Não Sabemos o Que Comer

Nunca tivemos tanta oferta de comida no mundo – e nem tantas dúvidas sobre o que colocar pra dentro.

Pra começar: não sou nutricionista, não tenho pretensão de ser. Sou cozinheira.

Na minha frente na fila do buffet por quilo uma moça de ombros caídos, roupa de academia, tênis neon, fala ao telefone:

É que meu colesterol tá alto, daí o médico falou que eu precisava ir pra academia, sabe? E melhorar minha alimentação amiga, não dá pra viver de chocolate, né”, ela ri.

Olho o prato dela.

Tem uma poça de arroz com feijão carioca, um pastelzinho, polenta frita, lasanha de presunto e queijo e um pedaço de frango. À parmigiana. Um prato todo amarelo. De verde nem uma folhinha de orégano – uma pilha de carboidrato, um tantico de proteína, gordura pra caramba e uma garrafa de soda saborizada pra arrematar.

É magra, mas tem colesterol alto, as duas características provavelmente genéticas – uma benção contrapondo uma maldição.

E obviamente não sabe se alimentar direito.

Todos os dias no restaurante eu tenho vontade de fotografar os pratos que vejo, meio que numa pesquisa informal pra ver o que as pessoas aqui da minha cidade estão comendo. Posso ser implicante, mas eu digo: quase ninguém come salada.

A menina de tênis de academia é bem-intencionada e está levando a sério a própria saúde, mas lhe falta o conhecimento e as ferramentas necessárias para tanto. Ela provavelmente não sabe cozinhar, e não gosta de vegetais.

Tô parecendo sua mãe? Tô né. Come uma alfacinha, filho!


Desconfio de que você conheça mais gente assim – que não encosta em comida verde nem sob ameaça de morte. Ou talvez essa pessoa seja você, uma das tantas na fila do quilo com pratos cheios de comida amarela e marrom, ou almoçando na praça de alimentação do shopping, ou descongelando lasanha de microondas.

Achamos comida verde sem graça, e biscoito recheado uma coisa normal, parte do cotidiano.

Enchemos carrinhos de supermercado de alimentos embalados em pacotinhos plásticos coloridos.

Trabalhando com alimentação, mesmo sendo traficante de açúcar – eufemismo carinhoso pra confeiteira – eu leio muito sobre história da alimentação, nutrição e hábitos alimentares.

O que mais me surpreende todos os dias é que de todas as ciências, a nutricional é a menos exata.

De todas as ciências, a nutricional é a menos exata.

É a mais cheia de dúvidas, a mais contestada, virada do avesso, controversa, e principalmente ignorada.

A quantidade de informação e principalmente de desinformação no que se refere à nutrição é de enlouquecer qualquer um. Todo dia tem uma dieta nova, um milagre novo, uma erva/shake/remédio/milagre/reza novidade pra estalar *plim* e fazer a cintura afinar, o colesterol ruim descer, o bom subir, o coração bater mais fácil, conseguir dormir melhor e ter a pele mais bonita pra postar close no Instagram.

Não sabemos mais o que é comida.

A nova pirâmide alimentar — os vegetais embaixo, e os processados no topo!

Você sabe?

Michael Pollan, o jornalista americano responsável pela série Cooked, disponível no Netflix, e pelos livros O Dilema do Onívoro e Cozinhar: Uma História da Transformação, diz que “comer é um ato político”.

Comer é um ato político.

Político por quê?

Porque nos últimos cinquenta anos, com o advento da tecnologia para conservar a comida por mais e mais tempo nas prateleiras do supermercado — aumentando exponencialmente as vendas e o lucro das grandes empresas alimentícias — nós esquecemos o que é comida de verdade.

Recebendo o alimento pronto, processado e empacotado diretamente na prateleira do supermercado nos esquecemos de onde vem o que comemos — do formato dos alimentos naturais, e de onde vem a nossa carne, e de como preparar o que nos alimenta.

Esquecemos que tem um fazendeiro pra plantar e cuidar, que tem uma galinha que bota nossos ovos, e que para comer carne alguém tem que morrer.

Enquanto isso estamos dando nosso suado dinheirinho para cinco grandes corporações multinacionais que empacotam processos de laboratório e enfiam tudo nas nossas goelas, engordando o agronegócio, os próprios bolsos e todos os humanos ao seu alcance. O agricultor fica relegado ao chão da cadeia de produção, constrito a produzir cada vez mais recebendo cada vez menos, até que vai à falência e decide se mudar para a cidade.

Quando qualquer um desses processos aparece na mídia gera uma grande gritaria e confusão, porque nós criaturas urbanas estamos tão destacados dos processos de produção do alimento que tudo nos parece alienígena.

Aí está a fonte de não sabermos mais o que é comida – e assim somos extremamente suscetíveis a modismos, a dietas milagrosas, a promessas sedutoras, a esquemas de pirâmide safados como a Herbalife, a achar que uma semana de detox vai curar todos os seus problemas e que essa sua barriguinha maldita é culpa do pobre pão branco.

Você sabia que o seu milionário whey protein nada mais é do que proteína do soro do leite, sobra descartada da fabricação industrial de queijo? Olha o quanto custa essa porcaria industrializada.

Hora de Olhar Pra Dentro de Casa

Diz aí: num dia normal, de semana, de trabalho, quanto das suas refeições é composta de vegetais? Tô dizendo vegetais puros, não aquela cebola refogada no feijão não. Alface sim, mas também abobrinha, uva, goiaba, pêra, berinjela, tomate, cenoura, broto de feijão, maçã, laranja, rúcula, brócolis, banana, couve-flor…?

E quanta massa, molho, queijo, biscoito, chocolate, batata frita, barrinha de cereal, comida congelada, lasanha pronta, nuggets, refrigerante, suco adoçado, margarina, e outras coisas que vêm embaladas em plástico colorido?

Quanto do líquido que você bebe num dia é agua pura? E quanto é suco, refrigerante, soda saborizada?

Dá uma olhada no seu armário de comida em casa, e na sua geladeira. Qual a proporção entre alimentos frescos e alimentos processados?

Pegue um deles e leia a lista de ingredientes do rótulo. Por exemplo: esta é a lista de ingredientes do “Peito de Peru Defumado Fatiado SEARA Fino e Solto”:

Peito de peru, água, sal, açúcares, proteína vegetal de soja, regulador de acidez lactato de sódio INS 325, estabilizantes:tripolifosfato de sódio INS 545i e polifosfato de sódio INS 452i, espessante carragena INS 407, antioxidante eritorbato de sódio INS 316, realçador de sabor glutamato monossódico INS 621, aromas naturais de: fumaça, pimenta vermelha, pimenta preta, cravo, canela e noz moscada, conservante nitrito de sódio INS 250 e corante natural carmim de cochonilha INS 120.

Isso é peito de peru? Tem certeza? Quantos desses ingredientes você conhece? Quais deles não deveriam estar ali?

Precisamos começar a dar passos para trás, e tratar o alimento como antigamente.

Lembrar o que é comida.

Saber diferenciar o que vem da terra e o que vem do laboratório.

Mas daí você vai me falar: “o que você tem a ver com isso, sua chata? Se eu não gosto de brócolis o problema é meu!”

É seu, sim. Claro que é. É o seu corpo que vai ficar entrevado, entupido, envelhecer antes do tempo, querido/a, e isso é problema seu e da sua família que vai chorar sentada perto de você na cama de hospital daqui uns anos. E dos seus filhos que vão criar os netos sem você.

Mas é problema do mundo todo também. Porque se você se alimenta mal, você fica doente com mais freqüência, consome recursos da saúde pública, trabalha menos, dá despesas para a família e o lugar onde você trabalha, mas também incentiva o infinito crescimento da indústria alimentícia que acredite, não está nem aí pra você. Aliás, está menos aí pra sua saúde do que você mesmo. Quanto mais você compra o que eles te oferecem, menos saúde o mundo todo vai ter.

Meu deus, você vai pensar. Que desespero. O que vamos fazer?

Aqui ficam umas sugestões — mas ninguém é obrigado. Afinal, todo mundo aqui é adulto, ninguém tá apontando arma na cabeça de ninguém, e deve ser livre para tomar as próprias decisões — desde que sejam, conscientes e informadas.

1. Procurar Informação.

Quem tem acesso à internet, mora em centro urbano e teve a oportunidade de estudar, é um cidadão consciente, com disponibilidade fácil de todo tipo de alimento tem a obrigação de se informar e de fazer escolhas justas e deliberadas que beneficiem a sociedade como um todo.

Existem desertos de alimentos, onde nada se cultiva e onde as pessoas são pobres e sem acesso ao conhecimento. Estes são terrenos fáceis para a grande indústria, e o resultado é uma população doente tanto entre os ricos quanto entre os pobres. Quanto menos nos informamos, quanto menos cuidamos de nós mesmos, menos oportunidade as pessoas com menos privilégios terão de fazer estas mesmas escolhas, abrindo margem para que a indústria escolha por eles.

2. Abrir a mente.

“Mas eu não gosto de couve-de-bruxelas!”

Tudo bem, pouca gente gosta.

Mas então prove as outras coisas, prove de novo, tente se fazer gostar.

Não existe comida ruim — existe comida malfeita.

Exponha-se aos alimentos novos!

Estudos bastante recentes afirmam que é preciso ser exposto a um alimento novo cerca de 10 vezes para começar a gostar dele. Este número não é igual para todo mundo, então precisa existir uma iniciativa honesta e determinada para corrigir a educação alimentar que você não teve a vida toda. O esforço é real, mas é muito recompensador. Comer de tudo é uma delícia, e ninguém gosta de ser rotulado como “o chato pra comida”.

Isso também se reflete nos filhos: exposição a comidas diferentes pode ditar – e muito – os bons ou maus hábitos alimentares dos adultos que eles vão ser. Dê o bom exemplo.*

3. Ser Consciente Nas Compras

Preste atenção no que você compra para a sua casa. Olhe para dentro do seu carrinho no supermercado e faça uma proporção rápida entre os alimentos naturais e os processados. Se tudo que você vê são etiquetas e rótulos bonitos, tem alguma coisa errada aí. Leia as listas de ingredientes. Pare de comprar besteiras por impulso, comida congelada só porque é prático, doces e salgadinhos porque “tem que ter em casa”, porque as chances de você estar colocando pra dentro muito mais porcaria do que imagina é bem grande.

4. Aprender a cozinhar.

Antes de acreditar na dieta milagrosa, saber o que é arroz, feijão, legumes, ovo, farinha, leite, creme de leite. Cozinhar em casa, preparar o próprio alimento, ir à feira, ter um pouco mais de conhecimento sobre o que colocamos nos nossos corpos e nos corpos daqueles que amamos – nossa família e amigos.

É escolher bonito, pedir ajuda para o resto da família, e se policiar para começar a experimentar alimentos diferentes, abrir mão do preconceito com “comida saudável”, e entender que comida saudável é o que vem da terra, e não o que a indústria diz pra você que é saudável.

Tornar a preparação do alimento um ritual gostoso – e se você não puder ou não quiser cozinhar, incentive os estabelecimentos de gastronomia ao seu redor que fazem comida boa de verdade.

É fazer da comida, fonte da nossa sobrevivência, parte integrante do nosso dia-a-dia, e não combustível industrializado para encher o bucho.


Acho que a consciência começa por aí, e a saúde também. A consciência alimentar começa dentro das nossas casas e na ponta dos nossos garfos.

Cuidar da própria alimentação é um ato político, social, gourmet, agrícola, fitness, mundial.

Pense primeiro no que você come. A cintura fina vem em seguida.