O Pão de Cada Dia

Diego Alhinho está longe de qualquer imagem estereotipada que se possa ter de um padeiro. Aliás, nem se atribui este título, avesso aos rótulos que é. Mas foi a fabricar pães que seguiu a tendência da sua família em ganhar fãs e admiradores: a mãe e irmã (Teté e Sara Alhinho) na música e o irmão (Enrique) na stand up comedy. Os seus pães artesanais (ou gourmet, como alguns lhes chamam), a que deu o nome Pães Morada d’Sodad, vêm ganhando cada vez mais consumidores na cidade da Praia.

Diego, 31 anos, trouxe o interesse e a experiência de fazer pães caseiros do Brasil, para onde foi estudar Biologia. Quando lhe pergunto como um biólogo especializado em botânica põe de lado as plantas para se dedicar à padaria, é com um sorriso tímido que admite que ao final da licenciatura, e estando já a trabalhar havia algum tempo no Jardim Botânico do Rio de Janeiro, não se sentiu motivado a aceitar a oportunidade que lhe foi oferecida de realizar um mestrado dentro da sua área profissional. Sentia vontade de algo diferente. Algo inovador.

No Brasil, fazer pães era um passatempo, aperfeiçoado com a visualização de vídeos tutoriais. Foi só depois do regresso a Cabo Verde, em 2012, e quase um ano depois de estar a trabalhar com o irmão Enrique na empresa de bricolages criada por este, é que sentiu a necessidade de criar algo seu.

Como muitos outros jovens, quando regressei do curso não tinha perspectivas de um emprego, mas tinha despesas, tinha dois cães dos quais tinha que cuidar e também não quis ficar parado”, conta Diego. “Queria ter autonomia financeira pois, depois da experiência de viver no exterior e trabalhar, é um choque voltar para a casa dos pais”.

Da experiência na empresa do irmão diz ter tirado o melhor: “ aprendi muito e também foi bom poder ajudar o meu irmão que estava a começar o seu negócio e assim podia poupar um pouco no meu salário”.

Do irmão parece ter também apanhado o bichinho do empreendedorismo. Foi ainda ao serviço deste que começou a sentir a necessidade de criar algo seu. E depois de algum tempo a pensar resolveu apostar na produção artesanal de pães integrais como um negócio. A mãe é que deu a ideia: “a minha mãe andava a fazer pão a partir de uma receita que aprendeu de uma amiga austríaca e oferecia aos amigos… Já não conseguia atender a tantas encomendas e então pensei, porque não fazer disso um negócio?”

O interesse de Diego pela culinária é vasto. Gosta de experimentar receitas, pesquisar ingredientes e já foi vegetariano. Daí que o seu pão já é uma versão bastante personalizada, resultado da alquimia empregue na mistura de ingredientes e no levedar da massa.
As técnicas para fazer um bom pão, para fazê-lo crescer no ponto, para que fique bem dourado e bonito, aprendem-se. E eu fui pesquisando e aprendendo sozinho. Experimentei e testei muito e, claro, fiz muito pão mal feito. Fiz pão duro, pão murcho, pão torto, pão queimado” admite, rindo-se da lembrança. Contudo, assume que ainda tem coisas a aprender. “Estou agora numa fase de testar novos pães artesanais. Quero fazer um pão especial para diabéticos, por exemplo”.

Diego insiste que o que torna o seu pão realmente especial é o facto do mesmo ser de fermentação lenta, com a massa cuidadosamente preparada a ficar, por vezes, alguns dias de repouso, a fermentar lentamente, no seu tempo próprio.

O processo de fabricação é cansativo, admite. Implica alguma força física para o amassar, paciência para aguardar a fermentação, madrugar para cozer o pão, vigiar o forno com atenção e ainda ter disposição para estar na rua a partir das sete horas, a fazer a distribuição.

E quem são os clientes da Morada d’Sodad? “Vários tipos de pessoas, pois é um pão versátil. Sim, muitos estrangeiros, pessoal das embaixadas etc. Mas o grosso dos consumidores é nacional, mulheres sobretudo. Acredito que muitos homens também consomem; as suas mulheres e namoradas compram e eles depois aproveitam”.

A entrega ao domicílio tem um roteiro traçado previamente. Diego tem já muitos clientes fixos, com dias certos para receber o seu pão. Outros preferem encomendas ocasionais. Faz entregas de segunda a sábado. “Os meus clientes estão maioritariamente no Palmarejo, Prainha, Achada Santo António e Platô. Aos sábados, tenho mais tempo disponível e faço outras zonas como, por exemplo, Fazenda.”

Com o apoio de uma amiga, Diego desenhou um projecto com contornos sociais para o seu negócio e conseguiu o patrocínio de um programa da embaixada do Luxemburgo para a sua implementação que deverá arrancar em Fevereiro. O projecto implica seleccionar alguns jovens, oriundos de famílias com baixo rendimento, para a equipa de distribuição dos pães. Estes jovens terão que estar na escola e, para além da remuneração, irão receber tutoria académica. Terão ao seu dispor uma bicicleta cada, para as entregas a domicílio. “A ideia é que ao final de um ano, eles fiquem com a bicicleta. Ficarão também com o networking que entretanto terão criado e que é sempre uma vantagem, podendo-lhes servir para futuras referências profissionais”, explica o jovem empreendedor.

O sorriso pueril de Diego abre-se mais quando fala do apoio recebido da família: os pais e os irmãos foram pilares importantes para o sucesso que a Morada D’Sodad está a ter. A mãe trouxe-lhe os primeiros clientes, o pai financiou o seu primeiro forno, o irmão tolerou-lhe os atrasos e as faltas ao trabalho quando começou o negócio, ainda a trabalhar na empresa deste. “E a Sara…a Sara comia! Era a cobaia: experimentava os meus pães”, ri-se. “Ser empreendedor em Cabo Verde é desafiador pois ainda não estamos preparados para o empreendedorismo tal e qual o vendemos. Acho que ainda há alguns buracos no caminho e às vezes é bom andar mais devagar para evitar estes buracos e assim chegar onde queremos com mais segurança”. É com frases do tipo que Diego estilhaça os estereótipos que povoam o imaginário daqueles que pensam que dedicar-se a um trabalho manual é coisa de gente sem instrução. Diz que não se importa muito com os preconceitos que os cabo-verdianos, de modo geral, ainda alimentam para com quem trabalha com as mãos. É feliz no que escolheu fazer. E sabe fazer.

in Jornal A Voz, Janeiro de 2015