InsondávelPortal
As palavras me aparecem como num devaneio sonolento. Eletrizantes como um relâmpago no acender da (in)consciência. A psiquê é detentora de algumas estruturas que são indestrutíveis e ficam no porão, cercando-o. Alguns mundos possuem portas, outros, nunca conheceram sequer uma fechadura. Livres como o ser, espontâneos a ponto de, dentro deles, um sujeito se perder. Sejam elas grandes, pequenas, robustas, pesadas, finas, inacessíveis, transparentes ou inexistentes, as portas e portais existem em todo sujeito. Feitas do material mais rígido ou feitas de uma fina e maleável camada. Todas possuem fechos, mas nem sempre encontramos as chaves que os abrem. Algumas com cadeados, correntes e até mesmo enfeitadas com laços: nenhuma porta é capaz de reter o segredo uno perpetuamente. O silabar que é magicamente capaz de abrir o trancafiar ríspido é um mistério. Muitas vezes custo a derrubar a estrutura que as protege, mas sempre sou consagrada com o dom de imaginar o que existe por trás. Muitas delas possuem uma pequena vidraça entre suas extremidades, outras são constituídas de um material totalmente limpo e transparente, o que acaba por não alimentar nossa curiosidade de bisbilhotar. Ainda sim continuamos. Outras, cujos donos são mais reservados, possuem diversas camadas de ferro, madeira e especiarias resistentes, protegidas também por correntes e guardadas por animais ferozes e cercas elétricas. Tenho a posse de algumas chaves que abrem todo tipo de fechadura, desde os cadeados mais enferrujados aos simples fechos de plástico — que são facilmente derretidos pela extremidade de meu isqueiro. Desvio-me de todos os obstáculos que circundam, passo debaixo delas rastejando como uma cobra, deslizando como a água, penetrando as fibras da madeira como minúsculas partículas de existência. Para as mais leves e desajeitadas, basta um sopro de fumaça para se desfazerem — faço-o com meus cigarros. Carburo o fumo e delicio-me durante seu ingerir, satisfaço as pulsões e dou um salto entre uma e outra. No último trago vejo várias delas caírem. Um fato inegável é: as portas fechadas alimentam rotineiramente nossa curiosidade, a razão de tanto magnetismo é o desejo de saber, mesmo que não saibamos a razão de querer descobrir. Passamos rotineiramente em frente à diversas, sempre especulando o que escondem. Se não houvesse perigo no conteúdo, obviamente, estaríamos livres da necessidade de trancafiar a sete chaves aquilo que possuímos. É uma barreira. Uma maneira de manter em segredo e possibilitar apenas a entrada daqueles que tem a dádiva de girar as chaves da maneira correta. Somos donos de terras férteis e, ao mesmo tempo, extremamente danificadas e perigosas. A grama sempre encobre os buracos que poderiam nos arrebatar para o infinito. Tenha cautela ao pisar descalço; O sujeito, ao adentrar em um terreno que se esconde detrás dessas portas pode, ao deleite de uma caminhada, cair em um abismo ou ser espetado na sola do pé por uma planta venenosa. A sensação de abrir uma porta e preencher o olhar com os conteúdos guardados é de inegável prazer, mesmo que o cenário não nos agrade totalmente o sentir. Nos sentimos detentores do egoísta poder ao concebermos a força de desfazer barreiras. Condenados a liberdade, corremos incansavelmente — dentro do imaginar da probabilidade de que podemos, de fato, alcançar tal patamar — entre a pretensão de um dia sermos capazes de dominar todas as especulações sobre quais mundos escondidos atrás das portas queremos transitar ou não. Gosto de abri-las, gosto de deixá-las abertas. Gosto de auxiliar na libertação, desfazer-me de correntes e desenferrujar trincos que são demasiadamente velhos e gastos. Apesar de tanto gosto por desconstruir prisões, sinto-me cansada e, por vezes, exaurida ao tentar adentrar o âmbito vizinho. Durante uma viagem astral examino cautelosamente o trajeto que me levará em direção à uma porta esguia e surrada pela chuva. O conjunto de energias que emanam da estrutura vigorosa é alicerçado ás cores que se entrelaçam com o clamar: “desvende-me”. Tons enigmáticos de azul penetram todo o alcance da visão e me despertam uma sede de desbravar o que persiste e grita detrás da sigilosa estrutura de madeira velha. Desloco-me, com muito esforço, tentando manter o equilíbrio no tênue cordão dourado, que tem uma das extremidades presa em mim e outra no chão, diante da porta. Alcanço o trinco e ansiosamente giro uma chave dentro da fechadura. Giro outra, outra e mais outra. Abro alguns cadeados, arranco três laços e do desembaraço me desfaço. A porta se abre e, imediatamente, meus globos oculares estremecem e sua função perde a utilidade — enxergo agora de maneira diferente da usual e sensorial. Sinto. Vibro. Estremeço e, enquanto atravesso a porta, a realidade material não mais importa. Cada universo é esplendidamente único, unimos uma vibração à outra e temos agora a indiscutível unidade projetada em nível astral. Únicos, fervorosamente constituídos do místico. Entro em uma sala que me preenche o sentir com coisas boas, tudo é reflexo do interior, até mesmo a falta de pudor. As paredes são feitas de sensações, o chão é coberto de folhas secas e ervas rasteiras. O teto é o céu, o infinito cósmico. As solas dos pés nuas, ligeiramente beliscadas pelo relvado verde escuro, me guiam durante o período da cegueira. A realidade e o mundo onírico interpenetram-se, confundindo o apego ao mundo material, palpável. Conforme recebo informações sou atingida por fagulhas de energia que, de tanto escalarem meu corpo, tornam-se fluidos em minhas veias, que quase não suportam tamanha carga — e agora possuem um tom azulado. Sinto todas vibrando dentro do suporte carnal, efervescentes e ligeiras, percorrendo toda a estrutura que me abriga, tonteando-me. Rapidamente chegam até o centro de minha cabeça e, ao mesmo tempo em que eu sinto tudo, não sinto absolutamente nada. O nada. O infinito, insanável e extasiante sentir acaba de me esmagar. Diante do lapso de acontecimentos consigo perceber a infinitude que é o existir e o existente. Sou capaz de perceber as folhas que são trazidas pelo vento, caem da árvore anciã e arranham-me o corpo físico, trazendo a tona uma das realidades em que sempre vivi. Extasiada, procuro a saída. Acabara de desbravar um minúsculo fragmento de uma esfera peculiar, cujo dono tem razão em trancar. Surpreendida com tamanha carga enérgica do outro, sento-me no topo de uma planta e espero, reflito, inspiro e me regenero. Faz-se necessário certo grau de sutileza e cautela ao examinar alguns universos — o éter é enigmático e auspicioso.
