Somos milhões de Cocas
Anteontem ninguém tinha, já ontem era must-have. Porque ter ideal político foi uma moda passageira?

O Jorge Furtado acordou um dia e pensou não dá mais. Ele contou numa entrevista que a situação tinha chegado a tal ponto que não se manifestar era consentir. A partir dali, passou a postar religiosamente textos rebatendo o vendaval caolho chamado Fora PT.
No começo desse ano, a mesma incontinência que acometeu o Furtado bateu na porta de todo e qualquer brasileiro. Com o martelar incessante do noticiário, brotou uma nova urgência: ter um posicionamento político. Não dava mais pra tomar whey protein em paz ou assistir despreocupado Bragantino vs. Paysandu ou arrancar uns likes com coisa boba. Não dava mais pra viver. Na hora de fazer um cartão Renner, a moça perguntava: você é contra ou a favor do impeachment?
Sem alternativa se não a de tomar uma posição, aí está o maior drama do brasileiro 2016: o drama de terem usurpado a nossa existência como Coca-Colas.
Abra a felicidade, feche o dilema
Você sabe se a Coca-Cola acha que foi golpe? Nem eu. Mas isso é natural porque a Coca é uma corporação global, com bilhões de consumidores de inúmeras tribos e não vai ela se meter numa situação política que junta tanta controvérsia e tensão. Escolher um lado nesses casos é perder um lado - uma tragédia no ponto de vista mercantil. Provavelmente foi um raciocínio assim que permitiu os donos da Coca dormirem enquanto eles faziam sucesso com a Fanta na Alemanha nazista.
Corporações não querem tomar posições. Corporações querem (parecer) ser apolíticas. O que deixa muito esquisito ver a trupe da Escola Sem Partido tão preocupada com uma suposta falta de espaço quando são exatamente os alunos dessa escola os nossos totens.
O Jornal Nacional, por exemplo. Noticiário mais popular do país, embebido naquele tom de tradução oficial da realidade, o Bonner com aquela postura de oráculo que toda noite desce do seu templo para trazer luz e direção ao povo brasileiro. O desejo mais profundo do JN é (parecer) ser apolítico e imparcial. O JN, uma Coca.
Ou a Ambev. Através da Skol, lançou campanha pelo Dia do Orgulho LGBT, e através da CRBS, doou R$ 1 milhão para a campanha do Eduardo Cunha.
…
O método Coca-Cola é essa vontade de ser nada para ser tudo. É o triunfo do duplipensar, em que valores antagônicos, por conviverem, se esvaziam de qualquer sentido.
Mas isso é o segredo, não o manifesto. Enquanto fugir do conflito ideológico é a alma do método Coca-Cola, a defesa do inatacável é sua projeção no mundo.
É só olhar os outdoors e as tevês. A Coca está aí, pop e aceita, ela defende coisas, ela é a favor do amor, da amizade e da felicidade. Pois quem pode ser contra o amor, a amizade e a felicidade? Quem pode ser à favor da corrupção?
Como reunir milhares de Cocas nas ruas?
Ao mesmo tempo que a política é o único meio para transformar as coisas, ela também é traiçoeira e mesquinha demais para dedicarmos nosso horário livre a ela. Por isso, asseguramos o método Coca-Cola como nosso modo de vida padrão: não nos envolvemos com política, mas para aliviarmos nossas carências de comunidade e participação, queremos salvar os pandas. O facebook, às vezes, acaba parecendo a versão de we are the world dos que não sabem cantar.
Mas se assim é, como sacaram milhares de brasileiros do método Coca-Cola para defender um impeachment?
Uma pausa para deixar uma coisa clara: apesar do caso estudado ser um com viés conservador, o método não vê cara, nem coração. Até porque o método, ao tomar um espírito por completo, permite que se navegue fácil entre causas de direita e esquerda como uma criança escolhendo chocolate no super-mercado.
Voltando ao impeachment.
De pronto, não daria para descartar a possibilidade de que o engajamento pelo ideal Fora PT se deu APESAR do método Coca-Cola, mas o que vimos a seguir - o desapego automático das picuinhas da democracia - nos leva a aceitar que o engajamento foi mesmo ATRAVÉS do método Coca-Cola.
Ao longo de 2015, as manifestações pró-impeachment chamaram a atenção do indivíduo-Coca, mas foi apenas em março de 2016 que pudemos contar com a sua presença maciça nas ruas. Para isso, foi necessário um ajuste na abordagem, a qual relato.
Primeiro, veio a raiva. Se o indivíduo-Coca participou de algum protesto em 2015, ele participou por raiva. Não a raiva de quem se descontrola ao se expressar, mas a raiva de quem está onde não quer. Sentindo-se impelido a tomar uma posição, o ódio que o indivíduo-Coca mirou contra um partido foi antes de tudo fruto do desconforto de não poder mais ser apolítico. No grito de quem era Coca, o que se ouvia era a luta para voltar o quanto antes ao conforto da imparcialidade.
Mas não estamos aqui falando de uma guerra civil ou de uma intervenção militar. Estamos falando do golpe do colarinho branco. E a raiva era algo deselegante demais para fazer avançar a agenda temível.
Então veio a alegria. Em março de 2016, tudo mudou. Dois acontecimentos pavimentaram a única estrada que o indivíduo-Coca percorre feliz: o pedalinho do Lula e depois o grampo do Moro forjaram um cenário de defesa do inatacável e criaram, durante um período, a ilusão de causa humanitária. Calou-se qualquer opinião contrária e acreditou-se que ser Fora PT não era mais uma posição política.
Acreditou-se que era a mesma coisa que abrir a felicidade.
Considerações finais
Consideração nº1: ter sido um golpe não exime o PT de críticas. Nos últimos anos, o PT exerceu o método Coca-Cola com uma sagacidade que nem o PMBD está sabendo reproduzir.
Consideração nº2: eu não acho que você precisa sair pelas redes sociais publicando os seus ideais. Mas os tenha. Participar da política de uma maneira efetiva está mais para fazer uma fogueira de São João do que soltar fogos de artifício. Não adianta fazer fuzuê esporádico e esquecer de dar a atenção que perfura a superfície do noticiário. Faça isso e vai ficar bem mais difícil de brincarem com a sua opinião e o seu voto.
Consideração nº3: é uma sugestão de leitura. Política — Quem Manda, Porque Manda, Como Manda, do João Ubaldo Ribeiro. Simples, honesto, bom de ler.