Meninos não choram
Uma análise do que significa ser homem na carona de Animais Noturnos, La La Land e Blonde

Freud foi quem apontou um certo mal-estar da civilização: o ser humano, ao se adequar às normas e condutas da vida em sociedade, acaba contendo seus impulsos mais naturais, os de origem, os instintivos. Desta repressão nasceriam seus desconfortos e infelicidades.
Se há esse mal-estar que olha para trás, um desejo de retorno, a saudade de ser primitivo, solto, pegar porque quer pegar, é possível dizer que hoje há também o mal-estar na direção contrária. O mal-estar do avanço.
Capitãs dum movimento de reinvenção de como o masculino e o feminino influem na ordem das coisas, as mulheres estão em pé de guerra com os restos do cordão umbilical que continuam nos amarrando à sociedade do patriarca, do chefe, do comandante, da ordem, da brutalidade, da certeza, do áspero, do fechado, do pragmático.
Há homens (e também mulheres) que não digerem bem esse enfrentamento do mundo absolutamente regido pelo espírito masculino, enquanto os que abraçam a causa não raro vivem num limbo, cercado de mais perguntas do que respostas, tateando no escuro antes do alvorecer de uma nova identidade.
Que época para se estar vivo.
E que bom podermos contar com Tom Ford, Damien Chazelle e Frank Ocean, exploradores deste amanhã. Pois os três, cada um a seu modo, entregaram nas suas últimas obras um retrato do que é ser um homem de perguntas nesta virada dos tempos.
Los Angeles, 2017
Tanto Animais Noturnos (2016) quanto La La Land (2016) se passam em Los Angeles e vale perceber como os dois filmes destilam um ar cínico em relação ao glamour de fachada da vida hollywoodiana. As relações superficiais, os sorrisos de aparência, o materialismo e a ostentação, apesar de tema periférico, é visitado nos dois filmes. Em ambos, em algum momento, uma única fala, uma fala que saí como que por acidente, fugitiva do departamento de controle da auto-imagem, desmonta maquiagens milionárias e casas suntuosas.
Mesmo em La La Land, que tem uma carga de homenagem festiva à cidade, Los Angeles é retratada como é: distante, desafiadora, meio fake, super objetiva. Em Animais Noturnos, essa postura desiludida frente a Hollywood e à vida que se leva lá é bem saliente.
Por que falo nisso? Porque talvez o enfrentamento da ordem das coisas passe por aí, pelo desencanto. Ford e Chazelle dão a deixa de que possuem pouca sintonia com a proposta que esse mundo de peças marcadas lhes faz. Enquanto isso, Frank Ocean canta assim em “Seigfried”, a 14ª música de Blonde (2016):

Sensibilidade à flor da pele
La La Land é sobre uma atriz atrás do sucesso e um músico atrás de um sonho. A dupla vive em L.A. e se conhecem quando os dois estão no ponto mais baixo de suas aspirações. Ela não consegue um único papel, ele toca “I Ran” em pool parties. Os dois então vão se empurrando, às vezes de maneira terna, às vezes torta, em direção ao que desejam para suas vidas.
Animais Noturnos é sobre uma curadora de galeria que recebe do ex-marido o copião do romance que ele está prestes a lançar. Sozinha em casa depois que o atual marido parte em mais uma suspeita viagem de negócios, ela se afunda no livro escrito pelo ex, o qual dialoga de alguma forma com o passado tumultuado e mal-resolvido dos dois.
Em ambos os filmes, os personagens masculinos são artistas. Em ambos, eles buscam expressar suas dores e frustrações através da arte. Em ambos, eles lutam para corresponder ao que a mãe de seus pares espera deles. São homens fracassados sob um certo ponto de vista, sensíveis, indecisos, reservados, introspectivos, claudicantes, idealistas.
Nos dois filmes, os dois personagens fazem um jogo de resistência entre agradarem a um exterior carregado de expectativas ou serem fiéis a si mesmos. Sejam provedores, sejam assertivos, diz uma voz, sejam homens. Do outro lado, escutam um Ryan Gosling supostamente perdido e um Jake Gyllenhaal supostamente fraco. Até parecem perguntar de volta “mas o que é ser homem?”
Por fim, assistir o Sebastian de Ryan Gosling e o Edward de Jake Gyllenhaal é assistir dois homens tentando encontrar um caminho inédito e autêntico para o que pode se tornar a figura do galã no cinema americano.
E ainda sobre avançar e experimentar terreno desconhecido, Ocean canta em “White Ferrari”:

Homens à frente
Em “Self Control”, Ocean lamenta sobre um relacionamento em que os dois não estão na mesma página.

Para isso se encaixar em La La Land pode parecer forçação de barra mas não vou me intimidar para afirmar que tanto o filme de Chazelle quanto Animais Noturnos retratam o relacionamento de homens alternativos com mulheres convencionais.
Se Sebastian e Edward são homens descarregados de seus atributos masculinos de revista, Susan (Amy Adams) e Mia (Emma Stone) não comprovam ser mulheres à altura de tal grau de experimentação. Encantadas no início, optam no fim pelo conto de fadas do passado.
O que nos leva de volta a Frank Ocean e a sua “Nikes”, em que solta umas linhas sobre um dos mais sagrados baluartes temáticos do rap — as mulheres interesseiras.

Terminando. Talvez ainda não seja algo que salte aos olhos, porém existe uma parcela gorda de homens que não estão nem lá, nem cá. Estão escutando, aceitando, interiorizando. Imersos no próprio silêncio, já pularam no vazio em busca do que pode vir a ser o novo homem.
