o pavor de ter lido tudo errado

porque eu sempre entendi mais de química e parecia improvável que tivesse acontecido

a gente estava conversando sobre essa minha mania de querer explicar tudo de forma mais racional possível quando você perguntou se eu conseguia explicar tudo. claro que eu não sabia tudo tudo, mas existia sim a explicação.

então você perguntou se o amor realmente existia por esse aspecto, o que pra mim foi uma pergunta estúpida, porque é claro que existe uma cadeia de reações químicas que faziam com que nós sentissemos o que é conhecido como amor, e você riu porque — suas palavras, não minhas — era adorável.

alguns dias depois a gente estava conversando sobre a presença da proporção áurea — na verdade, eu falava e você fingia se interessar — quando você se ajeitou no banco e seu braço tocou o meu e eu só consegui pensar que, merda, não era para meu coração acelerar com isso, mas ao mesmo tempo seus joelhos estavam inclinados na minha direção, sua mão estava suada e as pupilas maiores e talvez não tenha sido um acidente, e então minhas palmas estavam suadas, meus joelhos em sua direção e com certeza minhas pupilas estavam pequenas.

você se virou para entender meu silêncio repentino e eu te beijei. não podia ter errado, porque tudo na sua linguagem corporal mostrava que no mínimo uma atração existia.

e então você não reagiu e eu me afastei porque eu não podia ter errado. foi apavorante pensar, mas você não tinha reagido pela surpresa e eu estava com tanto pavor de ter lido os sinais errado que essa possibilidade, de você precisar processar o que tinha acontecido, nem me passou pela cabeça.

— meu hipocampo resolveu relacionar o cheiro de canela a você, meu sangue está correndo e se concentrando em pontos específicos, minha temperatura subiu e noradrenalina 'tá fazendo meu coração a acelerar. a dopamina que está sendo liberada faz eu me derreter por você e a serotonina faz com o que eu tenha o mesmo nível de dependência por ti do que um viciado tem por cocaína ou heroína, e aquele simples encostar fez endorfina suficiente ser liberada a ponto de eu sentir a região onde nos encostamos formigar e, racionalmente falando, meu cérebro ligou hormônios bons à sua imagem e tá se esforçando pra te fazer prestar atenção em mim, e é uma coisa estúpida de se dizer, mas segundo o senso comum você tem meu coração."

e então você me beijou, e de repente eu não precisava explicar racionalmente a sensação de borboletas na barriga.

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