O Brasileiro Cuzão Médio

Brasileiro é tudo cuzão.

Sabem o que é um cuzão? Perdoem o termo.

É uma pessoa que não está nem aí pros outros, e às vezes nem é por maldade.

Brasileiro tem zero senso de coletividade.

O Brasileiro Cuzão Médio quer mais é que todo mundo se ferre – pra ele dar risada kkkkkkk no Facebook. É o Nelson do mundo, o rei do schadenfreude, uma palavra bonita em alemão que significa o prazer secreto de ver os outros se dando mal.

Brasileiro pobre acha bom quando rico é barrado nos USA quando tá indo comprar enxoval de bebê.

Brasileiro rico acha bom quando pobre é barrado em shopping, porque lugar de pobre é na 25 de Março.

Brasileiro caminha lado a lado devagar ocupando o corredor inteiro travando o fluxo de quem tá atrasado, e fica parado bobo na escada rolante do metrô. Brasileiro demora 2 segundos pra arrancar o carro quando o sinal fica verde, porque tava olhando pra cima pensando na bunda do/a colega de trabalho, ou na manicure que lhe tirou um bife.

Brasileiro deixa seus filhos soltos destruindo ambientes como cafeterias e restaurantes, espalhando quilos de açúcar, sal e guardanapos pelo chão, incomodando os outros, porque “criança é assim mesmo”.

Brasileiro conversa parado na saída da escada e na frente da porta do elevador, e fica parado no meio do corredor do ônibus impedindo os outros de passar. Brasileiro fala alto em igreja, biblioteca e avião.

Brasileiro não joga fora o próprio lixo quando termina de comer na praça de alimentação, porque acha que tá dando emprego pra quem limpa. Não avisa a tia da limpeza quando acaba o papel toalha. Acha normal ter uma pessoa contratada pra limpar os aparelhos da academia com toalhinha e spray de álcool.

A grancuzice brasileira permeia todos os setores: cliente cuzão acha que é rei, e que todo mundo tem que se desdobrar em quinze pra satisfazer cada capricho seu — afinal, ele tá pagando. Garçom quando é cuzão joga a comida do cliente na mesa, fica de cara fechada, responde com monossílabos, como se estivesse fazendo um favor ao cliente.

O Cuzão Médio anda de carro tira fina de ciclista e fala mal de motoboy, porque é cuzão mesmo, e diz que tá estressado, com pressa, que atrapalham o trânsito. Reclama do táxi e do Uber também, mesmo não usando nenhum. Manda um dedo do meio se alguém buzina porque ele tá travando o fluxo — porque está falando no celular. Age como se o botão do pisca-alerta fosse mágico, licença pra fazer o que quiser.

Brasileiro adora se ofender. Adora gritar QUE ABSURDO!, como se o resto das pessoas saísse da cama exclusivamente pra jogar na cara dele as coisas que ele não concorda. Como se as decisões dos outros fossem da conta dele.

Brasileiro xinga quem anda de carro importado e vai pra Miami por pura inveja classista mesmo, porque se tivesse a grana faria exatamente igual, ia fazer a festa nos autiléti de marca, se acabar de comprar besteira, entupir a bolsa de creme Victoria’s Secret Sabor Baunilha Rinite Alérgica.

Brasileiro reclama de pagar por serviço merda, mas também não vai lá no SAC meter a boca, porque dá trabalho demais. Leva ferro da operadora de celular, mas não processa, porque dá trabalho. O Cuzão não entende que reivindicar pessoalmente seus direitos torna a sociedade toda melhor – e fica lá reclamando pros parentes no WhatsApp.

Brasileiro cuzão quer fazer acordo de demissão, pede seguro desemprego pra ir pra praia, paga por fora, frauda o INSS, deve até as calças mas acha reforma previdenciária uma afronta aos seus direitos – sem imaginar que o seu futuro também pode estar comprometido.

Brasileiro cuzão grita pelo impeachment e grita fora Temer só pra ter o que falar. Brasileiro papagaia qualquer merda que lhe aparece só pra se sentir importante, e não tá nem aí se tá espalhando informação falsa.

Adora se sentir Paladino da Justiça, gritar até pelas coisas mais banais, desde que não tenha que levantar os olhos da tela, seja qual for.

Brasileiro cuzão adora falar mal de restaurante, de celebridade, de viado/preto/pobre/gordo/feio/velho, xingar todo mundo e depois dizer que “eu tenho direito à minha opinião”, naquele pequeno triunfo interno de que tanto gosta. E passa vergonha.

Direito de opinião não é direito de ser cuzão com os outros e poder falar o que quiser.

Pra um país de cuzões falta SENSO DE COLETIVIDADE.

Sabem o que é Senso de Coletividade?

É não ser cuzão.

É saber deixar as coisas limpas pro próximo, é prestar atenção nos que estão em volta quando estiver dirigindo, é se acomodar no ônibus deixando espaço pras pessoas passarem, é estacionar mais longe se chegar cedo pra que os atrasados consigam lugar pra parar.

Não fazer com os outros o que você não gostaria que fizessem com você, e isso inclui xingar desconhecidos na Internet.

É estar alerta e dar passagem.

É checar informação antes de passar pra frente e, é escutar quem fala com você, é falar baixo em lugares silenciosos, é não forçar sua música nos outros.

É não riscar carteira e livro da escola, não passar foto roubada de mulher pra frente, lavar a louça não porque a mãe mandou mas porque você mora na casa e suja também. É exercer seus direitos não apenas pensando no próprio rabo, mas no de todos também.

Senso de coletividade é OLHAR AO REDOR e prestar atenção nos que estão à nossa volta e dependem de estarmos conscientes e alertas, e de entender que muita coisa do nosso cotidiano seria melhor se simplesmente agissemos pensando no bem de todos e não só no nosso.

Vamos não ser cuzões hoje? Segurar uma porta de elevador, sorrir e cumprimentar alguém que você vê sempre mas não fala, ficar alerta pra não travar o trânsito, a calçada, o fluxo, o corredor, a fila, passar um dia só sem xingar/reclamar na Internet (nem no Whatsapp), mandar um calaboca interno quando julgar alguém pela aparência, desviar do ciclista que tá morrendo de medo de ser atropelado?

É um bom começo.

Todo progresso se faz aos pouquinhos, quebrando um problemão em bloquinhos mais fáceis de administrar.

Não custa nada, faz bem, acalma a cabeça, diminui o stress e o país aos pouquinhos pode ficar bem melhor.

E não fique aí achando que só porque você não se encaixa 100% no perfil descrito acima que você não é cuzão.

Você é sim — porque todos nós, em menor ou maior grau, fazemos todas essas coisas sem nem perceber, e aí é que mora o maior perigo.

Isso mora em nós, faz parte de nós. Ninguem é altruísta, em nenhum lugar do mundo. O que mede nosso grau de cuzice é quantas vezes fazemos essas coisas todos os dias, muitas vezes sem ter a menor ideia do que estamos fazendo, porque isso sequer passa pela cabeça — nascemos sem esse chip. E a maioria visível do Brasil é bem assim – o próprio rabo brilha tanto que nem percebe a presença dos rabos alheios.

Um dia tenho esperança de que sejamos um país de queridões — porque aquela imagem do Brasil simpático já morreu faz tempo. Não funciona nem pra inglês ver.