Me espera

Hipnótica.

Parecia uma gata ao se espreguiçar. A luz do abajur banhava seu corpo desnudo enquanto ela se espalhava pela cama.

Eu era um espectador atento. Obrigava minha mente a guardar seu olhar provocador, seu sorriso de canto de boca, seus olhos verdes, o desenho da sua auréola… a textura da sua pele.

Ela deitou de bruços e pernas para o ar, as movia de maneira preguiçosa como alguém que lê uma revista na praia.

Fazia isso de maneira dissimulada e descaradamente proposital, pois sabia que me provocava ao fazê-lo.

Quando tardei a responder sua insinuação ela olhou para trás, sorriu maliciosamente e mordeu seu lábio inferior.

Enrubesci.

Que mulher dos diabos. Perto dela me perdia até dos meus pensamentos e os movimentos precisos se tornavam tropeços.

Sentei na cama, tomei seus pés e os beijei. Percorri as esquinas do seu corpo com lábios curiosos até chegar à boca que me correspondeu numa mistura de beijo e sorriso.

Ela se virou e suas mãos se fecharam atrás da minha nuca, envolvi sua cintura e senti seu corpo retrair.

Mãos frias.

Por algum motivo que só a ciência explica, minhas mãos estavam sempre frias e isso lhe causava surpresa e arrepio.

Num eco distante nos corredores da minha mente, uma pergunta reverberava: — Será que eu estou vivendo isso de verdade? Talvez eu tenha morrido num acidente de avião e essa seja a minha versão do Céu.

Mas não pode ser. Isso é tão real, eu estou aqui e isso está acontecendo.

Ela se aninhou no meu corpo e descansou sua cabeça no meu peito.

Seus cabelos eram da cor da areia do deserto.

E seu corpo era voluptuoso vestido de curvas feitas com tamanha perfeição tal qual só a natureza é capaz, Botticelli imploraria por pintá-la.

Tamanho era o nosso sincronismo que até nossas respirações estavam ritmadas.

-Eu sinto como se te conhecesse há anos. — disse.

-Mas nós nos conhecemos . — respondeu sorrindo. — Nós somos os astros antigos, a poeira das estrelas de um céu esquecido. No princípio éramos um e no fim seremos um novamente.

Sorri e a abracei com força. Nossos corpos estavam tão próximos que podia sentir suas palpitações.

-Isso é uma promessa? — perguntei.

-Não.

-Não? — perguntei novamente com uma a sobrancelha arqueada.

-Não é um promessa. — repetiu. — É um fato.

Sorri mais uma vez.

-É um fato, é? — E apertei suas costelas, ela saltou e começou a rir.

E aquela era risada mais gostosa do mundo. Bom, pelo menos para mim.

Nunca tinha estado com mulher árabe e por isso achava seu sotaque engraçado quando falava inglês, posso até estar louco, mas parecia fazer cócegas nos meus ouvidos.

Ouvi ela me chamar de Habib meia dúzia de vezes até que enfim perdi a vergonha de perguntar o que aquilo significava.

-Significa: meu amor.

Sabe, nunca fui bom em relacionamentos. Nunca gostei da ideia de estar preso a alguém. De todos os amigos que a vida me deu, poucos ainda não se casaram e de muitos fui padrinho.

Por isso nunca pensei que encontraria alguém que pudesse chamar de meu amor, ainda mais nos Emirados Árabes. Mas aqui estamos nós num quarto de hotel como viemos ao mundo e como dele sairemos.

-Como você pode saber se eu sou “seu amor”? A gente mal se conhece. — disse eu.

-Eu não preciso saber, só sentir. — ela respondeu. — Se você gastasse mais tempo sentindo ao invés de pensando, também saberia, Habib. — disse com ternura.

Então sem emitir som, chamei-a de meu amor. A sensação era bem-vinda e as palavras verdadeiras.

Meu amor.

Eu insisti tanto em tantos relacionamentos cada um mais quebrado que outro e fui encontrar meu amor onde menos esperava, na conexão de um voo em Abu Dhabi.

Mais uma vez ela repousou no meu peito e silêncio em silêncio envoltos entre as infindáveis camadas de cobertor.

Implorei ao deus do tempo, que as horas tardassem a passar e que aquele momento fosse eterno.

Mas o tempo é senhor do compasso e não pode parar, pois se o fizesse toda a vida cessaria.

Logo veio dia, anunciado pelo sol da manhã que nos acariciava com seus raios de luz morna e gentil.

Ela ainda dormia preguiçosamente sobre o meu peito. Era tão lindo que quase não percebi que prendia a respiração ao observa-la. Ela literalmente me tirava o fôlego com seus lábios famintos e um sorriso convidativo.

Numa prece silenciosa agradeci ao universo, pois ela era muito mais do que algum dia eu poderia merecer.

Ela despertou da divina dimensão que habitava em seus sonhos e me olhou com dor. Sabia que eu teria que partir, caso contrário perderia o meu voo.

Nos abraçamos e assim permanecemos enquanto o sol se assentava no trono do firmamento.

Mas a despedida era inevitável.

Precisávamos voltar para as nossas vidas, deixar para trás o mundo particular que construímos naquele quarto.

-Eu vou voltar. — anuncei. — E essa não é uma promessa, é um fato.

-Eu sei que sim, Habib. Eu sei que sim. — sorriu com um meio sorriso e olhos naufragados.

O motorista estava a minha espera na recepção do hotel. Entrei no carro, mas minha mente permaneceu naquele quarto e duvido que não esteja por lá, mesmo agora depois de tanto tempo.

Voltei para casa, lá do outro lado do mundo, sabendo que em algum dia, não muito distante;

Eu voltarei para o meu amor.

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