E ser vegano vale a pena?

O movimento de pessoas que deixam de comer carne e outros alimentos de origem animal vem crescendo em todo o mundo, mas vem crescendo especialmente rápido em grupos que defendem direitos humanos. É esperado, a idéia de poupar vidas animais é uma extensão clara da idéia de poupar vidas humanas. Para além disso muitos enxergam no veganismo uma forma de boicote específica à indústria da carne, que se comporta como uma grande indústria capitalista: sua sede desmedida por crescimento explora seres, destrói ecossistemas e desperdiça recursos cada vez mais escassos. Mas se a indústria da carne é tão nociva quanto outras surge a pergunta: Porque boicotar essa e não as outras? O boicote à indústria da carne é diferente das outras? Realmente farei alguma diferença no final? São perguntas importantes e as respostas podem ser longas mas são simples de entender.

O problema é maior do que a indústria.

Boicotar indústrias com métodos questionáveis é uma idéia bem simples. A lógica básica é que se muitos consumidores pararem de comprar produtos de determinada empresa ela terá queda dos lucros e terá mais disposição de ouvir as reclamações públicas e mudar seus métodos. Quanto menor for o público consumidor maior será o impacto de um único indivíduo deixando de comprar o produto. Quando o público é muito grande o impacto direto de um único consumidor fazendo boicote é menor, se esse pequeno impacto vale o esforço do boicote é mais um questão de escolha pessoal. Mas no caso do veganismo o boicote é um pouco diferente.

O principal a se entender é que a carne não é apenas mais um produto de uma grande indústria capitalista. É claro que um veganismo consciente se preocupa com a exploração humana e o desgaste ambiental, mais vai além disso. É uma reflexão sobre nossa forma de lidar com outros seres além dos humanos. A carne não é apenas carne, ela é sub-produto direto da morte de um animal senciente que pensa e sente de forma semelhante à nossa. Deixar de comer alguns bifes é literalmente ter menos um indivíduo morrendo, e uma vida não é pouca coisa. É claro que quando somos confrontados com a escolha entre a nossa vida e uma outra desconhecida a decisão é fácil, mas certamente não é esse o caso porque…

Você não precisa de carne.

Claro, os seres humanos são onívoros. Nós temos um corpo inteiro preparado para comer carne (entre outras coisas), e é bem provável que sem o consumo de alimentos animais nossa espécie nunca tivesse chegado onde está. Sim, a carne foi necessária no passado, e ainda é para pequenas tribos isoladas ou residentes de regiões inóspitas, mas para todo o resto de nós ela é completamente dispensável.

A idéia de sociedade é basicamente a construção um ambiente onde as coisas possam ser mais fáceis para todos. A divisão do trabalho serve para que cada indivíduo se ocupe de apenas uma tarefa enquanto os outros cuidam do resto para que todos tenham uma condição de vida melhor. Durante nossa história fizemos muitas coisas para salvar a sociedade que hoje seriam moralmente condenáveis, mas na época talvez não existisse muitas opções. O importante é que conforme desenvolvemos nossa estrutura social, nossas técnicas e nosso conhecimento podemos substituir velhas práticas em por outras que se adequam melhor aos nossos ideais. Comer carne é uma dessas velhas práticas que está sendo substituída.

Com a estrutura que possuímos hoje — agricultura moderna e técnicas de processamento e armazenamento de alimentos — a carne e os derivados animais podem ser facilmente substituídos por vegetais sem nenhuma perda nutricional. Facilmente mesmo: um prato de arroz de feijão possui praticamente todas as proteínas básicas que nosso corpo precisa diariamente. Para ser completamente sincero, existe apenas um único nutriente importante que não é possível encontrar em nenhum tipo de vegetal: a vitamina B12, que é produzida por bactérias que vivem em organismos animais. Mas nem isso é um problema, o cultivo dessas bactérias já é conhecido da humanidade há muito tempo — como levedura — e é bem simples de reproduzir. Inclusive mesmo com um grande consumo de alimentos de origem animal na nossa sociedade a deficiência de B12 é bem comum. Por isso suplementos de B12 podem ser facilmente achados em farmácias, lojas de alimentos naturais ou administrados de graça em postos de saúde pública. E cada vez mais alimentos industrializados recebem adição dessa vitamina em sua fórmula — da mesma forma que quase todo sal recebe adição de iodo e toda farinha recebe adição de ferro.

"Ok, você me convenceu de que eu não preciso comer carne e que deixar de comê-la vai poupar diretamente uma vida. Mas e a pergunta inicial? Virar vegano realmente vale a pena no grande plano? Se eu parar de comer carne vai fazer alguma diferença pro mundo?"

Nós somos pontos de uma rede.

Essa frase é um clichê, mas é real. Desde que parei de comer carne eu notei algumas mudanças, a primeira delas foi em mim mesmo, eu comecei a aprender coisas novas sem nem perceber. Só de procurar receitas vegetarianas você acaba esbarrando com diversos textos que falam sobre nutrição, meio ambiente, biologia, política, sociologia e ética. Se você é curioso como eu vai acabar pesquisando mais sobre essas coisas e ganhando mais consciência sobre si mesmo e sobre o mundo.

A segunda mudança importante foi na verdade com as pessoas que convivem comigo. Eu raramente adoto a postura radical de apontar o dedo na cara de alguém e dizer que ela deveria ser vegana, em geral eu nem mesmo converso muito sobre o assunto com não-vegetarianos a não ser que ele surja. Mas ele acaba surgindo com bastante frequência. Toda vez que vou comer com alguém eu preciso mencionar que não como carne. As vezes a pessoa se mostra curiosa, as vezes ela ignora, e as vezes ela decide transformar isso em um tópico de conversa. E a cada conversa eu tenho a oportunidade de contar um pouquinho sobre as coisas que aprendi, sobre a minha experiência pessoal, e recomendar leituras sobre o assunto. Pode parecer pouco, mas a cada dia eu vejo mais pessoas a minha volta se tornando consciente de sua relação com os animais e se interessando pelo veganismo. Me senti orgulhoso quando ouvi de amigos — que eu nunca imaginei que fossem se interessar minimamente pelo vegetarianismo — que eles estavam considerando parar de comer carne um dia. Pode parecer muito pouco, mas é o primeiro e o maior passo.

É devagar e de pessoa em pessoa, que cresce o veganismo. Eu mesmo só fui procurar saber melhor sobre o assunto depois de conviver com pessoas que pensavam dessa forma. Em uma escala pessoal não parece haver tantas mudanças, mas é um crescimento exponencial e em pouco tempo já obtivemos resultados consideráveis. Só para se ter uma idéia: é estimado que 400 milhões de animais a menos foram mortos no último ano — comparando com 2007 — só nos Estados Unidos graças à expansão do veganismo. Ainda tem dúvida se vale a pena? Bom, assista esse vídeo abaixo e multiplique.

Apêndice
A idéia desse texto era introduzir alguns conceitos básicos de forma simples e direcionada. Mas é importante dizer que o Veganismo vai bem além de apenas não comer carne ou derivados do leite, ovos e mel, existe a preocupação com a exploração de animais em todas as outras indústrias e várias outras formas de atuação. Se quiser saber mais sobre o assunto deixarei alguns sites interessantes aqui embaixo.

Seja Vegano — site com dicas e explicações básicas
Vista-se —famoso site de notícias, receitas e variedades
Veganagente — site com artigos que focam mais na abordagem ética e a relação do veganismo com outras questões sociais
Sociedade Vegetariana Brasileira — principal organização vegana do país

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