O que é ser homem? Um breve retrato da masculinidade.

Desde criança, o moleque é estimulado a ser o macho, o pica, o pegador. Nem preciso dizer que isso é uma violência contra o menino, normalmente orquestrada pelo PAI ou por outros homens da família, que aprenderam igualmente e passaram isso adiante.

Um bom exemplo é a quantidade hoje, de meninos que estão, no funk e outros ritmos populares, falando sobre isso e aquilo, sobre fuder e fazer acontecer.

Se a “novinha” tu chama de criança, o “novinho” também não seria? Não é engraçado.

É essa mesma criança que é levada aos campos de futebol, o “esporte de macho”. Um dos únicos momentos de plena inteiração social entre outros homens. (Pq, pra ser homem, você não pode nem deve expressar sentimentos de carinho por outros homens. Isso é coisa de mulher.)

Rejeita-se qualquer indício de feminino, e, se você tiver algum “trejeito”, ou fugir da norma de predador, é considerado “viado” (e ali, naquele círculo de homens, o viado representa a figura da mulher, a figura a ser odiada).

Já passou por uma pelada e viu um menino chorando pq levou uma banda? Aquele menino vai ser zoado por um bom tempo. Pq homem não chora. O que te machuca, você enterra. É problema seu, não expresse isso.

É ali, no futebol, que você pode gritar, se expressar, mandar todo mundo tomar no cu, AGARRAR SEU AMIGO POR TRÁS NA HORA DO GOL, abraçar, beijar e tá tudo certo. É o quê mesmo?
Broderagem.

Lá, esse menino pré adolescente aprende a extravasar sua raiva e afeto pelos amigos homens. Mas não só isso, os mais pobres carregam o sonho de fazer do futebol uma sobrevivência.

Filhos de mães solteiras tem ali, no talento, a oportunidade de levar pra casa o que nunca tiveram. E, sozinhos em meio a aquilo, muitos deles acabam destruindo suas vidas, suas carreiras e as vidas de outras pessoas. Ou então, alguns que não conseguem a sorte do sucesso através do esporte encontram no tráfico ou em furtos a oportunidade de cumprir a obrigação de ser macho: colocar comida em casa, dar uma vida mais digna à mãe (se forem só os dois e irmãos).

Pq, se tiver pai, em casa, ele não deverá muito próximo da mãe, se o fizer, será taxado de “mimado” ou “filhinho da mamãe”. Qualquer tipo de inteiração mais afetiva do que o permitido, principalmente com o feminino, é considerado ruim, foge da norma do “ser homem”.

Mas ué, ele não é incentivado a pegar todas as meninas?
Isso não é afeto, é posse.

Não é que meninas tenham propensão natural a serem estudiosas. É que moleques, quando vão mal na escola, ou são bagunceiros e fazem merda, é algo “natural”. Ninguém percebe em comportamentos agressivos, desvios escolares, notas baixas e nas merdas que fazem uma tentativa de chamar atenção dos pais ou um indício de que há algo de errado. Ele só tá se tornando homem. Né?

Esse menino cresce e é inserido constantemente na pornografia, através da TV, internet, músicas, e etc.

No pornô, ele aprende o que é sexo e o que a mulher realmente quer. Quer que você enfie o pau nela desesperadamente como se o mundo fosse acabar amanhã, enfia com força, não ligue pra porra nenhuma, agrida sempre que puder. Elas gostam. E a mulher com quem vcs transam tem que ter peitão, bundão, ser gostosa, safada, rebolar bem.

Quando não encontram isso nas mulheres que se relacionam, e não encontram neles mesmos os atores pornôs de ereção de 2 horas, os caras ficam putos. Com elas e consigo mesmos. Nenhuma mulher é aquela atriz pornô que ele tanto procura.

Então, ele se agride e agride as mulheres que não correspondem àquela imagem que ele idealiza: da submissa, que aceita tudo calada, faz tudo o que ele almeja, que não é ninguém a não ser um apêndice que depende dele.

No álcool, é a oportunidade perfeita de uma droga legal em que você pode ser afetivo como não podia ser sóbrio, pode chorar como não podia antes, pode extravasar sua agressividade na sua esposa e depois dizer que era outro homem aquele que bebia. É a fuga, a válvula de escape.

Homens são 90% dos internados por alcoolismo, uma DOENÇA que matou, entre 2006 e 2010, mais de 36 mil pessoas.

Por fim, na vida adulta, esse homem não foi ensinado a se expressar afetivamente com seus amigos (aliás, foi ensinado a não formar laços firmes de amizade), foi ensinado a ser forte e não expressar suas dores e problemas, a não ser carinhoso e respeitoso com as mulheres, a não pedir ajuda, pq isso demonstra fraqueza e a buscar escapatória na bebida.

Esse homem não está acostumado a dialogar sobre suas mágoas, nem com amigos, nem com suas companheiras, e muito menos procuram médicos para pedir ajuda.

Junte isso ao estresse exagerado pelo trabalho (pq somos, sempre, nosso trabalho), e ao fato de que estamos no século da depressão. O resultado são 78% dos suicídios no Brasil cometidos por homens.

Precisamos começar a repensar essa cultura.
Você, homem, não precisa ser uma fortaleza o tempo todo. Você é falível. Admita suas fragilidades.
Você pode cair, chorar, rir, abraçar as pessoas.
A violência é apenas uma forma de se agredir e agredir aos outros.
Abuso de pornografia, excesso de trabalho e álcool, estresse, raiva descontrolada, mudança de peso (para mais ou para menos) e aumento de comportamentos de riscos são sinais normalmente relacionados à depressão masculina.

Peça ajuda. Mude, questione e desafie seus conceitos.
Conversem com seus amigos, ofereçam ajuda e ombros para lágrimas, se necessário.
Já pensou como isso pode salvar várias vidas, não só a sua?
Você não é o que a sociedade quer que você seja.
Você é um ser humano.

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