Então volta.

Chaticiando
Aug 24, 2017 · 2 min read

Vem. A cama ainda está vazia e o controle da televisão ainda repousa onde você o deixou pela última vez, do seu lado, para saciar seu vício antes do sono chegar enquanto eu lia algum livro velho que você não entendia muito bem. Volta. A cafeteira que você tanto gosta ainda está na cozinha, aposentada, em uma espécie de folga pois eu nunca mais tomei café depois que você foi embora.

A varanda ainda está aberta para a nossa brisa do mar entrar.

E minha porta também, para quando você resolver voltar. Volta.

Porque, desde quando você foi embora, eu não consigo mais passar naquela padaria que vendia seu pão favorito e nem usar meu perfume preferido que você tanto gostava. Eu não vejo mais comédias românticas e nunca mais li poemas de amor. E eu também excluí aquela música do meu velho computador. Porque você costumava cantá-la pra mim nas manhãs de domingo, enquanto fazia o meu ovo mexido para eu acordar de bom humor.

Desde que você foi embora, eu nunca mais acordei de bom humor. Então volta.

Volta porque eu deixei tudo igual. O quarto, a estante, e até os seus cds de carnaval que eu vou tocar assim que você entrar por aquela porta. Vai ter até trio elétrico e sua cerveja favorita. E eu vou ter mais fôlego para sambar com você a noite toda na nossa avenida.

Volta porque eu prometo que mudei. Tenho dormido menos, ido à praia e nunca mais fumei. E ando até menos ranzinza, menos fria e menos preguiçosa — mas confesso que continuo chata. Agora eu acordo cedo no domingo, ando de bicicleta e voltei a frequentar o cinema. Eu comecei a trabalhar, voltei a estudar e aprendi a cozinhar. E eu juro que parei de bagunçar a casa tanto assim, e a vida também. Vem.

Ainda tá tudo aqui. Seus antigos projetos, seus antigos óculos, seu antigo amor. E aquela sua camisa velha que eu tanto gostava e agora já desbotou. A vista pro mar continua bonita, e o vizinho brigão, graças à Deus, já se mudou. Sua gaita está aqui e o violão também esperando você voltar para compor.

Seu cheiro ainda está no meu cobertor. Sua foto, no corredor.

E a dor também.

Tá tudo aqui. Só falta você.

)

Chaticiando

Ticiana é uma obra de ficção. Qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência — ou não.

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