Sem avós nem superegos

Foto por Revati Upadhya

Estudos antropológicos sistemáticos, feitos em países onde se faz antropologia de forma sistemática, demonstram que o principal preditor do aumento da criminalidade é a desestruturação das famílias.

Quer dizer, quanto mais filhos nascidos sem pai nem mãe, sem tio nem primo, sem avós nem superego, maior a taxa de criminalidade quando estes chegam à adolescência.

Eu não estou dizendo, como já me objetaram uma vez, que se você é filho de mãe solteira necessariamente vai ser criminoso. Quer dizer que uma proporção ínfima de um montão de gente é maior que uma proporção ínfima de um pouquinho de gente. E também que essa proporção, que um dia foi ínfima, agora é um-mais-ínfimo elevado à enésima.

Quer dizer que crianças que percebem que se seus pais podem fazer um filho e sair soltos pelo mundo sem nenhuma obrigação ou conseqüência, também vão ser mais propensos a pensar só em si e não nos outros.

Quer dizer que jovens que crescem sem limites, irão abusar dos outros. Crianças que crescem sem experimentar um amor que se expressa pelas pequenas renúncias de si mesmo e pelo serviço, vai achar que amor é apenas saciar as próprias paixões. Criança que cresce sem vivenciar o prazer de fazer o certo e as conseqüências de fazer errado, não vai ter problema nenhum em prejudicar o próximo em benefício próprio. Criança que cresce sem entender que todas as pessoas do planeta são sustentadas pelo esforço de alguém, vão crescer sem entender que é imoral forçar outro a trabalhar para o sustentar sem receber nada em troca.

A maioria dos filhos de mães solteiras acabam tendo figuras parentais fortes em outras pessoas da família e aprendem, embora com sofrimento, que as pessoas estão conectadas por essa malha infinita de laços de dependência e respeito mútuos. Nem todos têm uma família grande que chega para fornecer essa rede de segurança. A esses a comunidade deveria socorrer, mas quase não existem mais comunidades, só amontoados de pessoas que por acaso moram uma ao lado da outra.

A migração para os centros urbanos somada à constante pregação revolucionária de destruir a família tradicional e as normas morais transmitidas de pais para filhos dissolveram essas redes de segurança. Cada vez mais pessoas estão sendo criadas sem conhecer nem fé, nem lei, nem rei. Sem um avô de quem se aprenda a consertar cercas e fabricar carrinhos de lata. Sem uma avó de quem se aprenda a ajudar sem esperar nada em troca e que ociosidade é pecado. Sem um vizinho de quem se aprenda a socorrer estranhos em perigo ou a necessidade de ajudar a quem não tem mais ninguém no mundo. Sem mãe, porque ou ela sempre trabalha, ou está terminando o segundo grau, ou simplesmente está solta a curtir a vida sabe-se lá onde. Sem um pai porque sumiu antes da criança falar, ou mesmo nascer.

É fácil para os apressados concluir então que a culpa, antes de tudo, é dessa menina que engravida antes de completar o ensino fundamental, é desse menino que só quer curtir e sair correndo. que a culpa é da falta de camisinha, ou da falta de aborto grátis em escala industrial.

A culpa imediata é sim dos pombinhos, mas é uma culpa singular e localizada. Infinitamente mais culpado é quem fez a engenharia social para remover toda uma série colossal de sistemas de segurança que ofereciam proteção contra esse risco de os filhos crescerem sem família e sem comunidade. Proteções familiares, sociais, morais, educacionais, e religiosas que foram sistemática e impiedosamente atacadas e destruídas. Esses são culpados no atacado, culpados da culpa dos outros.

A culpa é daqueles que por mais de um século, e furiosamente nas últimas décadas, martelaram sempre e de novo que a família deve ser destruída, ou redefinida ao ponto da extinção das definições.

A coisa chegou ao ponto de a própria expressão “minha família” ter deixado de significar “todos os cento e cinqüenta descendentes vivos da minha trisavó” e passado a significar “meu pai, minha mãe e meus irmãos”, ou mais recentemente, “eu, meu parceirx, um gato, dois cachorros e um papagaio”.

A culpa é daqueles que disseram que a principal missão civilizacional para entrar na utópica era de paz e amor era destruir todas as religiões, remover todos os códigos morais, subverter toda autoridade.

A culpa é daqueles que ensinam que o belo é errado, e formaram geração após geração de empilhadores de concreto disforme que encarceraram nossas cidades em feios e sujos labirintos cinzentos. Daqueles que selecionaram geração após geração de cantores, poetas, escritores e pintores que louvam o péssimo, o feio, o agressivo, o monstruoso, relegando as vozes em contrário à obscuridade.

A culpa é daqueles que celebram e enaltecem o modo de vida dos criminosos enquanto recriminam e envergonham os honestos. Daqueles que pregam que um mundo melhor virá da divisão e do ódio entre classes, raças, sexos, hemisférios.

Quer saber de quem é a culpa pela criminalidade? Leiam os manuais revolucionários que a cem, oitenta, cinqüenta, trinta anos atrás, ensinavam que se deve criar hordas de ladrões e assassinos e lançá-la contra o mundo em vagalhões cada vez mais volumosos.

Tudo isso não é a conseqüência de uma suposta evolução natural e inevitável das sociedades. É fruto de planejamento, esforço e muitas correções de rumo ao longo do caminho. É o resultado de um trabalhoso e demorado processo de engenharia social, planejado por teóricos e executado por centenas de milhões de devotos ao longo de mais de um século. De uma multidão multipolar e difusa de executores, fervorosos ou inconscientes, inspirados por um punhado de gatos pingados que se arrogaram reformadores da natureza humana.

Enquanto nos prometiam o paraíso terrestre, instilavam seus seguidores a fazer o mundo cada vez mais parecido com aquele outro lugar, exigindo fé inquestionável na crença de que, de alguma forma mágica, do inferno na terra viria a salvação.

Um dia Ela virá, mas não deles. E não para eles.

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