A falta de criatividade da dupla D&D prejudicou a 7ª temporada de Game of Thrones

Pouco mais de duas semanas após o término da sétima temporada de Game of Thrones ainda repercutem nas redes sociais e nas produções de criadores de conteúdo algumas críticas aos episódios. Entre argumentações coerentes e ataques de pelanca sem sentido — me internem no dia que eu fizer contas pra saber se a uma viagem de determinado personagem é plausível -, é possível, obviamente, realizar uma boa peneiragem e retirar bons pontos. Particularmente eu achei a temporada divertida, principalmente em relação aos aspectos visuais. Porém, é inegável que após a digestão dos capítulos você ainda fica com uma sensação de incomodo com alguma coisa. Vi várias avaliações diferentes e como em outras ocasiões acabo gostando mais da visão de quem não é ~expert~ nas Crônicas de Gelo e Fogo, leu todos os livros, sabe os nomes de castelos e famílias lá da ponte que partiu e etc. Para retomar esse meu blog — que deveria ter postagens semanais, né, seo Carlos — pensei em pontuar alguns dos fatores que me incomodaram e explicitar porque eu acho que essa temporada não foi — e provavelmente a próxima também não será — como os fãs esperam.

Depois dessa temporada, acho improvável que a série tenha um final “agridoce” como o prometido para os livros

Para mim, a inegável queda de qualidade na trama tem um pilar: a dupla D.B Weiss e David Benioff trabalhou de maneira brilhante quando adaptou as páginas dos livros para as telas. Quando o trabalho não foi de transposição, porém, me parece que eles tiveram certa dificuldade. Acho que eles sentiram o peso de desenrolar a sequência de uma história inserida em um universo de certa maneira complexo. O material de apoio acabou e essa temporada me deixou com a sensação que a inventividade não é exatamente o ponto forte dos dois.

O trabalho dos caras não é fácil, mas as críticas são parte do ônus de se trabalhar no showbiz

Parte desse pressuposto que eu levanto poderá ser derrubado após o lançamento dos dois últimos livros da saga, já que a partir daí veremos o encaminhamento dado pelo próprio George R.R. Martin à história. Contudo, nesse momento a gente já que a possibilidade da narrativa do Gordinho ser bem diferente do que vimos -e veremos- na HBO é bem alta. Abaixo listarei alguns dos motivos pelos quais eu acho que os showrunners da série vacilam justamente na hora de tirar uma ideia da caixola. Ah, e o texto terá SPOILERS.

Distanciamento do próprio Martin

Em uma entrevista recente à revista Time, Martin contou sobre como sua relação com a série foi mudando com o passar do tempo. Na entrevista — traduzida aqui— ele pontua que “passou” pela 5º temporada, o que acabou fazendo também com a 6ª e 7ª, recém encerrada. No começo, além de escrever o roteiro de um capítulo por temporada, ele servia como “consultor” aos produtores, elucidando ponto ou outro da trama. Isso acabou. Por causa do tempo corrido e de suas obrigações editoriais — oi, Winds of Winter, sumida — ele se distanciou da produção televisa, chegando a afirmar em outra oportunidade que não estava nem assistindo pela televisão o material finalizado. Em outro resposta à Time ele diz que a série é a série e que os livros são os livros, o que deixa claro mesmo que pelo menos as estradas que levarão à conclusão da saga serão percorridas, de fato, de maneiras diferentes. Esse “abandono” do Martin a Game of Thrones, vamos tratar assim, acredito que abre brechas para uma segunda questão que evidencia o problema de Weiss e Benioff com a questão criativa.

Acho que esse velhinho está metendo um louco com esse papo de “parei de ver a série pra terminar os livros”

Tropeços

Erros de continuidade e sequencias que contrariam a trama e existem — como em qualquer outra produção — desde o começo da série, lá em 2011. O site gameofthrones.com, inclusive, compilou alguns deles nas temporadas anteriores — alguns são meio exagerados, caso dos recasts é os tão debatidos “teletransportes” de personagens. O fato é que parece que as pequenas falhas foram aumentando com o passar dos anos e chegaram ao ápice nessa temporada. É uma questão puramente de percepção, mas acredito que as reclamações em relação aos deslizes nunca foram tão altas quanto agora. Era você terminar um episódio, ir para a rede social e bucha, lá estavam diversos relatos de insatisfações não só com o andamento da história, mas com as imprecisões da trama. Entre os mais destacados está o caso do Bran e sua visão de (quase) longo alcance. Talvez por falta de tempo, devido à correria dos episódios, esse poder não tenha sido bem explicado e por isso gere confusões como a do episódio 7.07 (The Dragon and the Wolf). No momento seguinte em que afirma saber de tudo, Bran é informado de um fato que não sabe, contrariando de maneira bizarra o que ele tinha acabado de dizer. Na mesma cena acontece outra incongruência. Sam Tarly lhe conta que ELE descobriu a anulação do casamento entre Rhaegar e Lyanna, sendo que a descoberta real foi feita pela Goiva (no episódio 7.05). Assim como esses, outros equívocos, digamos assim, se empilharam. Caso dos dois Aegons (questão que ainda pode ser debatida), Tio “X-Machina” Benjen, Jon e sua intimidade com a Dany (?), Viserys = Rhaegar, Cão cético ~masqueatéenxerganofogosefizerumesforço~, Sansa dando a sentença e Arya brandindo a espada e o próprio plano horrível de buscar um zumbi para lá da Muralha. Nesse último caso, por que cazzo eles não aproveitariam que estavam lá para matar o Rei da Noite, que também preferiu atirar a lança no dragão que estava mais longe só pra provar que era campeão olímpico? Eu apostaria esse computador em que escrevo — que na real não vale muita coisa — que esse plano a la Esquadrão Suicida não vai acontecer nos livros. Eu me identifico com o Jon PRINCIPALMENTE pelo alto nível de “i have no idea what i’m doing” da construção do personagem. Mas, assim, tudo tem limite, inclusive para o maior vacilão do Norte. Além de tudo isso, é possível citar a falta de coragem no roteiro desse sétimo ano de matar personagens com relevância na trama. A única exceção foi o Mindinho — rest in piece, Lord Baelish -, que convenhamos já estava com os dias contados há algum tempo.

George Martin para D&D: “vocês são fracos, falta-lhes sangue no zóio para matar personagens”

E aí, o que se tira de tudo isso?

Game of Thrones é um marco para a televisão mundial. Foi a produção que melhor conjugou o alto investimento com um retorno satisfatório de crítica e principalmente audiência, que continua crescendo e que no final das contas é o que mantêm um programa no ar. O fato é que todo esse gigantismo que envolve a série — e as Crônicas de Gelo e Fogo — tem dificultado o trabalho da dupla D.B Weiss e David Benioff, que eu creio estar sofrendo um pouco com a falta de colaboração da mente por trás desse enredo. A tarefa de precisar criar em cima de um universo abrangente — mas incompleto — tem sido uma tarefa complicada para os dois. E isso gera não somente escolhas questionáveis em relação à história, mas também soluções de certa forma simplistas, que o público de Game of Thrones não estava tão acostumado a ver. O trabalho nos diálogos, no figurino, nos efeitos visuais, nas atuações (em grande parte) e nas ambientações ainda é fantástico e servirá como modelo para futuras produções — não só de fantasia — durante um bom tempo. Mas no final das contas eu acredito que a responsabilidade de finalizar um enredo, que em seu tempo é comparado a Senhor dos Anéis, é uma peso que atualmente talvez somente o próprio George R. R. Martin esteja preparado para lidar.

“Estou vendo aqui em 2037. WoW não foi lançado e nem o Palmeiras ganhou um Mundial”

Depois de um longo hiato eu voltei para esse local, que espero não deixar ocioso por muito tempo novamente. Valeu!

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