Em Setembro três continentes encontram-se em Mindelo

Depois de em Abril passado se ter revelado a data de realização do Mindelact 2016 — programado para acontecer de 16 a 24 de Setembro — a organização do festival avançou por estes dias com a lista dos países que participam nesta que é a 22ª edição. A organização promete muita qualidade.

Mantendo a tradição de um cartaz internacional, espera-se nesta edição do Mindelact a participação de grupos de três continentes: de África, para além de Cabo Verde, marca presença, como já é hábito, um grupo angolano. A Europa estará representada com grupos de Portugal, Espanha e Alemanha. E da América do Sul, para além da já esperada participação do Brasil, virá a Argentina.

A programação principal e para a secçãoTeatrolândia encontra-se já fechada, porém o nome dos grupos que participam está ainda no segredo dos deuses. No entanto, já se sabe que de Cabo Verde um dos destaques será «Estrangeiras”, 52ª produção do Grupo de Teatro do Centro Cultural Português do Mindelo, que estreou este mês em Portugal, no Teatro Rivoli, no Porto.

Com texto do escritor português José Luís Peixoto, a peça conta com as actrizes Janaína Alves Branco, Francisca Lima e Sílvia Lima que interpretam uma brasileira, uma portuguesa e uma cabo-verdiana, respectivamente, presas numa sala de um aeroporto enquanto tentam entrar nos Estados Unidos da América. Uma reflexão sobre a lusofonia, sobre os preconceitos e as tensões coloniais que se arrastam até aos dias de hoje.

Ainda de São Vicente, já no final da edição de 2015 falava-se na reposição do monólogo “Chico em Pessoa”, interpretado no Palco Principal pela actriz brasileira Vanessa Carvalho, no 22º Mindelact. Desta vez, a peça criada a partir de textos de Chico Buarque e Fernando Pessoa seria interpretada por uma jovem actriz mindelense no espaço Festival Off.

De Santiago, deverão participar dançarinos com peças de dança contemporânea e dança-teatro. Rosy Timas, com o extraordinário solo “Novembro”, criado para o festival internacional de dança Kontornu,organizado pela Djam Projects, é presença quase certa. Para já, ela está na primeira imagem promocional do festival, uma fotografia de Tó Gomes intitulada “4 Elementos Dia e Noite” feita para o projecto “Korpsidadi” que juntou fotógrafos e dançarinos da cidade da Praia.

A peça “Novembro” foi criada pela própria bailarina que a descreve como “um duelo emocional entre a alegria e a tristeza” e que foi também inspirada, em parte, pela morte trágica do jovem artista Dudu Rodrigues. Com grande carga simbólica, um dos pontos fortes do espectáculo, apresentado em Janeiro deste ano no Palácio da Cultura Ildo Lobo, é o cenário com elementos que remetem aos rituais da morte e também ao início da vida.

Outra possível presença de Santiago, também com um solo de dança-teatro, poderá ser a de Djam Neguin. O dançarino prepara para o festival a peça “O corpo beija-se na sombra”, um conjunto de memórias suas de vários solos femininos agora interpretados por um corpo masculino.

à semelhança de “Ilha do Inferno”, outra criação do jovem dançarino e coreógrafo, “O corpo beija-se na sombra” explora a “dualidade masculino/feminino e o lugar do corpo no mundo contemporâneo”, avança.

Aguarda-se a divulgação da programação, que só deverá acontecer em inícios de Setembro, para se confirmar as peças em perspectiva.

Ainda no âmbito nacional, foi anunciada pelo director artístico e responsável pela selecção de grupos, João Branco, a participação do grupo teatral maiense Pró Morro. O convite para participação da trupe noMindelact 2016 foi feito por João Branco publicamente, após a caricata situação vivida pelo grupo de actores para garantir a sua participação no festival de teatro Sal Encena, em Junho passado. Sem avião ou barco que fizessem a ligação de Maio para Santiago a tempo de conseguirem apanhar o voo que os levaria à ilha do Sal, o grupo fez-se ao mar e viajou para a capital de bote. A determinação e espírito de sacrifício dos jovens surpreendeu e encantou a todos, rendendo o convite para o maior festival de teatro do país.

Propostas excepcionais

Este ano o Mindelact apresenta algumas mudanças na sua estrutura, por forma a alcançar um público cada vez mais diversificado e heterogéneo. “O objectivo é levar o teatro o mais próximo possível das pessoas e proporcionar uma gama diversificada de espectáculos”, escreve o site oficial da associação que organiza o festival.

Assim, a partir deste ano, deixa de existir o conceito de “Palco Principal”. A programação passa a estar dividida em Palco 1 (no Auditório do Centro Cultural do Mindelo), Palco 2 (na Academia Livre de Artes Integradas do Mindelo — ALAIM), Festival Off (no pátio do CCM), Teatrolândia (na Academia Jotamonte e pátio do CCM), Teatro nas Escolas, Teatro nas Comunidades e Performances.

“Os espetáculos do Palco 2 serão apresentados duas vezes, os do Palco 1, Off e Teatrolândia apenas uma”, explica a organização em comunicado divulgado há poucos meses.

Paralelamente realizam-se workshops e actividades culturais como exposições, mostras de artes plásticas, concertos musicais, gastronomia, etc.

A dois meses do arranque, João Branco não esconde o entusiasmo que a organização de mais uma edição do festival lhe desperta. O director artístico do evento diz esperar “um grande festival, com muita qualidade. As propostas que vamos ter são excepcionais e estamos satisfeitos com o que conseguimos para este ano”, garante.

O encenador explica que no ano passado o evento aconteceu numa espécie de “ressaca da grande festa do 20º festival Mindelact (de 2014), e por isso, para este ano, estamos prontos para surpreender o povo do Mindelo!”.

in Expresso das Ilhas, Julho de 2016