De Mano Brown a Criolo: criminal fashion, o desgaste do piche, quem tá fora quer entrar e o inimigo não tem rosto.

Um passeio pelo cenário do rap nacional reflete como o Brasil dos anos 90 reagiu às transformações dos anos 2000.

Foto: Matthew Brodeur/Unplash

Mano Brown era um inimigo da família brasileira, a mesma que desfilou na Marcha da Família com Deus pela Liberdade, e ficou um bom tempo em pé de guerra com tudo que era branco, rico e se mexia. Hostilizava o poder, a apatia e o desdém das classes bem de vida que passavam os olhos pela seção policial do jornal e pensavam que não tinham nada a ver com aquilo. Mano Brown representava a urgência de existir de gente que tinha sido colocada ao periférico do andar da carruagem, gente marginalizada, gente fora da festa. Quando trabalhava a ideia do nós somos nós, vocês são vocês, tirava as máscaras da campanha social e seu enredo pacificador para deixar bem claro que o abismo que havia entre as sociedades preta e branca.

Isso é nos idos dos anos 90, quando foi legal se vestir, falar e se comportar que nem bandido, uma moda ingrata para a polícia, que fazia apreensão no fumódromo do parque e tinha de escutar alegações de defesa como “você sabe quem é meu pai” e “eu estudo ali na faculdade, tio”. Enquanto hoje se fuma idealizando o contato com as estrelas, naquela época o ápice do dia era fazer uma sauna num Opala. Legal era ser (ou fingir ser) criminoso, se vendia marrentice em pote e o número de contravenções era proporcional ao tamanho da fama. O que descrevi era o comportamento mais destacável da juventude escolarizada, que funciona muito bem como um reflexo, ainda que distorcido, do espírito do tempo. Se lá de baixo vinha a expressão do negro pobre, que tateava por uma identidade e buscava ser ouvido, ao subir pela pirâmide social, essa manifestação de confronto, de sozinhos contra o mundo, serviu de trilha sonora para o branco classe-média na represália às instituições tradicionais, na celebração do individual e na afronta ao sistema — eram tempos de neoliberalismo bailando, com Rede Globo soberba e ALCA se assanhando. Nestes idos anos 90, a figura do inconformado era tão banalizada que para ser taxado de comunista, bastava ser do contra. Legal era depredar, furtar, desrespeitar. Legal era pichar.

De lá pra cá, Mano Brown ficou velho — aquele rap agressivo, duro, alarmista, e o piche ficou velho — aquela declaração invasiva, suja, radical. Quando só os meios de comunicação tinham voz e a sociedade tinha a sensação de que não escutava a si própria, pichar era a manifestação pública legítima, mesmo que sempre tenha sido, deus o livre, vandalismo — nome feio que inventaram para designar qualquer ato que não tenha alvará autenticado. Muita coisa mudou, o acesso, os meios, os fins, e mudou principalmente a postura: paramos de caçar os inimigos e passamos a procurar os aliados. Como forma de denúncia e crítica, o piche se foi, pessoas já cruzam despercebidas e desinteressadas pelos esparsos grafismos. Reivindicação do espaço público através da depredação e do anonimato não tá com nada. Tapa na cara não surte mais efeito, o negócio é cafuné e andar de mão dada. E isso é o grafite. O grafite respeita a propriedade privada, faz parceria com o governo e carrega uma arte toda new-vizú, agradável à neta e à tiavó. Grafite é anarquia com uma paleta de cores definida. Saiu o piche, entrou o grafite. Saiu Mano Brown, entrou Criolo.

A luta de classes foi diluída no crediário e no Bolsa-Família — que transformou os oprimidos nos café-com-leite. Darem ouvidos aos marginalizados (posicionamento que também colaborou para o desgaste do piche) foi a prova de que alguém escutou Racionais e demonstrou pro universitário de tendência socialista que favelado não quer revolução, eles só querem fazer parte. Daí que o discurso de palco do Mano Brown e do Criolo ilustram o deslocamento da era: um batia, o outro abraça. É natural, antes era BOPE, agora é UPP. Antes era TV, agora é internet. Mano Brown ficou velho, mas há de se saudá-lo. Ao representar a emergência do momento e destapar uma realidade tão desordenada e passiva de atenção, ele dificultou o movimento de fuga do assunto e forçou o olhar. Seu estilo se esgotou, porém um novo começo só é possível quando vamos até o fim. A desigualdade e a injustiça persistem, só que enquanto Mano Brown, com o mundo que enxergava, só conseguia expressar a violência e alguns pecados capitais, Criolo já lida com um mundo em que é possível sinalizar pro conjunto e pro amor. A esperança se assanha.

Se nos anos 90 a moral era colocar a culpa no sistema para se fingir de vítima e quebrar uma placa de sinalização para agredir o órgão público, hoje a noção de cidadania já está bem mais fixada e vai de vento em polpa, com seus crowdfundings e coletivos que se encarregam do trabalho da SMAM. Nota: o povo amadurece mais rápido que o governo. Pois todas as dicotomias que tanto embaralharam a vista — rico contra pobre, negro contra branco, mané contra malandro — saíram de cena para estampar que também inimigos do progresso somos nós, ao não buscarmos o fim que gera um novo começo.

*Texto publicado em abril de 2012 (bem antes das Jornadas de Junho, das eleições de 2014 e do despertar da direita fascista)

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