Estaria a cultura pop tornando as pessoas mais inteligentes?

Influenciado por resultados de estudos encontrados na economia, teoria da narrativa, análise de redes sociais e neurociência, em seu livro intitulado Tudo que é ruim é bom para você (ed.Br, 2012) Steven Johnson advoga que as tendências dos apetites neurológicos do cérebro, da evolução da indústria cultural e das inovações tecnológicas contribuem para o desenvolvimento de uma cultura popular que encoraja a complexidade cognitiva. Fenômeno chamado por Johnson de Curva do Dorminhoco: a conjectura baseada no pressuposto de que formas de cultura pop têm se tornado paulatinamente mais complexas e mentalmente desafiadoras nos últimos trinta anos.

Abarcando a TV, o cinema, os videogames e a internet, a cultura da mídia coaduna a complexificação de narrativas autorreferenciadas, estimulando atividades de cognição coletiva por intermédio de metacomentários na web. As séries de TV e o cinema seguem linhas narrativas cada vez mais intricadas; os videogames estimulam atividades cognitivas como sondagem (exploração do ambiente virtual) e telescopia (trabalho mental de administrar objetivos simultâneos, estabelecendo prioridades e ações futuras); a internet propicia a interatividade por meio de canais de interação social, ao mesmo tempo que os artefatos tecnológicos forçam os usuários a aprenderem novas interfaces.

Considerando as evidências de que o QI é mais influenciado por fatores culturais (Efeito Flynn) — em detrimento da abordagem determinística genética/racial — e que apesar da inteligência medida pelos seus testes retratar apenas uma parte do espectro da inteligência humana, Steven Johnson propõe uma reflexão sobre as mudanças ocorridas na indústria do entretenimento e as elevações médias de testes lógicos de QI em contrapartida aos resultados médios dos testes que medem capacidades específicas ensinadas nas escolas, como história ou matemática, em que os estudantes norte americanos vêm estagnando ou apresentando resultados piores nos últimos quarenta anos.

Á medida que testes de inteligência se afastam de habilidades específicas como aptidão matemática ou verbal — reflexos da educação recebida — o Efeito Flynn é ainda mais proeminente, como nos testes que medem o índice g. O índice g oferece uma aproximação maior de uma inteligência fluida, sem haver necessidade de conhecimento prévio de procedimentos para descobrir respostas, como no teste das Matrizes Progressivas de Raven, que dispensa palavras e números e os substitui por testes com imagens, buscando avaliar a capacidade do indivíduo de identificar padrões e resolver problemas.

Concomitantemente, a cultura pop tem substituído o modelo de Programação Minimamente Objetável por um modelo de Programação Mais Repetível, partindo de produções mais rasas voltadas para prazeres simples de um mínimo denominador comum às massas, para produções de maior complexidade narrativa, em que criam-se enredos labirínticos e autorreferenciais, exigindo maior empenho cognitivo. Basta uma análise de programas como Game of Thrones, Westworld, Black Mirror, jogos como The Last of Us, The Witcher, Zelda:Breath of Wind (só para citar alguns) e as conexões rizomáticas entre livros, quadrinhos e filmes em universos cinematográficos cada vez mais abrangentes.

Certamente há muitos produtos midiáticos de qualidade narrativa questionável, como há de haver em qualquer indústria, mas, a avaliação de Johnson é bastante positiva. Assim, conjectura da Curva do Dorminhoco se mostra um fenômeno auspicioso, que contribui substancialmente para o fortalecimento de uma ascendente tendência de complexidade na cultura.