O Covil das Bruxas Cozinheiras

Como a cozinha é um fio que liga a história das mulheres de uma família

Minha avó Genoveva era uma confeiteira daquelas famosas na vizinhança. Ela foi a pessoa que ficou me olhando arruinar meu primeiro merengue, já que ela tinha me dito para lavar a vasilha da batedeira direito e eu achei que nem era tão importante assim e não lavei. As claras de ovo não cresceram e ela não falou nada. Só ficou olhando, me mandou lavar e fazer de novo. E eu fiz, e aprendi.

Na cozinha dela descobri que a carne vem dos bichos, deslizando horrorizada um dedo sobre uma língua bovina áspera que descongelava no balcão, e esperando ansiosa a costela que assava no forno embrulhada no papel celofane barulhento.

Criança passei muitas horas folheando um livro de bolos decorados sentada na cozinha dela, com uma xícara de chá de casca de maçã. Na capa tinha um bolo em formato de campo de futebol, com bonequinhos uniformizados. Ninguém sabe onde foi parar esse livro.

Eu tenho os cadernos de receita dela, no entanto. Eles estão meio arruinados, mas estão guardados com o resto dos tesouros que são minha memória dela, junto com três taças que ela ganhou de presente de casamento em 1939, e o anel que ela ganhou de 25 anos de casamento do meu avô – e que passou para mim quando fiz 15 anos.

Os cadernos da vó são cheios de todo tipo de receita de doces e sobremesas, de biscoitos a bolos complexos, e o que eu mais gosto é que são escritos na letra de pelo menos uma dúzia de mulheres diferentes.

Irmãs, filhas, vizinhas, amigas, um carrossel de mulheres que compartilhavam segredos de confeitaria, trocando receitas como uma moeda valiosa.

Minha mãe descreve essa relação feminina como “um covil de bruxas cujas vidas eram suas casas, seus filhos e seu relacionamento umas com as outras”.

Um covil de bruxas cujas vidas eram suas casas, seus filhos e seu relacionamento umas com as outras”.

Eu acredito. As receitas são escritas naquela letrinha redonda de mulheres que foram para a escola mas não escreveram muito na vida adulta. Termos como “assucar” são comuns, e “receita da fulana”. Os procedimentos são simples, não existe tempo de forno e nem pontos de massa. A letra adolescente da minha mãe em muitas páginas, sentada num banquinho passando receitas a limpo na mesa da cozinha enquanto minha avó fazia o almoço.

Era um mundo diferente. Mais simples, e de casca mais grossa. A receita para o Peru de Natal começa com “escolha um peru de corpo curto e peito largo, mate de véspera e pela manhã depene”, e minha avó provavelmente jamais imaginou que um dia isso causaria espanto em alguém.

Ela escrevia tudo nesses cadernos. Endereços, números de telefone, datas de nascimento dos filhos, e pequenas anotações como “perfeito” ou “receita errada”. Papel disponível para anotar qualquer coisa, sim, mas pra mim demonstra como esses cadernos estavam sempre à mão, sempre sobre a mesa da cozinha, a verdadeira bíblia feminina.

Apesar de estar escrito “fim” na lista, ela teve mais dois filhos depois destes cinco. Oops.

A receita de pão-de-ló de fécula de batata da minha avó está no caderno, e é a base do meu bolo Sublime de Nozes, um dos itens mais queridos da Caramelodrama. Sem glúten, também — sem farinha. É o bolo mais fofinho e leve do mundo.

Eu não tenho ideia se um dia alguém (como uma filha, uma sobrinha) vai guardar estes cadernos com tanto carinho quanto eu, mas eu me fiz uma promessa quando eles chegaram às minhas mãos: manter a memória, passar esse conhecimento para a frente. Sinto muita falta dessa avó — e do avô também, um inventor tagarela que me sentava diante do piano sobre os joelhos e me fazia decorar as escalas, e tocava sanfona cantando, com os cachorros uivando em torno, e me dava golinhos de Underberg com soda, escondido da minha mãe.

Me emociona pensar nesta avó, e na mãe dela, e nas que vieram antes, donas de casa que dedicaram suas vidas a formar família e alimentar todos a seu redor, construindo um imaginário gastronômico que eu quero ter a honra de manter.


Minha mãe é de ascendência polaca, alemã, norueguesa, mistura imigrante dos colonos do Oeste de Santa Catarina. Aqui no Sul esse povo é bem comum. E eu entendo que quando se imagina uma mãe cozinheira se vê uma senhorinha gordota, risonha e caseira de vestido estampado e sapatinhos confortáveis (como minha avó), mas minha mãe é loira e alta e magra, bem-vestida e com pose de baronesa, daquelas que só anda de salto alto. Finge que não, mas tem alma de cozinheira sim, como atestamos nós filhos e os amigos que imploram pelos jantares dela.

Meu pai veio pro Brasil adulto, com os pais e os irmãos, pra tentar uma nova vida fugidos de uma Itália destruída pós-guerra, e meu avô trabalhou até como garçom pra sustentar a família em um país novo. Ou seja, em casa comemos churrasco com massa, e meu pai se sente mal-alimentado se passa dois dias sem comer macarrão.

Então de um lado tenho as cozinheiras polacas do interior, e do outro um avô que fazia massa de macarrão em casa e trabalhava em restaurante. Dá pra ter uma ideia de como minha família gira em torno da comida — o grupo de Whatsapp tem mais fotos das maravilhas que cozinhamos e comemos do que discussões inúteis sobre política (ainda bem).

Quem vê minha mãe na cozinha apenas ocasionalmente acha graça, ela com aquele avental de chita vermelha mais velho do que eu amarrado na cintura. Parece que não combina. Mas quando vem o ossobuco ou a macarronada com o molho que demora 2 dias pra ficar pronto, a pessoa descobre a sorte de ter presenciado isso. Esse molho ela distribui em potinhos congelados e gera disputa entre eu e meus irmãos – somos em quatro.

Minha irmã, outra bruxa cozinheira dessas, inventa coisas na cozinha desde pequena. Sempre gostou. Ela faz um confit de tomates cereja que eu não consigo entender. Já tentou me ensinar a fazer, mas não fica igual nunca. Uma vez servi o tal confit num jantar em casa como aperitivo e meus amigos até hoje não param de falar nisso — tenho orgulho e ciúmes. Uso o confit como moeda de chantagem, trocando favores por um vidro cheio. Tem mais: imagine que eu nem sou fã de risotto, mas uma vez ela fez um risotto milanese, com açafrão, que me fez repetir o prato e ficar reclamando depois porque comi demais.

Minha mãe e minha irmã são do mundo da cozinha salgada, e reclamam um pouco quando precisam fazer sobremesa. Tenho uma prima também confeiteira que faz bolos decorados maravilhosos, esculturas de pasta americana e docinhos detalhados, e uma tia que me liga de vez em quando para fofocar e pedir alguma receita do caderno da vó, e produz compotas, cria galinhas, tem árvores frutíferas em casa, envia caixas de pêssegos e ovos frescos colhidos em casa.

E eu?

Eu era a “filha que não cozinha”, que ouvia “a Carolina não sabe nem fazer arroz”, relegada a fazer a salada, uma vergonha para o bruxedo. Fazia pipoca de panela e no máximo fritava um ovo.

Eu era a “filha que não cozinha”, que ouvia “a Carolina não sabe nem fazer arroz”, relegada a fazer a salada, uma vergonha para o bruxedo.

Até que descobri que eu gostava de cozinhar, mas não gostava do trivial. Meu negócio não era arroz, era bolo! Torta assada, mousses, chocolate! Demorei um bom tempo para olhar para trás, para a vó Genoveva, e entender que ela tinha razão desde o princípio quando me colocava pra ajudar a bater massa.

Como minha avó, eu sou firmemente plantada nos doces. Tão firme que fiz disso a minha vida, meu sonho e minha carreira. E além dos doces faço massa de macarrão, pão e meu próprio caldo de legumes, congelado em cubinhos no freezer.

A linhagem das bruxas, presentes e passadas, respirou aliviada – quem sai aos seus não degenera.

O Caldeirão do Século XXI

Não sei como a vó enxergaria o mundo de 2017, quase cem anos depois de nascer. Ela faleceu em 2001, e é uma nostalgia gostosa imaginá-la na frente da televisão, de chinelos e canelas inchadas, as meias de compressão enroladas, me perguntando dos “brotos” e se eu ia para o “bailete” aquele dia, ou me fazendo girar a manivela da máquina de macarrão.

Mulheres como minha avó ficam pelo caminho nas cidades de hoje, e o mundo não é mais delas. Aquela convivência das mulheres pautada pelo giro da família, vizinhas, amigas, cunhadas, maridos, filhos e casas se diluiu na urbanidade, nas carreiras profissionais, no desejo de ser mais, de produzir mais, de deixar um legado diferente.

Felizmente pelo menos na minha família ainda mantemos vivo sem perceber o ato social de se reunir em torno do caldeirão. As festas de Natal são colaborativas, com cinquenta pessoas à mesa, minha mãe reproduzindo determinada o aspecto acolhedor da família grande do interior, adotando os desgarrados, os sozinhos, onde sempre cabe mais um.

Sei que não é diferente de milhões de famílias pelo país, mas tenho o coração quentinho de enxergar essa sororidade que sempre existiu e sempre existirá, e gosto de saber que ela existe. Eu e minha irmã colaboramos com a perpetuação do covil. Ele continua vivo, e acho que as bruxas que vieram antes de nós teriam prazer em saber disso.

O covil continua vivo, e acho que as bruxas que vieram antes de nós teriam prazer em saber disso.

Pelo menos para nós duas o papel da mulher não se restringe mais ao núcleo familiar, mas mesmo profissionais, empresárias, livres, com maridos respeitosos e poder de decisão independente, entendemos ainda que é nosso o papel de manter viva a ligação feminina, a colaboração, manter o fogo sob o caldeirão aceso, honrar às que vieram antes de nós, temperando a comida como o maior gesto de amor que existe: o de alimentar.

Acho que a vó Genoveva ia me dar um dos sorrisos marotos dela, com os olhos azuis brilhando, se eu pudesse dizer isso a ela.

Vó, a bruxa vive, e a bruxa tá cada vez mais solta.

Ainda bem!