Consumir civiliza

Em 2010, milhares invadiram um Feirão na Paraíba. Retratadas como animais na época, o que nos escondem aquelas pessoas?

Foto: Hannah Morgan/Unplash

Foi pouco discutido o episódio da invasão de uma loja de eletrodomésticos na Paraíba. Invasão do gênero mais inocente, mais bem-intencionado, mais ingênuo, porém ainda invasão porque a loja ainda não tinha formalmente aberto as portas e o público, deveras ansioso pelo início de um torra-torra, forçou sua entrada antes do gerente checar o relógio e mandar abrir os portões. Foi descontrole emocional e ansiedade contida, perfeitamente cabíveis tamanha a variedade de produtos e ofertas imperdíveis. Invasores, sim, infratores da lei, não. A horda de pessoas que invadiu a loja é mais um reflexo borrado dum dia qualquer na Macy’s do que um primo dos dias de depredação e saqueamento promovido por londrinos em 2011. Ao ver do Zygmunt Bauman, esses londrinos eram indivíduos incapazes de comprar, que através dos motins deram um jeito de adentrar o universo do consumo, mesmo que pela vidraça quebrada. Esses paraibanos, por outro lado, não queriam roubar ou quebrar; eles não foram excluídos como os londrinos, mas convidados para o desfile das mercadorias, só não sabiam muito bem como se comportar. Infelizmente, sobrou a conta: o incidente deixou cinqüenta feridos e um morto.

Charles Darwin nos deu a chance de ficarmos mais tranquilos com nosso comportamento frequentemente animal, afinal, nós somos um. Mesmo que algumas invenções, como Deus, Estado e dólares, nos levem a pensar que somos pra lá de especiais, uma olhadela singela no comportamento de grupo ou no ritual de acasalamento, já bastam para não insistir numa origem divina exclusiva. Entretanto, o exercício de comparar pessoas com animais é habitualmente pejorativo e deu seus ares no episódio da loja paraibana: um usuário postou um vídeo com o nome “invasão do feirão”, mas as imagens eram provavelmente de algum documentário da National Geographic, em que centenas de gnus se debatem para atravessar um rio. Ali, assim como nos comentários do vídeo original, dava pra encontrar a manifestação dos horrorizados com o acontecido, os quais se referiam aos invasores como animais, o que é muito negativo na sociedade ocidental civilizada, vide os usos alternativos para as palavras “baleia”, “burro”, “cavalo”, “vaca” ou o próprio “animal”.

Primitivismo não casa com consumismo. A fazer entender: primitivismo como manifestação de um espírito instintivo, emotivo, pouco trabalhado e nada institucionalizado; consumismo como a prática de comprar para silenciar atribulações e inseguranças. Pois ao contrário dos paraibanos do vídeo, o homem civilizado passeia doce e garboso em frente às lojas, reage indiferente às milhares de ofertas, aprendeu a conter e a soltar seu afã pela compra. Ao contrário dos paraibanos do vídeo, esse homem, ao comprar, nunca interpreta uma cena que tenha referência no mundo animal. Ele é a vitória do modelo educacional e o consumo é seu coroamento. Borbulham shoppings porque é lá que o homem se vê evoluído. Shoppings centers são fortalezas da razão e do progresso, onde há no ar uma moral das coisas, há no espírito um controle do instinto (a aceitação do inalcançável), há na porta um tratado ilusório e inconsciente: “comporta-te como um duque e ganha um cupom”. Se surge um sorriso num shopping, ele invariavelmente nasce com um significado: o sorriso da compra é a satisfação da ordem.

Imagino eu que os paraibanos que invadiram a loja devem também frequentar shoppings e agir de acordo quando lá estão — como bons espectadores. Assim como os mesmos nova-iorquinos que proporcionam em época natalina cenas similares com a da Paraíba são os mesmos que fazem fila indiana quando a Apple lança alguma nova traquitana. Ou seja, o homem animal não morreu, só que é inibido e corrigido quando convém. Na sociedade do consumo, a ideia vence o instinto, o artificial tapa o animal, o civilizado sufoca o primitivo. Ar-condicionado, atendimento personalizado e últimas tendências não formam matilhas.

A investigação policial na Paraíba apontou que houve ruído na comunicação, muita gente tinha entendido que era um único dia de descontos, quando na realidade era um feirão de quarenta. E a loja, por sua vez, fez que nem jogar dinheiro pela janela, quando comunicou que os primeiros trezentos ganhavam uma TV LCD, entre outras promoções. Tratados como gnus, agiram como gnus. São indivíduos amadores deste esporte moderno, que ainda se sacodem e se descontrolam quando mergulhados em ofertas distorcidas e desejos rudimentares, em uma confraternização de vira-latas. Eles ainda não foram vacinados e treinados, como a Carrie Bradshaw, um são-bernardo carregad0 de sacolas, que já entendeu que a civilização é a ideia de domesticação do homem.

*Texto publicado originalmente em fevereiro de 2012