NEUROAPRENDIZAGEM

Christofer Braga
Jul 20, 2017 · 3 min read

APRENDER SER AVALIADO

Desde o ensino fundamental e médio, é possível perceber uma supervalorização sobre os números das notas finais das provas e exames – o foco no resultado revelado. Muitos alunos, por terem atingido a média anual no terceiro bimestre, se gabam pela possibilidade de poderem negligenciar o restante do ano por “já ter alcançado a média”. Essa cultura é fomentada e estimulada sorrateiramente por todos os lados: família, amigos e até professores. A ênfase na nota acaba por embaçar a importância do real valor da educação, que é a própria aprendizagem.

Estudos recentes sobre neuroaprendizagem nos mostram que o cérebro humano aprende sob o Ritmo Circadiano. Isto significa dizer que o cérebro faz, durante o sono, uma seleção do conhecimento adquirido em um dia, armazenando o que foi estudado com diligencia e descartando o que foi apenas de forma passiva e negligente, assimilado superficialmente. Estudar para a prova, portanto, não é um caminho propicio para o real aprendizado, pois é possível, num tempo reduzido, anterior ao exame, abarrotar a mente com centenas de dados, armazenando informações na memória de curto prazo (no sistema límbico), fazer uma prova formidável, tirar excelentes notas, e, tão logo, perder esse “conhecimento”. Como comenta o professor Pierluigi Piazzi em seu livro, Aprendendo Inteligência:

“O pior é que, agindo assim, o “esperto” até consegue nota! O trágico é que, em seguida, ele esquece tudo!” (pag. 41)

Preferível é, porém, que se faça a fragmentação desse estudo acumulado e comprimido temporalmente, no decorrer dos vários dias, seja no ano letivo da escola, ou no semestre universitário. Essa má conduta para com a aprendizagem se evidencia quando, ao fim do ensino médio, um aluno necessita de cursinho pré-vestibular para conseguir uma boa nota numa prova cuja matéria fora estudada por anos na escola. Ou ainda, um exemplo mais deprimente: um acadêmico de direito que ao termino do bacharelado, ainda necessita de cursinho de reforço para o exame da OAB — ora, o que foi feito durante cinco anos?

No Brasil existe, também, um pensamento desacertado de que a educação é um direito, quando na verdade deveria ser encarada com um dever. Costuma-se, em nosso país, delegar a responsabilidade do sucesso ou fracasso sobre as costas do professor ou do Estado. Nos EUA, por exemplo, os professores nas salas universitárias praticamente se limitam a tirar as duvidas das matérias previamente estudadas pelos alunos. É obvio que não se pode comparar inteiramente a realidade brasileira com a norte-americana, são culturas acadêmicas distintas. Contudo, é possível pegar esse gancho para fazer uma diferenciação entre aluno e estudante. Ao contrario do que se pensa habitualmente, não são palavras sinônimas. Aluno é aquele que assiste aula. Estudante é aquele que estuda. Assistir à aula é sempre uma experiência coletiva e passiva. Estudar, por outro lado, é individual e ativo. Ambos têm sua função na aprendizagem, mas no Brasil, o que se percebe é uma descentralização da responsabilidade individual do acadêmico (ou aluno na escola) na obtenção do conhecimento.

Há muitos alunos que, ao fim de um curso superior, por exemplo, reconhecem ter levado quatro, cinco ou mais anos ouvindo e se descartando das lições e provas. O sucesso do diploma, nesse caso, não está relacionado a uma vida maçante e solitária de estudos, mas às meras lembranças curtas e rasas do que fora superficialmente assimilado nas aulas. Sem gasto de energia. Sem absorção de conhecimento.

Por conseguinte, considerando as recentes pesquisas sobre a neurociência consoantes à identificação de péssima cultura pedagógica brasileira, é urgente que de reconsidere o quão benéfico (ou maléfico) podem ser os “calendários de prova”. Segundo o pensamento do professor Pier, deve-se estudar pouco, mas todos os dias. O único dia estritamente proibido de se estudar é na véspera da prova. O estudo deve ser diário para o real aprendizado, armazenando as informações na área cerebral reservada para memória de longo prazo (o córtex). Ademais, a prova deve ser elaborada com o fim de examinar o conhecimento realmente adquirido, sem exageros de sofisticação, para não criar a ilusória sensação de êxito. Deve-se fazer uma diferenciação entre o empanturramento efêmero e a educação real e permanente.


O drama da razão… Buscar o fio no labirinto até o ter na mão porque o intelecto é o espelho do vazio e esse vazio é cheio de ilusão. (Bruno Tolentino)


PIAZZI, Pierluigi: Aprendendo Inteligência. 3ª edição, Aleph, 2014

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