Quando não se há nada para escrever

Estou em um projeto de livro há três anos. A ideia dele, um romance bobinho, surgiu há cinco. Os personagens? Seis. E o quanto tenho escrito?

Algumas folhas de um caderno antigo com informações. Algumas úteis, outras tão pouco servem para limpar meu chão. Algumas frases transformaram dois capítulos em uma chamada boa, e outros tantos a frente são apenas pedaços de uma mente distorcida.

Tenho capas. Milhares e uma diagramação linda. Pesquisei fontes, estilos e design. Cidades, costumes, línguas e gírias. Tenho informações sobre cada morador da cidade, o que comem, como vivem, o que gostam. Sou uma deusa nesse mundo, mando e desmando. Trago vida, trago morte, trago futuro — mas ele nunca vem.

A cada frase que leio, perco-me mais dentro da história. Não vejo um começo, tão pouco um final. Passo a adiante, tenho uma ideia deles dois — o casal principal. Escrevo:

Martin a envolveu nos braços embaixo do céu estrelado. Transformava Ártemis em uma mera borboleta no casulo de seus braços. Agarrava ela com tanta força que mesmo o ar se tornava difícil de respirar. Ela, por sua vez, queria o beijar para sempre, viver aquele momento. Viver até quando Martin, o carinhoso e incrível, parasse de ser tão rabugento. Era bom mergulhar no torso dele, inalar o perfume mentolado até o sono aparecesse. O diferente daquela noite, ela não queria dormir.

Por quanto tempo ele cediria ao amor dela?

Abraçou o corpo dele em meio das lágrimas, não esperava por tamanho sentimento. Eles estavam ali, apenas os dois e mais nada. Eles e um mundo barulhento, onde cada ser humano barulhento vive sua vida — igualmente barulhenta.

Apago. Ainda não está bom, e nunca será bom.

Quando eu era pequena, minha mãe se irritava com essa mania. Porém, ela pouco dizia; carregava na cabeça o mesmo dilema. Perfeição em tudo. Se houvesse um simples móvel torto, ela arrumaria sem pensar duas vezes.

Sou uma versão mais nova da minha mãe. Invés de móveis e itens de decoração, tenho textos e notas (uma grade extensa também). Enquanto tudo não estiver no local exato, do modo mais perfeito, nunca seremos feliz. Enquanto não tirar pelo menos um oito, me culparei pelo resto do semestre. A voz cruel da perfeição nunca dorme ou descansa, ela fica ali, de pé te esperando.

Você acredita que pode, mas não consegue arrumar um simples tapete no lugar. Você, o humano desenvolvido, capaz de ter um polegar opositor, porém incapaz de ajeitar toda decoração corretamente. Você, que conseguiu uma bolsa boa na faculdade agora lida com duas notas ruins. Você, vencedora de inúmeras competições de redações, está com problemas na própria escrita. O dom sempre admirado por todos não passa de um mero detalhe na rotina.

E quando seremos feliz?

Nunca, porque a perfeição não existe. Você pode tentar: dez, vinte, mil vezes, seu texto nunca ficará perfeito. Ficará bom, mediano, aceitável. Mas nunca perfeito. Perfeição é uma meta extrapolada e igual a modelo da channel com dietas malucas, reviso dia e noite.

Escrevo o começo; ela aceita uma vaga de emprego, ela termina um namoro, ele sofre com uma traição. Mas nada muda, nunca está bom. Apago a pasta com raiva e cansada de não haver palavras, sentimentos capazes de me expressar. Tento novamente. Não olhe para o lado, senão verá seus conhecidos com histórias prontas, personagens construídos e cenários bem descritos. Escreva mais até que sinta-se vazia e venha ao Medium desabafar sobre notas e o seu próprio vazio. Ligue para ele, chore das notas, da escrita, da dieta que de errado e você sente-se cada dia mais feia, cada mais fundo na própria cova. Tenha vergonha antes de falar e desligue, vá escrever, pelo menos uma porção de palavras você deve saber usar.

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