O Branco Burguês Progressista na Berlinda

Como agir depois que as campanhas de conscientização mostraram que não são a solução definitiva para o racismo.

Foto: Samuel Zeller/Unplash

Nota: quase usei classe média para me referir ao público de quem falo aqui. Mas é um termo que já apanhou tanto e é tão abrangente que resolvi renomear os bois. Recordo daquele episódio com a Marilene Chauí. Num encontro em 2013, que também estava o Lula, ela disse que odiava a classe média. O vídeo foi compartilhado nas redes como panfletagem de anti-petistas, na época um pessoal mais isolado e discreto, acompanhado dum discurso do tipo “olha aí, olha aí chamada nova classe média, esse PT, essa gente que fala que tirou vocês tudo da miséria, sorri na sua frente, mas difama pelas costas”. Na verdade, o que aconteceu foi um mal entendido e a culpa foi do termo. A Chauí não se referia à nova classe média, mas à velha. Ela não lançou seu desprezo aos 35 milhões que subiram um degrau na pirâmide (mérito do PT) e que ao terem renda entre R$ 291 e 1.019 ascenderam à classe média (malandragem do PT). Ela lançou seu desprezo à classe média que aspira ser alta de olhos fechados, que não pergunta e só obedece, à classe média conservadora, individualista, que nem quer saber de outros assuntos enquanto não ver tudo de cima. Por essa e por outras, deixo de lado essa figura da classe média meio difusa meio abstrata, e a substituo por algo mais palpável e cirúrgico: o branco burguês progressista.

No dia 3 de outubro de 2015, o Porta dos Fundos colocou no ar uma esquete chamada Amiguinho. Clarice Falcão e Fábio Porchat interpretam mãe e pai tentando dissuadir a diretora da escola do filho deles de expulsar um coleguinha. O coleguinha no caso é negro e é explorado pelo casal como a bandeira viva de que eles são pessoas justas, caridosas, pra frente. A expulsão do guri seria uma tragédia porque, diz o casal, o filho deles não tem mais nenhum amiguinho negro e eles teriam que ir até a favela atrás de um. Bom, eu ri, eu gostei. Achei uma sátira esperta dessa nossa luta de fachada pela igualdade racial, que paga dólar para jogar bola com criança na África, mas quando volta pra casa não chega nem perto da periferia. Pensei “pô, que legal, mais uma vez, o Porta dos Fundos foi ácido, certeiro, corajoso”. Até que pintou na timeline um comentário da página Negro Negus sobre o vídeo. Um trecho diz assim: “Porta dos Fundos devia se olhar no espelho antes de querer falar sobre racismo: o único ator negro que tem ali só faz papel de escravo, ou de bandido, ou de policial terceirizado, ou plano de fundo”. Depois dessa, o sentimento de retorno à estaca zero é fulminante. O grupo de comédia mais expressivo dos últimos tempos e um notório combatente no que se refere a causas e falcatruas sociais é formado apenas por gente branca. O que explica isso? É falta de auto-crítica? É um resultado sintomático do contexto brasileiro? É, no mínimo, racismo inconsciente? Porque eu percebo o Porta dos Fundos como um canal verdadeiramente dedicado a cutucar algumas certezas e máscaras que estão por aí, mas o que o comentário do Negro Negus denuncia é que, perigosamente, mesmo naqueles de cabeça aberta e dispostos ao diálogo e ao enfrentamento das convenções, o racismo, de um jeito ou de outro, ainda se manifesta. E agora?

Bom, antes de terra arrasada, vamos dar uma olhada no cinema brasileiro dos últimos anos. Trabalhar Cansa (2011) conta a história de um casal de classe média enfrentando tempos de vacas magras, em São Paulo. Ele, executivo, foi demitido e batalha para voltar ao mercado. Ela, antes dona-de-casa, decide comprar um mercadinho com as economias que restam e assume o sonho de que a partir dali a maré vai virar pra eles. O filme ganha contornos sombrios quando o mercadinho dá pistas que esconde um amargo e macabro segredo. Mas a gente não encontra terror só nisso, como também vê coisas assustadoras na relação entre empregadora e empregadas e na busca do homem por um emprego. O Som Ao Redor (2012) é sobre um rapaz de classe média vendo seu bairro responder a tempos de violência, em Recife. Assaltos corriqueiros levam os moradores a contratarem uma milícia para fazer a segurança das ruas. Uma cena do filme mostra uma reunião de condomínio de um prédio de luxo em que o pessoal revela toda sua mesquinhez e alarmismo. Casa Grande (2014) acompanha a desintegração de uma família de classe média pelo ponto de vista de um estudante de terceirão, no Rio de Janeiro. O pai, economista, está à beira da falência. A mãe começa a vender cosméticos. A filha duns 15 anos não tem voz na casa. O motorista e as duas empregadas da família estão com o emprego por um fio. E o rapazinho é pressionado pela família ao quê prestar vestibular, enquanto fica próximo de uma garota que aparentemente mora na Rocinha. Juliana Rojas e Marco Dutra, Kleber Mendonça Filho e Felippe Barbosa são respectivamente os diretores e diretoras dos filmes citados. Todos são visivelmente brancos, possivelmente burgueses e aparentemente progressistas. Estão todos, então, apontando dedos para suas próprias caras e, diferente do Porta dos Fundos, parecem mais familiarizados com o conceito de auto-crítica. Será que dá pra perceber um mini-movimento aqui? Porque mesmo quando esses filmes não estão falando sobre racismo, eles estão falando sobre racismo. Se em As Melhores Coisas do Mundo (2010), da Laís Bodanzky, a gente encontra aquele filme de adolescente-branco-de-classe-média-passando-por-transformações adaptado do molde americano para o cenário brasileiro, nesses outros três exemplos, a gente vê, além de um cinema maiúsculo, manifestações de um branco burguês progressista mais maduro e capaz de perceber sua própria realidade e também as que estão a sua volta. Da terra arrasada, nasce flor.

Entretanto, ainda é cedo para vibrar. A questão é como essas pepitas da nossa produção cinematográfica podem nos ajudar a vencermos o nosso racismo, aquele escondido atrás da fachada mais obscura? Boa vontade eu tenho certeza que nós, a Falcão e o Porchat têm. Mas, assim como eles, podemos também estar caindo numa armadilha ao nos projetarmos nessas empreitadas anti-racistas, repletas de cor e som, ao passo que mantemos atitudes racistas no dia-a-dia, que de tão introjetadas, nos são invisíveis. Do comentário do Negro Negus, destaco outro trecho: “(…) o Porchat, cisbranco, escreve um roteiro pra falar de algo que ele não vive, e que a comunidade negra vive falando, e é aplaudido. Quando nós, povo negro, falamos dessa mesma coisa, de uma forma muito mais verdadeira, embasada, coerente e realista, sem fazer piada, nós somos um bando de vitimista”. E de um texto da Joice Berth, também sobre o caso do vídeo Amiguinho, tiro esse trecho: “Pergunte a uma pessoa branca, quais são os reais problemas que a população negra sofre e como lidam com as inúmeras limitações que enfrentam no seu cotidiano e ela não saberá. Peça para uma pessoa branca identificar uma situação de racismo, daquelas extremamente sutis que só quem convive com a sua pele negra desde o nascimento reconhece, e ela não vai passar do lugar comum”.

Assim que é: Trabalhar Cansa, O Som Ao Redor e Casa Grande têm o mérito de falar sobre racismo sem pagar de bom moço. São filmes mais preocupados em desmascarar e interpelar o branco de classe média (tá, vou usar dessa vez) do que tomar pra si o bastão da luta pela igualdade racial/social. E é talvez essa atitude mais contemplativa, mais curiosa e aberta (aspecto no qual o Casa Grande é extremamente feliz), que devemos tomar pra vida quando o assunto é racismo. É retirar os amortecedores do humor e da inocência para falar sobre. É baixar a guarda e assumir nossos privilégios. É parar de querer apontar o que é racismo e deixar que quem é negro nos mostre.