A cola da humanidade

Um breve relato do desmanche dos mitos que um dia nos uniram

No instrutivo e fácil de ler Sapiens (2015), Yuval Noah Harari pinça os destaques da história da humanidade e entrega um panorama geral de como chegamos onde chegamos. Num dado momento, ele explica porque o ser humano criou uma vida tão fora da curva comparada com a dos demais animais. Não tem nada a ver com línguas ou polegares, mas sim com a imaginação. Segundo Harari, o ser humano tornou-se o único animal capaz de cooperar de maneira rápida e organizada com um grande número de semelhantes. Enquanto chimpanzés ficam se cheirando por dias, pessoas que nunca se viram só precisam de um gol, de uma bandeira ou de um santo para unir suores. O motivo para isso funcionar é que essas ações conjuntas ocorrem sob o guarda-chuva de um mito, um símbolo, de uma imaginação. A capacidade do ser humano de inventar e acreditar em verdades ilusórias foi o princípio da civilização.

“Desde a Revolução Cognitiva, os sapiens vivem, portanto, em uma realidade dual. Por um lado, a realidade objetiva dos rios, das árvores e dos leões; por outro, a realidade imaginada de deuses, nações e corporações. Com o passar do tempo, a realidade imaginada se tornou ainda mais poderosa, de modo que hoje a própria sobrevivência de rios, árvores e leões depende da graça de entidades imaginadas, tais como deuses, nações e corporações”, escreve Harari

Claro que essa facilidade para a cooperação em massa não é puro arco-íris. Só pensar no que já se fez em nome de faraó, imperador, deus, time de futebol, marca de sapato. No fim, a história da humanidade é como um tsunami: é legal de ver de longe. Mas o agora, que é inescapável, o que nos apresenta? Quais são as condições dessas colas da humanidade? Tão mais pra tenaz ou mais pra cascola?

Mermão, I don’t know you

A tática we are the world falhou. A ordem mundial capitaneada pelos ianques está em vias de desintegração desde que o discurso de Trump de fechar a casa pras visitas teve ressonância. Junta-se a ele a Grã-Bretanha do Brexit e outras nações européias que flertam porém ainda não casaram com o conservadorismo. Os novos líderes das super potências parecem não querer mais o papel de patriarcas do globo. Julgando pelos broncos tweets de Trump, devem preferir o papel de irmãos mais velhos. Menos responsabilidade, mais liberdade para fazer o que bem entendem.

A cola que no raiar da internet prometia unir os povos através do ICQ jamais grudou direito. Verdade que surgiram alianças econômicas inéditas e alternativas ao enfadonho domínio euro-americano, mas isso nunca se converteu num sabor inconfundível a nós. A cola da globalização se enxergou menos em um ser humano democrático, tolerante a culturas diferentes e entusiasta das particularidades, do que no fato de que depois de 16 horas de voo existe um McDonald’s igual ao da esquina da sua casa. Não foi o Epcot Center que se assemelhou ao mundo, foi o mundo que se assemelhou ao Epcot Center.

Em A Arte do Romance (1986), Milan Kundera documentou o fim de uma ideia de continente, o vencimento de uma cola. Suas palavras descrevem o sedimento arenoso sobre o qual a União Européia foi formada.

“Na Idade Média, a unidade europeia repousava sobre a religião comum. Na época dos tempos modernos, ela cedeu lugar à cultura (à criação cultural), que se tornou a realização dos valores supremos pelos quais os europeus se reconheciam, se definiam, se identificavam. Ora, a cultura hoje cede, por seu turno, o lugar. Mas a que e a quem? Qual é o domínio em que se realizarão valores supremos suscetíveis de unir a Europa? As façanhas técnicas? O mercado? A política com o ideal de democracia, com o princípio de tolerância? Mas essa tolerância, se não protege mais nenhuma criação rica nem pensamento forte algum, não se torna vazia e inútil? Ou então, pode-se compreender a renúncia da cultura como uma espécie de libertação à qual é preciso abandonar-se com euforia? Nada sei sobre isso. Creio somente saber que a cultura já cedeu o lugar. Assim, a imagem da identidade europeia se distancia no passado. Europeu: aquele que tem a nostalgia da Europa.”

Chafurdadas na ordem mundial do lucro concentradíssimo, as nacionalidades foram uma a uma se deparando com crises de identidade. Enquanto os americanos clamam pelo retorno do american dream, os europeus tateiam pelo trato de bem-estar social. Mas entre todos eles, o povo que mais inflou o peito e se deixou inundar pelo mar da globalização foi o brasileiro. Então, em 2013, os brasileiros se olharam atentamente no espelho e nunca mais se reconheceram.

Quem pegou meu futebol, samba e cachaça?

Lembro de quando eu ia no super comprar pipoca prum jogo da Copa. Qualquer jogo do Brasil antes da Copa de 2014. Me impressionavam os gestos, a boa vontade, mas acima de tudo, as trocas de olhares. Entre eu e a caixa, eu e o empacotador, eu e a outra cliente, a caixa e a outra cliente, a caixa e o segurança, o segurança e o pedinte. Parecia que estávamos todos em harmonia, enganando as leis da física e ocupando juntos o mesmo espaço ao mesmo tempo. Eu não sabia na época, mas é a isso que Harari se refere: as pirâmides, as bolsas de valores, os estádios, só foram possíveis graças às ilusões que preencheram o vazio da existência e nos guiaram para além do automatismo primitivo. E naquelas compras da minha vida, ninguém tinha levado uma chibatada ou ameaça para acreditar naquelas ilusões. Ser um brasileiro era, aparentemente, facultativo.

Tudo mudou em junho de 2013. O Brasil foi às ruas e abnegou de tudo que anos de ditadura político-midiática tinham lhe conferido como identidade. Pela primeira vez, em manifestação pública, seu amor próprio falou mais alto do que o amor por suas paixões. É notório que o discurso anti-país do futebol e do carnaval é antigo, mas foi somente em junho de 2013 que decididamente iniciou-se uma desconstrução da identidade brasileirinha. Junho de 2013 foi um portal que o Brasil atravessou: entrou povo, saiu bando de indivíduos. Hoje é impossível disfarçar o gosto de vencido ao assistir um desfile carnavalesco ou um jogo do Selecionado.

O 7x1, por sinal, não foi o começo. O 7x1 foi o coroamento, o 7x1 foi a materialização do desejo reprimido dos brasileiros que queriam ser outros. A derrota massacrante serviu como carta de auforria.

Mas, agora livres, pra onde ir? No que se inspirar? Quem queremos ser?

Tem muito autor que festeja essa destreza do brasileiro em ser um turista do universo, um mulato de camisa aberta que num segundo dança reggaeton na companhia de latinos e no próximo trata de inovação tecnológica com uma trupe de asiáticos. Será que quando ele volta para casa, ele lembra quem é? E caso não lembre, seria então o brasileiro a primeira nacionalidade definitivamente globalizada?

Brasileiro: identidade em reconstrução. Uma parcela considerável da população já não aceita mais viver em um país racista, machista e oligárquico. Fomos livrados destas colas que um dia venderam tanto jornal, música e camiseta. Fim da ideia artificial e bicolor de quem somos. Brasileiro: habitante do limbo. O país que sempre pegou emprestado da Europa e dos EUA seu projeto de futuro, desvencilhou-se do pouco que lhe era próprio. Não lembra quem foi, nem sabe quem será. De fora, não vem solução, só atestado do que dá errado. De dentro, terá de ser.