O intrínseco inaceitável

Chris Lopo
Aug 29, 2017 · 3 min read

De vez em quando leio algumas notícias ou artigos que levantam muitas dúvidas sobre o comportamento humano e a aceitação das justificativas “se todo mundo faz errado eu também posso fazer errado”, “está tudo errado” ou, a melhor, “é assim mesmo”. Fico inclusive pensando se estamos perto de atingir o Ponto Ômega.

Para quem não está familiarizado com o termo, Ponto Ômega foi criado pelo filósofo francês Pierre Teilhard de Chardin para descrever o último e máximo nível da consciência humana. Isso quer dizer que todos estamos conectados, nos tornamos parte de uma mesma entidade, somos um só.

Ontem, lendo um artigo sobre DSTs no UOL, a jornalista escreveu que o uso de preservativos deve ser feito também entre casais em uma relação monogâmica. A justificativa usada para tal afirmativa é de que um dos dois, em algum ponto da vida, vai ceder à traição. Trair é intrínseco à raça humana. Então que me pergunto: se existe a afirmação de que todos nós vamos trair em algum ponto da vida, por quê trair é errado?

E, quanto mais se tira terra do buraco, mais coisas se acha. Após essa afirmação comecei a ligar alguns outros pontos como, por exemplo, a notícia de que foi inaugurado nos Estados Unidos um site de swing, ou seja, troca de casais, para… cristãos. Assim como foi aberta em São Paulo a primeira sex shop para cristãos. Isso me deixou meio zonzo. Se sexo, segundo os cristãos, é só para procriação, como pode existir uma loja que incentiva o sexo como diversão?

No Rio de Janeiro, mais precisamente no Centro da cidade, a prefeitura está multando as pessoas que jogam lixo na rua. Uma das infratoras falou que “é assim mesmo, o povo é sujo por natureza.” Interessante saber que o ser humano não é sujo por natureza, mas é sujo quando lhe convém. Mas, nas grandes cidades brasileiras como Rio de Janeiro e São Paulo, “é assim mesmo”, ou seja, o errado se justifica por ser errado e acaba se tornando certo, padrão.

Duas retas paralelas se cruzam no horizonte. Três retas paralelas se cruzam no horizonte também. Aliás, quantas retas paralelas você desenhar vão se cruzar no horizonte, e é isso que me fez pensar no Ponto Ômega.

É nessa parte que fico me questionando sobre o conceito de certo errado e invariavelmente chego à mesma conclusão: certo é o que você faz e não prejudica ninguém, errado é o que você faz e prejudica alguém.

E se eu e você quisermos tomar banho de chapéu ou esperar Papai Noel ou discutir Carlos Gardel? Podemos? Ou tomar banho de chapéu é errado? Estamos prejudicando alguém ou magoando alguém fazendo isso? Crowley estava certo o tempo todo.

Prefiro continuar imaginando que chegaremos ao nosso Ponto Ômega criando nossa Sociedade Alternativa do que acreditar que nosso Ponto Ômega mora na hipocrisia de defender os próprios erros enquanto estamos ocupados demais apontando os erros dos outros.

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Chris Lopo

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