1h.

No mesmo dia cinza em que a cidade abrigava o evento que poderia mudar o país, nada poderia mudar a vida dela, afinal ninguém tem compaixão com mãe solteira, largada as traças fazendo chá de cidreira pra acalmar a cria, ninguém oferece companhia ao sábado frio e cinza, ninguém quer saber da realidade das noite em claro, mas se ela acender um cigarro pra matar a ansiedade coitada dessa criança, ninguém quer esse cotidiano.

Sobre todos os esforços de se manter sã apesar dos abusos psicológicos ela poderia ser Clarisse, poderia ser Valeria mas ela é um pouco de todas essas que ficam presas dentro de um apartamento de três cômodos esperando o final de semana passar de novo sem saber quando na vida que acaba a rotina degradante, ela odeia Bukowski…por que sabe que ele provavelmente não sabia o que era sentimento de vazio perto daquilo

Vocês não sabem o que é vazio, não vocês não sabem.

Ela aguardava a próxima hora de sono entre a criança e o gato e planejava o quanto conseguiria viver dentro dessa uma hora ou o quanto poderia pensar.

A sociedade era hipócrita.

Era essa a conclusão, e quanto a esses fatos sempre haveriam argumentações, mas ela não estava nem ai, provavelmente continuaria frio lá fora, as notícias no telejornal continuavam as mesmas, ela continuava interessada nas notas de roda pé, falaram que semana passada havia morrido alguém na rua debaixo, disseram que era cobrança, mas ela nem tinha mais tempo pra isso, a fralda estava acabando, e ela já se sentia um norte sem o norte porque todos os dedos que mais pareciam bússolas sempre apontavam para ela…

Fodam-se ela pensou.

Pegou o cesto de roupa e continuou aproveitando sua uma hora.

Quem sabe de tempo de tomar um banho.

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