Ensaio sobre a Folia (ou Serpentina, Confete e Purpurina)​

Não acredito mais que a vida é uma metáfora. Já devo ter comparado ela a inúmeras outras coisas antes. Contudo, agora que paro para pensar, ela só é. Verbo intransitivo mesmo. Como amar. É que ela é muito mais complexa que uma simples comparação.

Talvez o carnaval tenha deixado o que estava latente mais claro para mim. Porque eu sou do tipo de pessoa que não gosta de carnaval, folia e barulheira. Embora essa subcategoria humana pareça rara, tenho quase certeza que ela está ali perto dos acrianos, ateus, pessoas que não gostam de chocolate e feministas de direita.

Muitas pessoas.

Os seres humanos são engraçados em um bloco. Eles saíram da casa deles onde tem conforto para se misturarem com muitas outras pessoas ao som de uma música que eles geralmente não ouvem na rotina em busca de alguma coisa que poderiam encontrar em outros lugares mais tranquilos: beijar outras pessoas e participar de um show. Mesmo assim, as pessoas vão. É o ser humano irracional. Só que tudo isso acontece com uma quantidade exagerada de gente, na maior parte do tempo, em um calor infernal e elas ainda precisam percorrer alguns quilômetros a pé perto do trio. Está muito quente. As pessoas estão pulando. Suadas. Algumas com o bumbum em algum paredão imaginário. Afinal, se não for assim, nem tem graça. 🎵 Não existe possibilidade de essa ser uma decisão racional mais. Não tem explicação mesmo.

E esse é o claro motivo pelo qual eu não gosto de Carnaval. Muita gente. Muita mesmo. Muita. Sem brincadeira. Muito suor. Muita sujeira. Sob um som que não é o meu favorito. Muitos filósofos são adeptos dessa escola de pensamento, como Nietzsche e Schopenhauer. Eu não.

Não quero de conversas superficiais com um monte de pessoas que eu mal lembro. Se eu quiser manter alguém na minha minha vida, eu mantenho. Ou, talvez, eu não saiba como me livrar deles. O que é geralmente o caso não apenas no Carnaval ou do amor de Carnaval que não sobe serra. 🎵

Só que é no bloco que coisas maravilhosas acontecem. Além das linguadas e dança da manivela. 🎵

Em Salvador, a cerveja é ridiculamente barata. Eu vi gente comprando sem perguntar se os amigos queriam e simplesmente entregando parcas quantias de dinheiro para os ambulantes. Então, os ambulantes as convertiam em algumas latinhas que eram simplesmente distribuídas e compartilhadas por todos. Assim. Sem ninguém pedir. Sem ninguém perguntar. Você recebia uma latinha. Porque o que importa é ter breja gelada. Não importa porque veio. Ou de onde veio. Interessa acontecer. E facilitar o troco também. Óbvio.

Foi no bloco que eu vi uma mulher na cadeira de rodas e várias pessoas fazendo uma corda em volta dela pra que ela pudesse aproveitar. Depois descobri que essas pessoas se revezavam sem necessariamente a conhecerem. Não eram amigos dela. Só queriam ajudar. O mesmo acontecia com crianças. Se algum pai entrou na corda para dançar com as crianças, existia um certo respeito em não empurrar esse novo grupo. Mesmo que o Bell Marques tocasse Minha Deusa (Cabelo de Chapinha). 🎵. É que todo mundo precisa se divertir. Mesmo que todos estivessem tropegamente bêbados. Isso muda o mundo. Não é ficar desqualificando nas redes sociais quem pensa diferente ou escrevendo textão sobre os grupos minoritários. É ir lá e fazer. É cuidar. E se preocupar com alguém que não é você. Reclamar e mimimi não mudam o mundo.

Eu também me perdia. E procurava meus amigos. Algumas vezes os encontrava. Noutras não. Só que — de repente — todo mundo se encontrava. Fosse para tirar uma foto ou para apostar uma corrida de mototáxi na volta para casa. Porque essas coisas acontecem. Tem vezes que você se perde. Tem vezes que você se encontra. Mas tem vezes que te encontram. E você fica feliz assim com o que vier. E, geralmente, vem com cerveja gelada. Mas se não vier, a gente arranja.

Eu também vi amizade e vida quando meus amigos seguravam minha mão se eu estivesse me distanciando. Ou quando eles abriam espaço pra mim no meio do mar de gente como se fossem Moisés só para me deixar entrar. E não era só comigo. Era com qualquer um do grupo que saísse da nossa corda do caranguejo invisível. 🎵 Porque a gente era importante. E a gente só fica mais feliz ainda quando está junto. Bem Into the Wild mesmo. “Happiness only real when shared”. E é bonito ver esse tipo de sentimento mesmo vindo de quem te pergunta se “pintar a cara de neon” é hétero. Porque na hora de unir as pessoas, segurar na mão de pessoas do mesmo sexo é a melhor coisa do mundo. Não interessa se é hétero ou não.

A lata de sardinha.

Também tem emburra-emburra. Mas quem está lá, sabe que não é de propósito. Porque essas coisas acontecem. Tem briga? Tem briga. Mas tem amor e compreensão também. Porque, no bloco, obviamente não existe regras. Então, as pessoas não ficavam bravas por isso. Porque faz parte. É descontrole. É ter seus pés tirados do chão e mesmo assim você se movimentar. É ser arrastado. É remar contra a maré. É não ver a maré. É se sentir no mar e ser engolido pelas ondas. E, quando você coloca a cabeça pra fora da água (ou do suor), tudo mudou. Mas de repente e não mais do que de repente, abre um espaço e você tem onde respirar. Sobra até onde dançar. Você não sabe porque. Mas o porquê nessas horas não interessa mais.

É que isso que é vida. Tem muita coisa que acontece no bloco que é vida. Agir ao invés de só falar. Perder e se encontrar. Passar por perrengues. Encontrar felicidade e amor momentâneos. Mas tem muita coisa que acontece na vida fora dos blocos. Por isso que a vida não é só um bloco. Mas ela também é.

Eu não gosto muito de multidões e folia, mas eu sei porque as pessoas gostam. Elas fazem você se sentir como você não se sentia há muito tempo. É desconfortável. Mas é familiar. É vulnerável. É se entregar e perder o controle. Um eterno ensaio. Tem só vida. Como ela é. Com erros e acerto. E. O mais importante. Tem sempre ambos. Tem sempre o e. Você vê uma síntese dos seres humanos no estado mais natural deles, se eles realizassem os sonhos deles ou se eles perdessem suas esperanças. Ou talvez você veja que eles encontraram o que todos nós deveríamos encontrar: novas esperanças e sonhos. Mas o que interessa é que esse estado natural tem amor. E não desespero. Tem carinho. Tudo intransitivo. Sem dar ou receber. Tem. E só.

Todas as estórias envolvem muitas emoções diferentes, mas todas envolvem amor em diferentes formas e aspectos.

Porque dá para amar o ano inteiro. Até em fevereiro. Até em fevereiro. 🎵