tinham aos 16 anos, mas eu gosto tanto que faria todos os dias se não fosse tão caro. Tenho 34 anos e faço piruetas duplas.

No final de cada aula saio pingando de suor, e às vezes mal consigo caminhar de tão cansada. Mas o sorriso diz tudo – isso é muito bom!

Aposto que você consegue encontrar algo assim pra fazer. Pense muito a respeito e encontre a faísca de interesse que você enterrou lá no fundo porque você (ou alguém) achou que você nunca ia ser bom naquilo.

Mesmo se você não souber dançar, tá tudo bem. Ninguém é obrigado a ir para a academia. Seu corpo está pronto pra outras coisas, acredite.

Agora vá lá fora brincar.

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