[ATUALIZADO] 23 perguntas sobre Ciro Gomes

O questionário a seguir “organiza ideias” sobre Ciro Gomes, pré-candidato a presidência da República em 2018. As respostas, obviamente, não são isentas de opinião, mas o processo de construção do texto foi todo embasado em pesquisas e na crítica das fontes. O formato FAQ foi o que melhor atendeu às demandas do autor. Leia sem preconceitos.

Foto: Carta Capital

#1 Quem é Ciro Gomes?

Ciro Ferreira Gomes (1957-) é advogado, professor, ex-procurador de Sobral (CE), ex-deputado estadual, ex-prefeito de Fortaleza (CE), ex-governador do Ceará, ex-ministro da Economia (1994), ex-ministro da Integração Nacional (2003–2007), ex-deputado federal, ex-secretário da Saúde do Ceará, ex-diretor da Transnordestina e militante político. Foi candidato a presidência da República em 1998 (3º lugar) e 2002 (4º lugar). Em duas ocasiões, de 1995 a 1997 e de 2010 a 2012, se afastou da política. A partir do segundo mandato de Dilma Rousseff, entretanto, voltou à cena brasileira, atuando como um dos mais convictos defensores da manutenção do mandato da presidenta. A luta contra o impeachment, a recente filiação ao Partido Democrático Trabalhista (PDT) e seu bom desempenho nas pesquisas de opinião fazem dele um dos virtuais candidatos à presidência, em 2018.

#2 Os Ferreira Gomes são coronéis oligarcas do Nordeste?

Não necessariamente. A família Ferreira Gomes é, sim, um dos principais clãs políticos de Sobral, no norte do Ceará, mas suas características fogem daquelas usadas para descrever as elites mais tradicionais da região. O bisavô de Ciro foi o primeiro intendente da cidade, em 1890; seu avô, foi vereador e deputado; o pai, prefeito do município no final dos anos 70. Essa intermitente participação na vida política sobralense deu à família a pecha do coronelismo oligárquico — ressaltada pelas eleições de Ciro, Cid e Ivo Gomes para diferentes cargos políticos de Sobral e do Ceará. Em 2007, a Revista Piauí publicou um perfil sobre o poder dos Ferreira Gomes no Estado. Na matéria, o conceito de oligarquia aparece como o de “regime político em que o poder é exercido por um pequeno grupo de pessoas, pertencentes à mesma classe ou família” (a autora da matéria revelou ter retirado a afirmação do dicionário Houaiss). Essa definição, no entanto, despreza as peculiaridades dos Estados periféricos do Brasil, nos quais o poderio oligárquico não se limita apenas ao pertencimento a um grupo, mas sim à hegemonia econômica (geralmente ligada à posse de terras) e midiática (através da concessão de rádios e TVs). É bom lembrar, nesse sentido, que os Ferreira Gomes não possuem tais atributos: eles não têm empresas e o poder midiático cearense pertence totalmente a grupos opositores à família. O poder deles se esgota, portanto, na política em si.

#3 Ciro Gomes apoiou a ditadura e fez parte da ARENA?

Não. José Euclides, o pai de Ciro, foi prefeito de Sobral entre 1977 e 1982. Ele era filiado a ARENA local, usada para abrigar candidaturas como a do próprio José Euclides — desligada da política nacional. Quando o pai era prefeito, Ciro foi designado procurador do município e, em 82, se candidatou a deputado estadual. Até então, o jovem advogado não havia se filiado a nenhum dos poucos partidos políticos que então se reorganizavam, nos estertores da ditadura. No afã de eleger o filho, José Euclides conseguiu ajeitar (fora do prazo) a candidatura de Ciro no PDS, sucessor da ARENA. Como não era simpático aos coronéis das velhas famílias que dominavam Sobral e também não concordava com os candidatos do partido que se opunha às Diretas Já, Ciro Gomes defendeu o “voto camarão” (eleger vereadores e deputados; votar em branco para prefeito e governador). Eleito deputado, com cerca de 18 mil votos (a maioria de eleitores sobralenses), migrou para o PMDB, em 1986. No livro Ciro Gomes no país dos conflitos, ele afirmou que o PDS do Ceará era melhor, porque era livre de cartilhas e não cerceava seus filiados, enquanto o PMDB era uma “canalha” que “não vale nada”.

Ciro Gomes e Tasso Jereissati, na campanha do primeiro ao governo do Ceará, em 1990 (Foto: Instituto Queiroz Jereissati)

#4 O governador Ciro “revolucionou” o Ceará?

Não, mas fez um bom trabalho. Em meados dos anos 80, um grupo de empresários ligados ao Centro Industrial do Ceará (CIC) começou a gestar um projeto de modernização administrativa, econômica e política para o Estado, à época um dos mais pobres do país. O líder do grupo era Tasso Jereissatti, que conheceu e se tornou amigo de Ciro Gomes quando este era deputado. Em 1986, Jereissati e o CIC resolveram peitar os coronéis cearenses que há mais de um século se revezavam no poder. No PMDB e com o apoio de Ciro, Tasso venceu as eleições estaduais daquele ano e iniciou o chamado “Governo das Mudanças”, um case da administração pública brasileira. O projeto consistia, basicamente, num programa de modernização administrativa baseado em austeridade racional, transparência e profissionalização da gestão pública. Logo no primeiro ano, o novo governador demitiu mais de 40 mil servidores públicos fantasmas, reorganizou as finanças, quitou salários atrasados e pôs em prática um plano de investimentos em novas empresas. Ciro Gomes foi escolhido por Jereissati para ser seu líder na Assembleia Legislativa e, em 1988, foi ungido pelo governador para ser candidato a prefeitura de Fortaleza — eleição que venceu com folga. Gomes assumiu a prefeitura da capital do Ceará em meio a uma grande crise econômica, mas deu conta dos principais problemas em pouco tempo. Em 90, quinze meses depois de empossado, o Datafolha apurou que 77% da população fortalezense aprovava a gestão do jovem prefeito — qualificado como o melhor das capitais brasileiras. Em meio a toda essa popularidade, Ciro Gomes renunciou ao cargo e se candidatou à sucessão de Tasso Jereissati, vencendo a eleição para governador novamente no primeiro turno, com 56% dos votos. No governo, ele ampliou o mudancismo, atraindo investidores, criando um sistema unificado de fiscalização e cobrança de impostos para reduzir a sonegação e diminuindo drasticamente algumas das maiores mazelas cearenses, como a fome e a miséria. No governo de Ciro, o PIB do Ceará aumentou em 8%, os investimentos em saúde e educação subiram 50% e o Estado zerou suas dívidas. As mudanças obtiveram avanços significativos, como a drástica redução nos índices de mortalidade infantil, uma conquista que rendeu ao governador o prêmio Maurice Patè, do UNICEF (Ciro Gomes foi o primeiro latino-americano a receber a reverência). Em 93, 74% dos cearenses aprovavam a gestão do chamado “menino prodígio” da política.

#5 Ciro Gomes é o “pai” do Plano Real?

Não, nem de longe. No final dos anos 90, a ala de jovens peemedebistas que não se identificava com as práticas do governo Sarney (1985–1990) e com a fisiologia crônica do partido decidiu criar uma nova sigla, inspirada na social-democracia europeia. O Partido da Social Democracia Brasileira, PSDB, era a esquerda do PMDB e chegou a apoiar Lula no segundo turno das eleições de 89 (a História é implacável…). Tasso e Ciro figuram como fundadores da agremiação no Ceará. Gomes foi, inclusive, o primeiro prefeito e o primeiro governador eleito pelo novo partido. Esse pioneirismo ajudou o presidente Itamar Franco (1992–1994) a escolher o dinâmico político cearense como ministro da Fazenda, quando o cargo ficou vago em 94, em meio à consolidação do recém-nascido Plano Real. A nova moeda foi implantada a partir de um ambicioso plano que teve em Fernando Henrique Cardoso seu primeiro chefe. Fernando Henrique foi convidado por Itamar para ser ministro da Fazenda em 93, em meio a uma inflação de 2.400% ao ano. À frente de uma poderosa equipe econômica, FHC lançou um plano dividido em três fases, duas delas ligadas à estabilização. Em 94, ele se desligou do governo para concorrer à presidência e Rubens Ricupero assumiu a Fazenda, lançando o Real como moeda logo em seguida. Ricupero acabou tendo vazada uma polêmica conversa com o jornalista Carlos Monforte, bem no meio do processo de consolidação da nova moeda e foi substituído por Ciro. Em 8 de setembro de 1994, depois de uma renúncia quase festiva ao governo cearense, Gomes assumiu a Fazenda. O Plano Real, portanto, já existia, mas andava com dificuldades, graças aos especuladores, ao ágio e às velhas práticas inflacionárias que tinham corroído todas as tentativas anteriores de reformulação econômica. Gomes chegou ao ministério com seu estilo próprio, falando às claras e polemizando com diversos setores. Encarregado por Franco de garantir a viabilidade do Real a qualquer custo, Ciro desarticulou uma greve de petroleiros, buscou formas de impedir o aumento do salário mínimo (que engatilharia um novo ciclo inflacionário) e atacou o empresariado paulista, qualificando-os como “terroristas” pelo caráter especulativo de suas ações. Ainda em 1994, Ciro Gomes participou do Encontro de Ouro Preto, que oficializou o MERCOSUL. Seus poucos meses à frente da equipe econômica de Itamar Franco não o credenciam como “pai” do Real, mas o livro A real história do Real (Record, 2005) conta que Ciro foi um dos “âncoras” para o sucesso do plano.

#6 Ciro estudou os problemas brasileiros em Harvard?

Sim. Em 95, Fernando Henrique Cardoso assumiu a presidência e Ciro deixou a Fazenda. FHC e Gomes não eram muito próximos (o cearense via Cardoso com desconfiança, pois considerava que Tasso Jereissati deveria ter sido o natural candidato à presidência pelo PSDB). Ciro Gomes articulou uma temporada como estudante visitante da Universidade de Harvard, nos Estados Unidos, onde foi bem recebido e conheceu o intelectual Mangabeira Unger (até hoje um de seus gurus). Nos EUA, Ciro se dedicou a entender como funcionava o sistema inflacionário brasileiro e de que forma ele havia se convertido em uma espécie de “imposto” destinado aos mais ricos. De Harvard, Ciro escreveu artigos sobre economia e política, publicados no Jornal do Brasil e no Estado de S. Paulo. Estes textos foram reunidos no livro Um desafio chamado Brasil (Civilização Brasileira, 2002).

Leonel Brizola e Ciro Gomes na campanha presidencial de 2002 (Foto: PDT)

#7 Antônio Carlos Magalhães, Roberto Freire, Leonel Brizola e até Paulinho da Força foram aliados de Ciro?

Sim, cada um em circunstâncias distintas. Magalhães, conhecido oligarca baiano, apoiou a indicação de Ciro para a Fazenda no governo Itamar Franco. Ele achava o jovem governador do Ceará um quadro político preparado. No livro Ciro no país dos conflitos, Gomes descreveu ACM como um político “brilhante” e “do povo”, embora afirmasse não concordar em nada com ele. Depois da passagem pela Fazenda e por Harvard, Ciro voltou ao Brasil. Rompido com FHC e o PSDB, ele se filiou ao PPS e saiu candidato a presidência da República pelo partido, apoiado pelo cacique dos socialistas, Roberto Freire (que foi seu vice). A chapa ficou em terceiro lugar naquela eleição e deu a Ciro a certeza de que seu nome era viável. Depois de quatro anos de preparação, em 2002 ele se candidatou novamente à presidência, desta vez coligado ao PDT e ao PTB. A Frente Trabalhista, como foi nomeada a aliança, colocou no mesmo palanque o velho Leonel Brizola e Paulinho da Força, à época integrante do PTB. Paulinho foi candidato a vice de Ciro. Terminaram o pleito em 4º lugar, depois de estarem muito próximos do segundo turno nas pesquisas de opinião.

#8 O programa de governo de Ciro em 2002 era de esquerda?

Em comparação ao de Lula, sim! O programa “Desenvolvimento com Justiça”, da Frente Trabalhista (PPS-PTB-PDT), até hoje impressiona por seu tamanho (87 páginas), riqueza de detalhes (são oito capítulos) e teor progressista. Basicamente, depois de uma brevíssima contextualização sobre o Brasil daquele início de milênio, o programa elenca uma série de projetos estratégicos voltados à retomada do crescimento e mudança da política distributiva de renda no país. Chama atenção o caráter de defesa da soberania, que atravessa toda a proposta, e a prioridade de “dar à massa de empreendedores emergentes acesso aos instrumentos e às oportunidades da produção: crédito, conhecimento, tecnologia e mercados” (p.5). O programa de governo previa ainda regularizar a posse da terra nos bairros pobres das grandes cidades, abolir os impostos e contribuições que oneram a folha salarial, com manutenção dos direitos trabalhistas, investir maciçamente em programas de qualificação profissional, proibir o porte de armas em todo o país, adotar o ENEM como critério universal de ingresso à universidade, desenvolver amplo programa de crédito educativo (com vantagens aos professores que seguissem no magistério) e criar um regime de custeio híbrido para a previdência (onde as contribuições fossem abrigadas em contas individuais, com total transparência, em regime de capitalização).

#9 Ciro Gomes foi um discretíssimo deputado federal?

Sim. Em 2006, depois de ter sido ministro no primeiro governo Lula, Ciro concorreu a uma cadeira na Câmara (pelo Ceará) e foi o mais votado do Brasil (cerca de 600 mil votos). Em seu mandato como parlamentar (2007–2011) foram mais famosas as suas rusgas com os peemedebistas Michel Temer e Eduardo Cunha (este último chamado de “ladrão” pelo cearense) do que por suas propostas. Em quatro anos, Ciro não apresentou projetos à Câmara e foi um dos deputados mais ausentes. Em entrevistas depois do mandato, ele contou que a vida de parlamentar não lhe agradava, pois o ritmo das tomadas de decisão, além de lento, não objetivava a solução dos principais problemas do país.

Ciro Gomes e Marina Silva, na época em que eram ministros de Lula (Foto: Blog do Tarso)

#10 Ciro Gomes não se preocupa com as questões ambientais?

Ponto controverso. Quase sempre buscando referências em sua adversária, Marina Silva, Ciro Gomes tem sido bastante duro contra o que chama de “ambientalismo difuso”. Para ele, a proposta ambiental predominante no Brasil demoniza a realidade do consumo, da produção de energia e das demandas econômicas nacionais. Ciro foi ministro da Integração Nacional no primeiro governo Lula (2002–2006) e, como tal, responsável direto por duas importantes e polêmicas obras: a construção da hidrelétrica de Belo Monte e a transposição do rio São Francisco. Em ambas, enfrentou os ambientalistas e confrontou a própria Marina Silva (à época ministra do Meio Ambiente), mas executou os projetos, convencendo boa parte da população de que as obras eram pertinentes e necessárias. Em entrevistas e palestras, Ciro defende uma mudança no paradigma do consumo (que deveria se basear não apenas no preço, mas no custo ambiental dos produtos comercializados), mas ressalta: essa é uma transição lenta e que precisa passar por uma mudança (mais lenta ainda) no modelo econômico brasileiro (atualmente é o agronegócio quem sustenta a economia nacional). Ele também afirma sempre ter sido o primero presidente de Assembleia Legislativa a criar uma Comissão do Meio Ambiente. Em seu já citado programa de governo, em 2002, Ciro Gomes propôs a otimização do uso de energias renováveis (o álcool, por exemplo). E só.

#11 Ciro Gomes é contra a legalização do aborto e das drogas?

Não. Sobre o aborto, vale a pena reproduzir o trecho de uma palestra sua, na conjuntura do impeachment (veja o vídeo): “Eu tenho uma opinião clara sobre o assunto. Eu acho que o aborto é uma tragédia humana, de saúde, moral, religiosa, tudo… Mas eu acho que o Estado não tem nada a ver com isso, a não ser prover assistência pra quem eventualmente cair nessa tragédia. Isto me põe em colisão com vários interesses, inclusive ‘nobres’ da sociedade brasileira. Por exemplo, a CNBB”. Sobre as drogas, o livro Ciro Gomes no país dos conflitos traz uma opinião bastante conservadora do político sobre o assunto, mas suas recentes palestras mostram que, hoje, ele tende a militar pela descriminalização do usuário, mas pela perseguição severa a quem trafica (veja o vídeo).

#12 Ciro Gomes é a favor das privatizações?

Não. Embora tenha defendido que alguns setores da economia devam ser administrados pela iniciativa privada (a telefonia, por exemplo), Ciro tem se mostrado severamente contra o modelo privatista neoliberal (amplo, irrestrito e baseado em regulação de fachada). Em falas recentes, ele tem ressaltado a importância do Estado à frente da administração da exploração dos recursos naturais, da saúde, da educação e da segurança. Em 1996, Ciro Gomes e Mangabeira Unger publicaram O próximo passo, uma alternativa para o Brasil (Topbooks), considerado um dos primeiros livros de oposição ao neoliberalismo. Na obra, os autores afirmam que o “neoliberalismo não encontra respaldo na experiência prática do desenvolvimento” (p.24) e que repudiam a ideia de que “o Estado deve abandonar atividades produtivas e estratégicas, e contentar-se com políticas sociais compensatórias” (p.53).

#13 Ciro Gomes defende o financiamento público de campanhas?

Sim, severamente. Em 1996, ele publicou o artigo “Dinheiro e política” no qual esboçou uma ideia geral sobre o que pensa a respeito do financiamento de campanhas eleitorais. Em sua opinião, o próprio Estado deveria assumir as campanhas, alugando estúdios e equipamentos de rádio e TV nos quais os candidatos gravariam seus programas (sem grandes recursos midiáticos), custeando as viagens dos postulantes e distribuindo igualitariamente recursos econômicos para a realização de comícios, impressão de panfletos etc. Na fórmula, doações de pessoas físicas seriam aceitas, mas limitadas a critérios de renda e publicizadas com transparência total.

#14 Ciro Gomes é contra a regulação da mídia?

Se for em relação à regulação de conteúdo, sim. Como repete sempre que inquirido sobre o tema, para ele a democratização do setor se resolveria com mais democracia, incentivo à produção por cooperativas de comunicadores, distribuição mais justa dos recursos governamentais na área e uma lei antitruste, nos moldes norte-americanos, que proibisse a propriedade cruzada dos meios. Regulação quanto a conteúdo é tema que não deve ser controlado pelo Estado, de acordo com o pré-candidato.

#15 Ciro Gomes é contra a taxação das grandes fortunas?

Outro ponto controverso. Desde seu primeiro livro, de 1996, Ciro aponta para o fato de que uma taxação das grandes fortunas seria ineficaz no Brasil. Ele baseia seu argumento na realidade brasileira da “pejotização”. A maior parte dos grandes executivos ricos do país recebe dinheiro através de pessoas jurídicas sobre as quais recaem baixas alíquotas de impostos — o que torna o imposto de renda de pessoa física um injusto mecanismo que só acentua a desigualdade econômica brasileira. O certo, de acordo com Ciro, seria tributar a remessa de lucros, criar um imposto sobre doações e heranças e reverter o modelo regressivo da carga tributária brasileira. Sua convicção neste ponto é tão grande que, em 2015, ele declarou que a candidata à presidência Luciana Genro (PSOL) “ouvia o galo cantar, mas não sabia onde” — Gomes se referia à proposta de Genro, justamente sobre a taxação das grandes fortunas.

Ciro Gomes e a ex-esposa, Patrícia Pillar (Foto: UOL)

#16 Ciro Gomes é misógino e machista?

Vários vídeos no YouTube mostram a mesma cena. Alguma moça traz água ao palestrante Ciro Gomes e, ao se aproximarem, são interpeladas por ele: “A família vai bem?” A piada, interpretada como misógina, já virou marca do solteirão de quase sessenta anos que tem fama de galanteador. Mas foi uma declaração de Ciro na campanha presidencial de 2002 que realmente colocou em xeque sua postura em relação às mulheres. Naquela eleição, Gomes ainda estava casado com a atriz Patrícia Pillar, que também apresentava seu programa na TV. Um dia, irritado com a insistência da imprensa por saber o papel da artista em seu dia a dia político, Ciro lançou uma frase que entrou para a história das campanhas à presidência no país: “A minha companheira tem um dos papéis mais importantes, que é dormir comigo. Dormir comigo é um papel fundamental”, disse. Ele já se desculpou inúmeras vezes pelo incidente (que afirmou ter sido a maior burrice de sua vida), mas a fama ficou. Apesar das falas, alguns gestos de Ciro acabam positivando sua postura em relação à luta feminista. Quando prefeito de Fortaleza e governador do Ceará, Gomes definiu que seu secretariado seria composto por homens e mulheres, em igualdade numérica. Já como candidato à presidência, no mesmo 2002 da fatídica piada, seu programa de governo propôs a criação de convênios com o sistema “S” para qualificação profissional exclusiva de mulheres, prometeu dar prioridade ao sexo feminino na implementação de um programa habitacional similar ao “Minha casa, minha vida” e, principalmente, sentenciou que ampliaria “por Lei, a participação da mulher nos cargos da administração pública nos diferentes níveis de Governo” (p.52).

#17 Ciro Gomes é a favor de uma auditoria da dívida pública brasileira?

Sim. Em um encontro em Porto Alegre, ele se comprometeu publicamente a — se chegar à presidência — realizar a chamada “auditoria cidadã da dívida”, a exemplo do que fizeram Equador e Grécia, recentemente. O pré-candidato, no entanto, frisa que é preciso ter cautela com a medida, para que ela não crie um ciclo desenfreado de especulação e fuga de capitais que fragilizaria a economia e quebraria o país.

#18 Ciro Gomes previu que o caminho do Brasil passava pela integração ao BRICS?

Quase isso. Em 2002, seu programa de governo defendeu que o Brasil deveria se aproximar “dos outros grandes países continentais periféricos: a China, a Índia, a Rússia a Indonésia” (p.72). Na prática, o bloco criado no governo Dilma só trocou a Indonésia pela África do Sul. Ciro é ainda hoje um dos maiores defensores da participação brasileira no BRICS.

Lula e Ciro nas eleições de 2002 (Foto: Notícias ao Minuto)

#19 Ciro Gomes é incoerente porque já mudou muitas vezes de partido?

Depende do ponto de vista. Ao todo, Ciro já mudou de partido seis vezes (“minha vida partidária é uma tragédia”, diz sempre que pode). Na primeira vez, saiu do PDS para o PMDB, uma mudança que refletia sua tendência em acompanhar o progressismo brasileiro. Depois, contrário às políticas do peemedebista Sarney, ajudou a fundar o PSDB, do qual saiu em 96, quando o governo FHC tomou definitivamente o caminho do neoliberalismo. A sigla seguinte de Ciro foi o PPS, onde ele esteve por vários anos e foi candidato a presidência em duas ocasiões. Gomes ficou no PPS até 2005, quando o líder do partido, Roberto Freire, decidiu se aliar aos partidos da direita e fazer oposição a Lula. Coeso à ideia de apoiar o projeto lulista, ele se filiou no mesmo ano ao PSB, por onde foi deputado federal. Ciro fez parte da sigla até 2013, quando o partido rompeu com o governo Dilma para lançar Eduardo Campos à presidência. Depois de uma passagem-relâmpago pelo PROS (Partido Republicado da Ordem Social), Ciro se filiou ao PDT em 2015. Embora tenha trocado muitas vezes de agremiação partidária, o que se percebe é que ele parece mais coerente do que os próprios partidos nos quais se filiou. Ao passo que todas as siglas onde esteve mudaram drasticamente de diretriz ideológica, Ciro Gomes segue defendendo basicamente as mesmas ideias que sempre lhe caracterizaram.

#20 Ciro Gomes quer criar uma frente de esquerda?

Os jornais noticiam que sim. Ele, no entanto, desconversa. Ciro foi um dos mais ativos militantes contra o impeachment de Dilma Rousseff e, nas andanças pelo país, defendeu uma união das esquerdas (ou do “progressismo”, como ressalta). No entanto, ao que parece, essa união avançou pouco. Ao comentar a ação da Frente Brasil Popular, por exemplo, Ciro se disse pessimista com a iniciativa. Para ele, a Frente não deveria defender a democracia “em abstrato”, mas sim ter propostas objetivas para a crise brasileira.

Ciro Gomes na convenção do PDT, em Porto Alegre (Foto: huffpost.com)

#21 Ciro Gomes apoiou nomes ligados ao impeachment de Dilma Rousseff nas eleições municipais de 2016?

Sim. No Rio de Janeiro, por exemplo, o partido do ex-governador decidiu apoiar a candidatura de Pedro Paulo, do PMDB, à prefeitura da capital. Pedro Paulo foi um dos deputados que votou a favor do impeachment de Dilma Rousseff. A decisão do diretório carioca do PDT foi oficializada em um evento com a presença de Ciro. O jornal Folha de São Paulo, à época, reproduziu uma das falas de Gomes na noite de 15 de agosto de 2016: “Nós ouvimos muita gente, eu tinha muitas amizades e simpatia por muita gente, mas chegamos à conclusão de que o melhor para o Rio é o Pedro Paulo, pouco importa essa contradição da política nacional” (confira a reportagem aqui). Sempre ressalvando o apoio aos candidatos que não pertencem à “fração quadrilha do PMDB”, Ciro Gomes apoiou ainda a candidatura do então vice-prefeito de Porto Alegre, Sebastião Melo, também ligado ao partido de Michel Temer. Em ambos os casos, as chapas apresentaram candidatos à vice do PDT, tirados em convenções nas quais Ciro Gomes não participou e/ou teve qualquer ingerência.

#22 Ciro Gomes planejou sequestrar Lula em caso de uma possível prisão do ex-presidente?

Não. Na verdade, essa distorção se espalhou na Internet com objetivos visivelmente difamatórios. Em uma palestra, em meados de 2016, Ciro afirmou que, caso Lula fosse condenado ou preso de forma arbitrária, ele se disponibilizaria a convocar um grupo de juristas que, de forma voluntária, providenciassem o asilo do ex-presidente em algum país do exterior. A ideia de Ciro seria de — sempre em caso de injusta condenação — entregar Lula a uma embaixada estrangeira, como preso político, até que fosse garantido a ele um julgamento justo, como preveem os tratados internacionais dos quais o Brasil é signatário. Nesta entrevista, dada ao blog Diário do Centro do Mundo, o ex-governador esclarece o caso: clique para assistir.

#23 Ciro Gomes é o caminho?

Difícil dizer. Setores da grande mídia e analistas de plantão têm afirmado que ele deverá ser o candidato natural das esquerdas caso Lula seja impedido de concorrer à presidência, em 2018. Se isso ocorrer, é possível que Ciro enfrente um bloco mais ou menos hegemônico, representado pela coalizão PMDB-PSDB, e um setor “difuso” em torno de uma nova candidatura de Marina Silva (Rede). Um páreo duro, que só pode ficar menos inglório se Lula declarar apoio explícito ao candidato, convertendo os votos do lulismo em votos pró-Ciro. Em pesquisa recente, Ciro Gomes apareceu com apenas 16% das intenções de voto, menos que Lula, Serra, Aécio e Marina. No entanto, sintomaticamente, 24% dos eleitores entrevistados declararam não conhecer o ex-ministro, o que ajudaria a explicar seu desempenho inicial. As taxas de certeza de voto (7%) e rejeição (52%, não muito diferente dos demais) fecham um quadro que, se não dá otimismo, ao menos não enseja muitas avaliações negativas. A pergunta que fica, para além das pesquisas e projeções sobre uma eventual candidatura de Ciro Gomes, é se ele seria capaz de fazer o que propõe, ainda mais diante de um sistema partidário corroído por vícios e de uma situação econômica agravada pela medidas de austeridade do governo Temer. Aguardemos 2018.

Texto produzido a partir de pesquisas nos sites da Fundação Getúlio Vargas, USP, UFC, Ipece, Tribunal Superior Eleitoral e Wikipedia, jornais Estado de S. Paulo, Folha de São Paulo e O Globo, revistas Piauí, Veja e Carta Capital, arquivos do programa Roda Viva (TV Cultura-SP), Canal Livre (TV Bandeirantes-SP) e Conversas com Mário Sergio Conti (GloboNews), vídeos de catorze palestras proferidas por Ciro Gomes entre 2014 e 2016 e nos livros Ciro Gomes no país dos conflitos, O próximo passo, Um desafio chamado Brasil e A real história do Real.
Chico Cougo é historiador e arquivista. Atualmente, é professor de História e Sociologia do Colégio Estadual Inácio Montanha (Porto Alegre-RS).