Fiz um teste de ancestralidade
Há uns 2 ou 3 anos, por conta de diversas razões, eu decidi resgatar um pouco mais sobre minha ancestralidade indígena. Posso discorrer melhor sobre esse assunto em um outro artigo, mas este, em específico, será dedicado ao recente teste de ancestralidade genética que fiz.
Sempre ouvi de minha finada avó que tínhamos ancestrais indígenas aldeiados vivendo ao nordeste do Brasil. Ela, como indígena assimilada, nunca lhe ocorreu que era indígena por conta de viver em uma vila e usar roupas. Porém era, assim como sua mãe e seus irmãos no sertão de Pernambuco.
Dentro destes dois anos, o aprendizado foi muito grande. Conheci pessoas que me ensinaram muito, pude conhecer mais sobre o povo de onde descendo e resgatar o pouco que um nascente da cidade consegue de uma cultura tão rica.
A razão de eu decidir fazer um teste, é por conta da grande mistura que visivelmente está estampada na minha cara. Tenho olhos claro, nariz e boca largos, pele morena, ausência de pelos no corpo e cabelo liso. Ou seja, não tenho 100% de um lado, nem do outro. Outro motivo foi o fato de muitos familiares negarem, por razões de preconceito, nossa ancestralidade indígena, ou até levá-la em tom de brincadeira ou de menos importância. Mas quando o assunto era um parente de fora, na hora via-se o interesse em até conseguir uma cidadania.
Procurei diversas empresas, muitas delas não conseguem atender o Brasil e, as que conseguem, cobram um valor absurdo. Encontrei por acidente a MyHeritage em um vídeo no YouTube e me pareceu conveniente pelo preço. O prazo é bem demorado, mas compensa para quem não pode pagar o serviço nacional.
O pacote chegou. É um pequena caixa com dois frasquinhos mugidos de um líquido que parece ser para conservar a saliva que você irá retirar das suas bochechas com um cotonete próprio, também parte do kit. Após a coleta, você insere os dois frascos em um envelope com ziplock, depois em outro com plástico bolha por dentro, depois em um maior com o endereço do escritório do MyHeritage em Campinas. O envio deve ser feito primeiro para este endereço para se certificarem que tudo foi feito corretamente e de lá é enviado pela própria empresa ao endereço dos Estados Unidos. O bom é que eles possuem um app onde todo o processo pode ser acompanhado em forma de linha do tempo.
Depois de longas 4 semanas, o resultado veio!

Me surpreendeu muito! Eu esperava, por conta das histórias que ouve-se nas rodas de família que teria ao menos uma pequena porcentagem de Ibéricos no sangue, por conta da mãe de meu avô materno que veio da Ilha da Madeira, atual ilha e território português, mas também muito próximo da Sardenha de onde tenho uma porcentagem considerável, e do Norte Africano, também considerável. Mas, incrivelmente, eu tenho um total de 0% de ibéricos. Minha esposa é bióloga, e me explicou a razão disto: Provavelmente os pais dela não viveram por muito tempo em Portugal ou nem mesmo eram de lá. Para se criar um traço genético próprio daquela região, são necessárias algumas centenas de anos vivendo naquele local.
Na Sardenha eu tenho 17.5%! Eu, sinceramente, já tinha ouvido falar mas nunca achei que era um território independente da Itália, quiçá ter um traço genético diferente. Isto porque a Sardenha teve, em algum momento da história, descendentes Africanos incorporados no território. Possuem até uma língua própria, o Sardo!
A próxima é o Norte Africano 15%, países como Egito, Marrocos, Tunísia, Argélia e Líbia. E sul africano, Nigéria 4,5%. Eu não tenho nenhum parente imigrante desta região, então, tudo me leva a crer que são originários do período escravocrata brasileiro e do lado paterno da família, onde se encontram pessoas pardas (negros de pele clara) e indígenas de gerações passadas. É um número que me deixou feliz, pois agora eu sei que não sou descendente de escravos, mas de pessoas da região norte e sul africana.
Outra que me deixou extremamente pasmo, foi a Irlandesa, Galesa e Escocesa de incríveis 22.1%. Isso é MUITA coisa, e como irlandeses vieram parar em um dna de um brasileiro? Pesquisei sobre o tema e vi que em meados de 1850, no período da grande fome na Irlanda, formou-se uma colônia de Irlandeses chamada D. Pedro II, situada em Pelotas no Rio Grande do Sul. Mas isso me deixou ainda mais confuso porque além de eu não ter nenhum histórico disto na família, ninguém jamais se relacionou com pessoas do sul do Brasil. É um mistério hehe.
E agora, a parte que mais me deixou feliz, foi os 26% mesoamericano e andino! Eu imaginava que daria alguma coisa de indígenas, mas pensaria que seria muito pouco por conta das miscigenações e o processo agressivo de assimilação do Brasil. Mas ter mais de 1/4 do meu dna indígena me deixou muito feliz mesmo. Isso mostra o quão resistente foram meus ancestrais e o quão longe conseguiram espalhar e manter sua linhagem.
Mas, isso ainda me deixa confuso. Nas categorias de genética da América estão: Mesoamericano e Andino, Nativos Americanos, Nativos Amazônicos. Os nativos amazônicos são os que conhecemos como tupis e tapuias, os povos que vieram do reino mongol e atravessaram o Estreito de Bering e chegaram nas Américas. Pois bem, eu tenho 0% de nativo amazônico. Minha teoria para este acontecimento é: durante a queda do império Quechua, mais conhecido como Inca, muitos indígenas foram assimilados aos países da cordilheira, formaram outros povos ou migraram para os países vizinhos. Minha teoria é que houve uma imigração de andinos para o Brasil e estes foram inseridos na cultura local e aceitos dentro do convívio das aldeias e se tornaram parte do povo Tapuia nordestino. Isso não e muito difícil de acontecer, recentemente tivemos casos de imigrantes indígenas da Venezuela desembocando no Rio Grande do Norte procurando abrigo. Somos um povo nômade, caçadores-coletores, então, imigrar em busca de melhores condições de vida está no instinto de qualquer animal, não só no nosso.
Também procurei ver vídeos de outros brasileiros do nordeste que fizeram o teste do MyHeritage. Incrivelmente encontrei muitos não só com as mesmas etnis que eu, em porcentagens diferentes, mas também nenhum deles apresentou um nativo amazônico como porcentagem, mesmo que mínima. Realmente, não sei o que pensar, pois o que poderia me iluminar mais a cabeça quanto a minha etnia, me deixou com mais dúvidas. Fora que não há uma predominância, todas são um punhadinho de cada lugar do mundo, 26 aqui, 22 ali, 17 acolá…
Pra encerrar o texto ainda com mais mistérios, eu tenho 0,8% de papuanos, ou seja, nativos da Papua Nova Guiné, situada acima da Austrália. O incrível é que as rotas de imigração destes povos, vão no máximo, até a Indonésia. O que pode ter ocorrido seria uma miscigenação no período de colonização da Inglaterra na Austrália, porém, eu tenho 0% de inglês no meu DNA também… e agora?
Concluindo, isso só me alimentou mais ainda, apesar das confusões, a vontade de conhecer mais sobre minha família e não somente o lado indígena, mas o que realmente aconteceu ao longo da história para que estes povos chegassem até aqui comigo.
Fora o lado do dna, também tenho a minha busca ancestral indígena. E o fato de ter me aprofundado na cultura indígena primeiro e entender a forma como eles vêm o mundo e encaram as diferenças, me fez entender com muito mais maturidade as misturas que tenho em mim e respeitá-las.
Este processo me fez abrir a mente e ter uma admiração muito grande por todos os meus antepassados. São povos guerreiros que enfrentaram cada um a sua batalha, da sua maneira, seja ela com flechas, navios negreiros, trabalhando ou suportando condições que eu nem poderia imaginar para que hoje eu estivesse aqui.
A única palavra que eu consigo pensar se eu pudesse dizer a cada um deles seria “Obrigado”.
