Pós-vida

O preço do apartamento estava muito em conta, muito mesmo. Pra um lugar com 3 quartos, 2 banheiros, uma varanda com vista muito boa, prédio que parecia ser da década de 90, mas muito bem conservado e com a manutenção em dia. Era tudo o que eu precisava.

Perguntei pro vendedor o motivo de algo tão bom ter o preço tão baixo. Ele me falou que o antigo dono morrera num acidente de carro, não tinha filhos, não tinha pais, não tinha irmãos, primeiro dono. Não sei como, também não sei se é verdade, mas o apartamento foi a leilão, a imobiliária comprou e estava com dificuldades de vender.

Eu estava morando lá fazia quase um mês. Normalmente acordo as 3h da manhã pra ir no banheiro, e, um dia, quando passei pela sala, vi um rapaz de meia idade sentado no sofá, olhando pro chão com um semblante triste. Estranhamente eu não senti medo, mas um misto de pena e curiosidade. Falei “oi” e ele não me respondeu. Falei “oi” novamente e nada. A janela estava aberta, tem uma pizzaria 24 horas em frente, o neon do letreiro fornecia uma iluminação igual aqueles filmes noir, um clima meio Dick Tracy. Comecei a ficar impaciente e caminhei em direção a ele. “Olha, não sei como você tem a chave daqui, mas eu sou o novo propr…”. Eis que ele me interrompe e fala “esse apartamento era meu!”

—Morei aqui desde meus 21 anos.
 — Olha, acho improvável. O vendedor me falou que era de um rapaz, único dono.
 —Eu sou esse rapaz!
 — Mas você não está morto…
 — Estou! Estou muito morto! Morto além do que gostaria de estar!
 — Não estou entendendo.
 — Eu morri ali, sozinho, na frente do computador. — apontando para o outro lado da sala.
 —Morreu ali do outro lado da… Morreu como? Não foi num acidente de carro?
 — Não! Foi ali, naquele canto!
 — E o que você está fazendo aqui?
 — Vim terminar minha missão.
 — Olha… Se precisar se comunicar com alguém eu posso transmitir a mensagem, o trazer a pessoa aqui.
 — Você! Eu preciso falar com você! Minha missão é te comunicar uma coisa muito importante.
 — Falar comigo? Peraí… Falar o quê?
 — Quando você morre você vira o vento, o nada, uma projeção do que você era. Você não consegue nem… nem… bom… nem se tocar.
 — Tá bom, mas o que eu tenho a ver com isso tudo?
 — Preciso te alertar: não se vicie em pornografia online! Você se acostuma, quer mais, e mais, e mais, até que um dia morre na frente do computador sem nem ter a experiência com uma mulher de verdade…

Nessa hora ele se desfez no ar e me vi ali, sozinho, olhando pela janela, pras duas primeiras letras do letreiro da pizzaria. Peguei o telefone, cancelei a compra do Macbook, e comecei a pensar no que fazer com a mesinha, que ainda estava desmontada, exatamente no canto que ele havia apontado.