8 horas — 4 minutos de música.
Há pouco tempo, a Chorus deu inicio ao processo de gravação para o que virá a ser nosso segundo álbum de estúdio, e dessa vez estamos num estúdio profissional, usufruindo de algumas mordomias que eu nunca imaginaria vivenciar, e também gravando como gente grande! Com prazos determinados, horários e contratos, burocracias necessárias para quem quer que seja que queira gravar algo, confesso que é um pouco assustador no começo, mas nada que não se possa se acostumar, seriam esses, “um mal necessário”.
O processo de composição começou de forma leve, e teve a inciativa de minha parte, os meus companheiros de banda já me disseram que eu sou uma máquina de compor, hahaha, apesar de não concordar com esse termo, reconheço que tenho uma inquietude correndo nas minhas veias musicais…e tenho pena deles por ter que lidar com milhões de ideias esporádicas que surgem ao monte em minha cabeça, tendo canções que chegaram a ter até 10 versões diferentes (como é o caso da A Rede). Mas diferente do album anterior, essas composições foram escritas por todos da banda, cada um participando com sua opinião, idéias e aspirações, pudemos finalmente nos sentir como uma unidade.
Logo após finalizar as gravações do Ciclo, conversamos sobre a ideia de lançar um álbum por ano, e de certa forma homenagear as bandas que ouvimos, quase todas, bandas dos anos 70, que em sua maioria lançavam um trabalho novo a cada 11 ou 12 meses. Na teoria é algo simples, fácil, “ok, vamos lá”, mas na prática não é bem assim devido aos inúmeros fatores envolvidos, tempo e dinheiro são os que mais pesam, obviamente. É uma idéia ótima, mas sua execução pode ser falha…então foi muito positivo esperar todo esse tempo para “lançar” algo novo. Já disse isso por aqui: amadurecemos muito nesses dois anos de composição que separam o Ciclo do ‘agora’.

Estamos ensaiando esse álbum efetivamente desde Fevereiro desse ano, e em cada ensaio, foi ficando cada vez mais claro para nós onde estávamos querendo chegar em termos musicais. Com o Ciclo fomos muito elogiados e em algumas vezes comparados ao Rush, é inevitável não haver esse tipo de comparação, tocamos a música do power trio há aproximadamente 9 anos, ela corre em nosso sangue.
Receber esse tipo de elogio é gratificante, com certeza, mas mesmo assim isso nos incomodou porque não queremos ser o Rush, nunca passou pela nossa cabeça SER o Rush. Então está claro para nós, e em breve estará para você quando ouvir o Viagem Imóvel, que demos um grande passo adiante, não posso dizer que encontramos nossa identidade, pois acho que quando alguma banda diz algo assim, corre o risco de estar se sabotando, gerando um comodismo para si, e essa zona de conforto (ainda) pode ser evitada por nós. Estamos nos distanciando dessa comparação, e para alguns amigos que já ouviram algumas dessas composições, a nossa mudança está nítida. E eu fico feliz com isso !
Certa vez li numa entrevista de um dos ex-tecladistas do Yes, Patrick Moraz, que uma das piores coisas que se passava dentro da banda em sua curta passagem, era como a banda em uma situação extrema levou vinte horas dentro do estúdio para conseguir gravar um minuto de música — Sim, situação absurda!
Sempre achei essa uma das declarações mais amedrontadoras dentro das ‘lendas urbanas’ do universo de gravação em estúdio, assim como também achei de certa forma exagerada e irreal — ainda continuo achando exagero, mas não menos plausível.

Escolhemos começar pelo começo, sendo a música de abertura do álbum, A Rede, a premiada para ser o pontapé inicial das gravações. Não importa o quão bom músico você seja, gravar sempre será um desafio ! E alguns desses desafios são surpreendentes, para o pior ou para o melhor. Mencionei que estamos ensaiando desde fevereiro, e estávamos tão seguros e preparados para gravar, até o momento de ouvir o primeiro “click”, e toda aquela emoção, insegurança, raiva, culpa e uma série de sentimentos da mesma categoria começarem a surgir. “Eu deveria ter me preparado mais…” “Deveria ter feito curso no Senai…” esses tipos de pensamento também surgiram aos poucos.
E A Rede foi a vilã, sempre achávamos que ela seria a música que mais fluiria em estúdio, seria a mais fácil, e claro, mais agradável de ser gravada, isso não significa que demos menos atenção a ela, que fique claro), e acabou que levamos quase 8 horas para gravar apenas a bateria dela!
Mas ainda assim acho que estamos na média :
- 8 horas para gravar a bateria de
- 4 minutos de música ;
- Algumas toalhas encharcadas de suor; e
- Milhares de palavrões e xingamentos que não merecer ser reproduzidos.