Lúcia Cardoso desmonta padrões de beleza

No ocidente, em diferentes épocas, sempre houve padrões que se impuseram como o ideal de beleza feminina. Hoje, apesar desse modelo já permitir diversidade étnica ou racial, ainda há características que são quase sempre exigência para se conquistar o cobiçado rótulo de bela.
No Brasil, aqui ao lado, iniciou-se há alguns anos um forte movimento social contra a “gordofobia” e há também bandeiras hasteadas contra a pressão social existente sobre as mulheres de serem belas, dentro dos padrões alimentados pelas Mídias. Neste especial ELAS fomos conversar com a artista e maquiadora Lúcia Cardoso, sobre beleza “fora dos padrões”.

ELAS — Já houve épocas em que ser bela era sinónimo de cabelos lisos e compridos. As pessoas estranham e comentam sobre o seu corte de cabelo?

Lúcia Cardoso — Algumas pessoas gritam-me na rua: “bom corte!”, ou “Quaresma!” (nr: referência ao jogador português Ricardo Quaresma). Já me disseram que é um corte bonito. Outros estranham e pensam se tem a ver com opção sexual, “desconfiam” se serei lésbica ou não (risos). Na verdade, há muitos anos que uso o cabelo curto, embora não assim. Eu sou uma pessoa nervosa e ter cabelo comprido deixa-me impaciente. Estou sempre a puxá-lo e a arrancá-lo — é como as pessoas que roem as unhas — então decidi cortar. Para mim é também uma questão de asseio. Tenho uma “paranóia” de sentir-me mais limpa sem cabelo. É também muito prático: eu nado todos os dias, então não teria a paciência de usar o secador diariamente.

– Alguma vez sentiu-se menos feminina por ter este corte?

– Nada. Acho que fico linda com este corte! E até hoje em dia este tipo de corte está na moda.

– Como encaras a pressão social existente em torno da beleza da mulher e a associação automática que muitas vezes se faz da beleza à magreza?

– É assim, acredito que um corpo saudável tem que ser proporcional. Demasiado peso num esqueleto que não o suporta causa problemas de saúde, problemas ósseos. Eu em pequena tive problemas ósseos. Agora, eu nunca me achei feia por ser gorda! Acho que o facto de a pessoa ser gorda não deve interferir na forma como nos relacionamos com ela. Mas o que acontece é que muitas vezes interfere. Porque as pessoas acima do peso “ideal” estão numa posição de “vergonha”. De modo geral, espera-se da mulher gorda que ela sinta vergonha e alguns fazem mesmo por causar esta vergonha. Há umbullying muito forte. Eu sofri bullying por ser gorda a minha vida toda. Se eu não tivesse uma personalidade forte, se eu não fosse uma pessoa com carácter de líder, eu poderia ter sofrido muito. A morte do meu pai e o problema de saúde que tive na adolescência fizeram-me ter outra perspectiva do que é prioridade na vida e assim evitar muitos problemas. O peso é uma questão pessoal, mas a sociedade torna-o num assunto teu com ela.

– Já te sentiste pressionada ou controlada?

– Sim. Eu gosto de ir à praia, nadar. Há pessoas que me perguntam se eu não sinto vergonha de usar fato de banho. Quase que querem à força que eu sinta vergonha! Outra coisa é que eu tenho uma dieta alimentar até bastante saudável, mas se vou a uma festa e pego num queijo já tenho gente “em cima” a controlar. Eu tenho amigas magras que comem dez vezes mais do que eu como…Por vezes fico na dúvida se devo, ou não, responder a estas abordagens. Contudo sinto que tenho sim que dizer algo para que as pessoas se consciencializem que estão a ser inconvenientes. Eu me assumo como gorda e isso baralha as pessoas. Por vezes me dizem, mas tu não és gorda és “fofinha”. Eu sou gorda sim! E não preciso que me façam sentir vergonha disso. Já temos muitas coisas pelas quais é “suposto” sentirmos vergonha: é cabelo “bedjo” (nr: Cabelo crespo), é preto, é artista…que chatice! (Risos).

– Auto-estima é um privilégio de magros?

– Não, não necessariamente ser magro significa ter auto-estima. E a falta de auto-estima nem sempre está associada à questão do aspecto físico. Eu sou uma pessoa muito confiante. Tenho confiança no espírito que sou, na minha força interior.

– Afinal, beleza é subjectivo ou não?

– Penso que está tudo no “olhar”. Lembro-me de, em pequena, passar horas a desenhar e depois mostrar o desenho a alguém que deitava uma rápida vista de olhos e mal comentava. Eu exigia uma apreciação mais demorada: repare aqui, veja aquilo! É preciso um olhar mais sensível. Acredito que o que está a matar a nossa sociedade, no geral, é a falta de sensibilidade.

As pessoas sabem que o valor do ser humano está no que ele é, na sua “beleza interior”. Mas por vezes, por causa dos seus próprios complexos, querem se sentir melhor do que o outro. Então gozam e escarnecem do outro para se sentirem melhores consigo mesmas. E vemos disso em todas as áreas. Na música, por exemplo. Mas temos que dar um “desconto” porque no fundo estamos todos no mesmo processo de superar os nossos complexos. Uns podem ter problemas com o seu físico, outros podem sentir que não são tão capazes intelectualmente…

– Em termos práticos, a chamada “ditadura” da magreza implica alguns constrangimentos. Por exemplo, a questão do vestuário é um desafio, não?

– É o pior de tudo! Nada me faz “chorar” como entrar numa loja de roupas. Sempre que preciso de uma roupa é uma dificuldade tremenda. O problema não é encontrar roupa em tamanhos grandes e sim conseguir algo que me favoreça. O que há na loja para tamanhos plus size é roupas para pessoas de terceira idade, com tecidos que mais parecem restos, sem preocupações estéticas, sem seguir tendências da moda…eu sou uma pessoa activa e gosto de roupa prática, mais desportiva…nunca há em tamanhos grandes. E depois há aquela abordagem das atendentes…

– Já foste alvo de discriminação por causa do peso?

Eu vivi no Brasil e na Europa e nunca sofri discriminação racial como já sofri discriminação por ser gorda. As pessoas assumem que ser gordo é sinónimo de preguiçoso, largado, sem vaidade…

A beleza está na individualidade de cada ser, cada um encontrar a sua beleza naquilo que é, naquilo que faz e não no que parece.

– Todo esse “barulho” à volta da beleza da mulher, do corpo feminino acaba por convergir para um tópico: sexo. Algum namorado ou pretendente alguma vez pediu-lhe para emagrecer?

– Nunca! Eu sou muito assediada. Só que, às vezes até me zango. Não sei receber esse assédio. Sou uma pessoa muito sensual. Namoro há quatro anos com uma pessoa mas já tive muitas “aventuras”. Agora estou mais calma, mais madura…Sempre fui muito activa sexualmente e nunca tive problemas na minha vida sexual, mesmo no acto sexual, com alguma posição. E nunca tive problemas com romance.

Muitos homens me dizem que é “assim” que gostam da mulher. Mas há muitas pessoas que têm uma grande preocupação com a aceitação. Querem ter alguém que possam mostrar, para receberem em troca a aprovação e admiração dos outros. Então acredito que acontece sim, casos de homens que têm uma preferência por um tipo de mulher mas que acabam por ficar com outro tipo, porque publicamente sentem que têm de mostrar uma que está mais dentro do “padrão”. Para se mostrar mais macho e assim “valorizar-se” a si mesmo. Contudo, esse tipo de coisas a mim não me afectam. É algo bem real mas não da minha experiência.

– Há mulheres que se culpam muito por estarem acima de peso…

– Sim, penso que a maior discriminação vem das próprias gordas para consigo mesmas. Por vezes estamos como que a pedir desculpas ao mundo por estarmos gordas e assim permitimos que o mundo nos flagele. A partir do momento em que nós estivermos tranquilos e de bem connosco, criamos um bloqueio a essas coisas. Acho que temos que começar em Cabo Verde um movimento de afirmação, lançar linhas de roupa plus size…é uma ideia que tenho de, quando conseguir tempo, investir nisso.

in Jornal A Voz, Março de 2015