Construindo a reflexão sobre o voto em tempos de internet
Em época de desconfianças na política, no público, nas instituições, na mídia e na sociedade em geral, torna-se difícil para o cidadão ou cidadã desenvolver uma reflexão amadurecida, racional, responsável individual e coletivamente.
Neste sentido, aqueles que se preocupam em compartilhar conhecimento e promover a reflexão são atores que, cada qual na sua medida, podem contribuir com uma discussão, por vezes, tão complexa como a relacionada à participação política por meio do voto.
Como cidadã, sem vinculação político-partidária, com identidade moldada por valores aos quais aderi em minhas socializações desde o nascimento, alguém que educa cidadãos, bem como reconhecendo que meu escopo de atuação e formação não envolvem a ciência política (neste tenho gente bem mais qualificada ao meu redor), mas sim a gestão, resolvi compartilhar alternativas que, embora não garantam soluções absolutas (isso seria impossível e até intelectualmente desonesto), me auxiliaram a desenvolver o meu próprio processo de decisão, e que podem ajudar quem ainda está fazendo o mesmo — desde que a decisão — fique bem claro — não seja ainda a convicta total ou aquela motivada pelo “voto útil” (“voto em A porque, mesmo não sendo o candidato ideal, está na frente nas pesquisas e tem posição contrária a B”). Caro leitor, se este for o seu caso, especificamente, sua posição é totalmente respeitada por mim dentro do jogo democrático, mesmo que eu não concorde com ela. Assim, reitero que este texto se dirige a quem não se encaixa nesta posição de voto, e parte de alternativas de ações para a tomada de decisão em tempos de uso da internet por grande parte dos brasileiros (infelizmente nem todos ainda, mas parte expressiva).
Neste sentido, vejo como alternativas as seguintes:
- Busque informações fidedignas: diante da “avalanche” de informação que nos chega via internet, e em especial por meio de redes sociais, priorize informações de fontes oficiais, como o site do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e sites e páginas de redes sociais reconhecidamente oficiais de candidatos. Nestas páginas há dados sociais, econômicos, profissionais e processuais de candidatos e candidaturas, bem como planos de governo oficiais de candidatos a governador estadual e presidente da República. Páginas no estilo “vamos com fulano” ou “fã-clube de fulano candidato” nem sempre apresentam as melhores informações. Comentários de seguidores também não. Teve dúvida sobre o plano de governo? Pergunte em um canal oficial do candidato, mas não se contente com respostas alheias em comentários (se ninguém responsável pela página - "#teamCandidato" - lhe responder claramente, esse é um parâmetro pra se avaliar). Notícias? Verifique se foram veiculadas em pelo menos três fontes diferentes (de origens corporativas, geográficas e econômicas diferentes) e com o mesmo sentido para quem lê. De todo modo, não utilize apenas elas para decidir.
- Ignore um pouco o seu “analista preferido”: pessoas com diferentes formações estão dando sua contribuição às análises eleitorais atuais. Há, dentre estes, especialistas competentíssimos que estudaram muito e possuem reconhecido valor. Porém, não há, em ciências sociais, como haver desconexão total entre subjetividade e técnica. Análises, mesmo bem feitas e fundamentadas, sempre são permeadas por trajetórias, valores e afiliações (não necessariamente político-partidárias) de quem as desenvolve. Não que isto constitua defeito: é parte do processo intelectual do próprio ser humano ao abordar algo inexato. Mas é fato que existe. Então, procure também ler e ouvir o que outros analistas, que você não conhece, têm a dizer — e a partir de diferentes pontos de vista, constitua a sua análise independente.
- Saia da sua “bolha”: em rede social, segue sempre as mesmas pessoas? Estas pessoas têm sempre as mesmas posições? Busque outras pessoas para seguir e formar outras percepções. Compreendo, discutir em tempos em que as pessoas estão “à flor da pele” é mesmo complicado, gerando exposição e dissabores. Mas não se criou ainda nenhum decreto que obrigue alguém a comentar e discutir (nem impedindo quem quer fazê-lo). De todo modo, leia e ouça estas pessoas. Para refletir ainda mais. É desafiador, mas é um esforço de sistematização e um exercício da própria empatia;
- Aproprie-se de definições da área pública: pesquise textos acadêmicos e conceituais sobre gestão pública e, em especial, a própria Constituição. Espantosamente, pode haver candidato prometendo coisas para além da competência privativa do seu cargo, bem como sem qualquer conhecimento sobre a gestão do setor público. Você pode não ter obrigação de saber de nada disso - mas ele, sim, e antes mesmo de se candidatar!
Estou utilizando estas premissas para consolidar meu processo de decisão de forma mais racional. Desejo, com esta minha humilde fala, que esta tarefa se torne um tanto menos pesarosa para você. Nós, aqueles a quem conhecemos ou não, aqueles que já nasceram ou não, os que de nós dependem e a democracia nacional precisamos todos dessa sua decisão.
