É proibido reclamar da sorte.

Dos meus diversos relacionamentos, praticamente nenhum teve uma definição clara, um rótulo de “namoro” e o peso do que é essa pequena palavra, só um bem antigo e o atual foram namoros, com o rótulo de namoro e os outros… pobres menosprezados -ou sortudos-, tiveram outros rótulos, como… rolo, peguete, essa coisa esquisita que na minha cabeça é um relacionamento, mas que não tinha o “PESO” de um namoro, e independente de como eram chamados, foram importantes e significativos.

Atualmente estou em um relacionamento, que é bom, gostoso, que caminha bem, sem brigas sérias, enfim, sabe o que sempre pedimos para ter? Eu fui sortuda, e eu encontrei, mas nada nessa vida é exclusivamente sorte! Não é fácil, não foi fácil, e tudo poderia ter caminhado de uma forma completamente diferente.

Não foi o alinhamento das estrelas que nós fez chegar onde estamos, foi o tempo, foram as várias conversas, foi ela, fui eu, foi a gente se trabalhar individualmente, e juntas, foi saber o que estava buscando em um relacionamento, e descobrir se a outra tinha a mesma visão, valores, foram ajustes, vários ajustes! e medo, muito medo! Foi o fato de reconhecer que os nossos corações estavam machucados, e nós sabíamos que tínhamos que ter cuidado, e foi tudo tão conversado... mesmo às vezes sendo em parcelas (estilo Lilly e Marshall, de How I Met Your Mother, só que menos tenso).

Mas tenho um ponto em que quero chegar. Ultimamente, em meio a vivências, e a terapia (oh, a terapia!), eu não sei se aceitamos um relacionamento ruim por medo da solidão, se achamos que merecemos algo ruim, ou se só aceitamos o que supostamente as estrelas e o universo nos dá, e esse relacionamento se torna a nossa sorte, ou azar, ou carma.

Mas a questão é que nós aceitamos, aceitamos aquele amor de menos, aquele cuidado que não é como sonhamos, aquela demonstração de carinho que vem pelo ciúme ou pelo controle, e muitas vezes aquele descaso. 
E esperamos tudo se transformar em algo que desejamos. Esperamos que aquele pedido de namoro venha (que era o meu caso), esperamos que o ciúme acabe, esperamos uma mudança de comportamento, um reconhecimento de erro, um carinho, ou uma demostração de amor. 
E durante esse processo, nós reclamamos, para os amigos, os terapeutas, os desconhecidos na rua, o cachorro, gato, papagaio ou em blogs, reclamamos porque não entendemos como que as coisas ficaram assim! Como nós acabamos presos em uma versão de relacionamento que nunca foi o desejado, seja porque passamos por isso antes, ou ainda que seja novo, não era assim que deveria ser!

Porém, dentro do relacionamento, é proibido reclamar!! É proibido exigir!! Em algum momento da nossa vida foi dito que nós devemos aceitar praticamente tudo em um relacionamento, que devemos nos adaptar, que com o tempo ele(a) vai mudar! E vai mudar por você, porque você é especial. Então não podemos ser egoístas, temos que abrir mão do que queremos, não podemos falar exatamente o que queremos, não podemos exigir que um relacionamento seja o que é melhor para nós, não podemos rejeitar pretendentes, porque o risco de virar uma pessoa solitária e sem família é GIGANTESCO! E VOCÊ NÃO QUER VIRAR TITIA NÉ? OU A LOUCA DOS GATOS!!

E por quê? Por que aceitamos tudo isso que nos é imposto? Por que aceitamos o ciúmes desproporcional, o descuido, a falta de atenção, a traição, o abandono, a falta de cuidado? Por que aceitamos um relacionamento que não nos preenche, mas nos esvazia? Por que não decidimos ser a pessoa exigente? Não é melhor que a escolha seja ser um pouco egoísta e feliz, do que altruísta e infeliz?

Quando penso no porquê aceitei diversas coisas que me fizeram mal, foi porque eu nunca consegui exigir nada, eu aceitava as metades, os vazios, aceitava menos do que sonhava, do que desejava. E era porque eu tinha medo de exigir, ou de pedir, ou de brigar. Eu tinha medo de perder (e ainda tenho). Então abria mão do que eu queria, ou de falar o que eu sentia, porque se isso não agradasse quem estava comigo eu seria deixada, eu ficaria sozinha, eu nunca iria encontrar ninguém, eu nunca ia ser amada, e por fim, eu seria a titia louca dos gatos.

Recentemente, em um momento do meu namoro, eu escolhi ser egoísta, eu resolvi que eu tinha sim a liberdade de brigar, e que eu tinha sim que falar o que me incomodou, decidi que eu não posso abrir mão do que sinto, do que penso, e das coisas que me incomodam, porque eu tenho medo de ser abandonada. E eu recebi compreensão, e não fui largada, e não dei início a uma briga terrível, e tudo deu certo no final.

Quando eu tento compartilhar o meu grande momento de egoísmo, algumas pessoas não querem ouvir, porque elas não acham que aquele tenha sido um grande problema, que o que me incomodou não foi algo grave, não criou uma briga colossal, não foi uma crise, e que afinal de contas eu tenho sorte de ter encontrado a minha namorada. Um problema assim, tão “pequeno”, nem entra na regra de que se as coisas boas superam as ruins, as ruins perdem a importância, então eu não devo reclamar do que aconteceu, que é algo tão pequeno perto das coisas boas, e afinal de contas é proibido reclamar da sorte, e eu tirei uma sorte grande.

Mas quando eu olho para o início do meu namoro, eu não vejo ali só sorte, eu vejo tanto esforço, tanto trabalho, vejo a determinação, as exigências, vejo a escolha.

Nós exigimos e escolhemos não aceitar menos do que merecíamos. ❤

E se eu tiver motivos, e se eu quiser, eu reclamo.