GUILHERME

Passando por uma aldeira indígena, no dia 24 de junho, beira da estrada, um homem me chamou. Ele conversava com outros dois. Era um cowboy, Guilherme, queria saber aonde eu ia e por que caminhava. Conversamos sobre sobre a questão indígena no Brasil e sobre a regulamentação de uma reserva que havia ali por perto. Quando eu ia embora, um daqueles homens pôs-se a andar ao meu lado. Me disse: “vou com você até Rosário”. Achei que fosse mentira, que ele andaria um pouco e cansaria. Fui para a casa de seu irmão, Arlindo, na aldeia de seu pai, lugar onde seu avô de 115 anos é o pajé. Durante a ida, o índio guarani me falou sobre coisas que eu sentia. Falou sobre o porquê dessa caminhada. Falou de solidão, de como as perguntas pesavam em minha cabeça. Disse que aquelas eram palavras de seu avô. Contou que sonhara encontrar alguém, alguém que andava num caminho e que, me vendo, sabia que eu era esta pessoa, por isso caminhava comigo. Depois do almoço, falou que o que eu buscava não estava na estrada, que meu destino não era Rosário. Então me fez um convite: que fosse à aldeia de seu avô para receber um nome guarani. Eu disse sim. Perguntei quando, ele respondeu hoje. Falou que estavam indo nos buscar. Encontros não são à toa… Então fui, jogamos bola e no dia seguinte batizado.

Em meu pequeno dicionário guarani, Juruá é homem branco, Aicoporã é estou bem, Xeirum é amigo. Caminho se diz Guataá.

Na terça-feira, 25 de junho, saí da aldeia mais ou menos ao meio-dia, tinha o coração apertado. A despedida demorou um pouco. Arlindo me ensinou uma canção das crianças guaranis; carreguei uma cabeça de vaca; filmei alguma coisa. Confesso que não tinha muita vontade de filmar ou fotografar, aquela sanha de captar momentos pitorescos e enviar arrefeceu na aldeia. Era como se eu quisesse mais fruir daquela vida do que registrá-la, olhar com os olhos abertos e não através do vidro. Os índios não choram, eles dizem isso enquanto estão chorando. Os índios choram por dentro, com o sentimento. Arlindo disse: “vou sentir saudade”, e eu respondi: “também”, então nós choramos como índios. Aeveté vai pá é muito obrigado.

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