A vida e sua fábrica de sonhos perdidos

O Gabriel queria ser piloto.
Desde pequeno, ele colecionava miniaturas de avião e gostava de ir ao aeroporto. Jogava simulador de voo, amava viajar e dizia para todo mundo “eu vou ser piloto”. A mãe do Gabriel achava graça, o pai dava risada, e a tia exclamava “que menino corajoso! Não tem medo de altura?”. Eu não tenho medo de nada!Já no ginásio, o Gabriel ainda se agarrava ao sonho e em todas as suas viagens ele dava um jeito de fazer amizade com os comissários de bordo, se aproximar no comandante e chegar até o piloto — é que o Gabriel só se aquietava ao entrar na cabine e ver todos aqueles botões no painel e o azul do céu bem à sua frente. Então a empresa do pai do Gabriel deu certo e se expandiu, sua mãe parou de trabalhar e virou madame e ele, quase se formando, já dava aulas de matemática pros colegas em recuperação. E aí o Gabriel, ao contrário do tal João de Santo Cristo, entendeu como a vida funcionava; ela era uma simples equação: eu bom em matemática + grande empresa herdada do pai = administração. A mãe aplaudiu, o pai se emocionou e o Gabriel deixou o seu sonho pra lá.
A Bárbara queria ser professora.
E não era por menos; a Bárbara estudou na melhor escola da cidade e aprendeu com os melhores mestres. Ela tinha até um professor que fazia música com o assunto de física e ela, mesmo odiando física, conseguia, então, se dar bem. A mãe da Bárbara era arquiteta e chegava em casa todo dia cansada, reclamando da vida que levava. O pai era cirurgião geral, estava sempre correndo para alguma emergência e dormia muito mal. Mas os professores da Bárbara chegavam na escola todo dia às 7h, davam aulas até as 18h e, ao final, iam embora contando piada e dando risada. E no outro dia voltavam com a mesma vontade de trabalhar que, Deus é mais, parecia até loucura. Mas a Bárbara morava num bairro nobre do Rio de Janeiro em uma casa de 2 andares e tinha motorista à disposição, e aquele professor de física tinha um gol velho e um tanto acabado, caindo aos pedaços. E aí os pais da Bárbara fizeram o terror, a menina recuou e ano passado eu ouvi dizer que a Bárbara é uma boa cardiologista.
O Fernando queria ser ator.
Quando criança, ele era viciado em televisão. Assistia novela, os filmes dublados do canal não pago e gostava até das propagandas do supermercado. A mãe do Fernando era mãe solteira e não dava muito dinheiro pro menino ir ao cinema; ela dizia que era desperdício de dinheiro. E teatro? Nem pensar, muito caro. Vai estudar, menino. A mãe do Fernando tinha um bar e, junto com o pouco que recebia de pensão para o filho, conseguia pagar uma escola boa para o menino. Ele tinha que ser alguém na vida, afinal. O Fernando gostava da escola, tirava nota boa e começou um bico de gerente do bar. Um dia, sua mãe descobriu que o Fernando estava gastando seu dinheiro com uma oficina de ator e ficou uma fera. Vá estudar, faça o favor! E aí tudo piorou. A mãe do Fernando virou um monstro, jogou todos os filmes fora, queimou os livros e passou a tratá-lo mal até que ele caiu em depressão. O Fernando, então, só tinha dinheiro pra terapia e pros tarja-preta e, já mais velho, confessou como se fosse normal: “que sonho é esse que só me fez mal?” A mãe dele já morreu e agora ele cuida do bar.

O Fernando virou alcoólatra. A Bárbara é uma cardiologista bem sucedida em sua profissão, mas vive reclamando da vida que leva, está sempre correndo pra alguma emergência, dorme mal e não quer filhos por medo de serem infelizes. A empresa que o Gabriel herdou do pai quase faliu no ano passado e ele acabou vendendo a sua parte. Ele até pensou em estudar para ser piloto, mas ele já estava velho demais pra isso…

A Ana é engenheira mas queria mesmo era ter feito Física.
O Matheus é arquiteto mas se arrepende por não ser psicólogo.
A Luiza é decoradora mas sempre sonhou em estudar design.
O João Pedro é advogado mas ainda deseja, secretamente, ter sido astronauta.
A Flora queria cantar, o Daniel queria tocar mpb, a Marcela queria ser jornalista, Douglas queria virar dançarino, Rebeca queria estudar história, o Paulo queria fazer educação física…
Eu queria estudar cinema. E você?

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