Jorge Drexler e a cerimônia do Oscar 2005

Jorge Drexler e o prêmio de “Melhor Canção Original” ganho no Oscar 2005

O ano era 2002 e o diretor de cinema Walter Salles finalmente conseguia terminar de filmar seu sexto longa-metragem, Diários de Motocicleta (Diarios de Motocicleta), um road movie sobre a primeira viagem pela América Latina de Ernesto Guevara de la Serna, antes de ser conhecido como “el Che”, e seu amigo Alberto Granado. O roteiro do filme foi baseado em dois livros que contam a epopeia dos amigos, Notas de viaje, de Ernesto “Che” Guevara e Con el Che por Latinoamérica, de Alberto Granado. O filme, assim como foi a própria viagem, tem como intuito “mergulhar em um continente que merece ser conhecido ‘desde su propria mirada’”, como declarou Walter em entrevista à Folha de São Paulo em 2002.

Em 2000, Salles havia convidado Jorge Drexler, cantautor uruguaio, para compor uma canção para seu novo filme. Drexler já havia gravado cinco álbuns e próximo álbum, Sea (2001), apareceria na lista de 10 melhores discos de 2001 da edição argentina da revista Rolling Stone e também seria indicado para o Grammy Latino e MTV Latin Awards. Al otro lado del río foi composta em poucas horas, a partir da descrição de uma cena do filme feita por Salles pelo telefone. A canção se apresenta andarilha, com uma metáfora sobre a percepção do entorno de nossas vidas e, independente do que apareça, uma visão esperançosa diante da finitude.

Al otro lado del río, Jorge Drexler, com cenas do filme Diários de motocicleta

O filme foi lançado no começo de 2004 no festival de Sundance, já despertando interesse da crítica especializada e logo em seguida esteve presente no festival de Cannes. Aclamado, já somava mais de 10 milhões de espectadores pelo mundo e recebeu mais de 40 indicações e prêmios, dentre essas, duas indicações ao Oscar 2005: “Melhor Roteiro Adaptado”, por Jose Rivera e “Melhor Canção Original”, por Al otro lado del río de Jorge Drexler, a primeira canção em espanhol a ser indicada ao Oscar.

Como é tradicional, as canções indicadas são interpretadas ao vivo na cerimônia da premiação. Mas, dessa vez, houve uma questão polêmica. O produtor da cerimônia, Gil Cates, vetou o uruguaio na cerimônia, alegando que ele era “desconhecido pelo público norte-americano” e escalou o ator Antonio Banderas e o guitarrista Carlos Santana para interpretar a canção do filme Diários de Motocicleta, assim como Beyoncé faria uma performance tripla: Believe (Josh Groban), de O Expresso Polar, Learn To Be Lonely (Andrew Lloyd Webber/Charles Hart), de O Fantasma da Ópera e Look To Your Path (Bruno Coulais/Christophe Barratier), de A Voz do Coração. Apenas o grupo Counting Crows, famoso em terras norte-americanas, iria interpretar sua própria canção indicada a premiação, Accidentally In Love, de Shrek 2. Drexler ficou sabendo que não iria interpretar sua própria canção pelo site da Academia e também por Banderas, que havia entrado em contato com o compositor. Ele tentou entrar em contato com o Cates, alegando que já estava acostumado a se apresentar ao vivo, mas o produtor da cerimônia foi irredutível em sua escolha, em um gesto desrespeitoso e típico norte-americano, ignorando a existência do resto do continente americano. Dias antes da cerimônia, Walter Salles soltou um manifesto em apoio a Drexler na Internet, em seu nome e da equipe do filme. “Ainda em relação à cerimônia de domingo, considero que a decisão de não deixar que Jorge Drexler interprete a canção que ele próprio criou e cantou no filme é um desrespeito ao autor de Al otro lado del río, tem um caráter impositivo e ignora a diversidade cultural que existe na América Latina.”, trecho da carta escrita por Salles. Drexler também foi entrevistado e disse que o Banderas tinha entrado em contato com ele e sido bastante amigável, também havia apelado junto a produção para que o uruguaio se apresentasse e quis assegurar que faria tudo para preservar a essência da canção e do filme em sua interpretação.

Carlos Santana e Antonio Banderas interpretam Al otro lado del río na cerimônia do Oscar 2005

Gael García Bernal, que interpretou Che no filme, foi convidado para apresentar a canção do filme na premiação, mas no dia da apresentação, a Academia anunciou que ele não estaria mais na cerimônia. Bernal disse que só apresentaria a canção se fosse Drexler a estar no palco. Então, coube o papel de apresentadora para a atriz mexicana Salma Hayek, que enalteceu o filme e chegou a traduzir um trecho da canção para o inglês. A versão de Banderas e Santana é de gosto duvidoso, trocando o sutil violão dedilhado de Drexler por uma guitarra estridente de Santana e uma interpretação de Banderas que lembra cantores românticos como Luis Miguel ou Julio Iglesias, completamente fora do propósito da gravação original. Assim que a música acabou, o próprio compositor foi filmado aplaudindo discretamente a interpretação. Depois da premiação, Drexler declarou que não conseguiu parabenizar Banderas, mas que ia fazê-lo, por ele ter sido um companheiro nesses últimos dias. Ainda criticou Santana, por usar uma camiseta com uma imagem de Che, dizendo que não faria o mesmo, pois o filme é uma resposta a camisetas como essa e que “a virtude do filme era não falar sobre o ícone, e sim do ser humano”.

Premiação de “Melhor canção original”, apresentado por Prince, no Oscar 2005

A premiação de foi apresentada por Prince e apesar dos percalços até então, Al otro lado del río saiu como vencedora, segundo o crivo da Academia. Jorge Drexler, pego de surpresa, comemorou com o punho em riste e cumprimentando sua esposa. Foi em direção ao palco com um sorriso de satisfação, pegou a estatueta das mãos de Prince e o cumprimentou com uma reverência. Não aguardou o fim dos aplausos e se curvou para próximo do microfone e cantou a capella:

“clavo mi remo en el agua
llevo tu remo en el mío
creo que he visto una luz al otro lado del río
el día le irá pudiendo poco a poco al frío
creo que he visto una luz al otro lado del río…
chao, thank you, gracias… chao!”

Em menos de 30 segundos, o uruguaio “desconhecido nos Estados Unidos” se tornou o primeiro cantor de origem latino-americana a receber um Oscar e com sua atitude singela, conseguiu trazer de volta sua canção para casa, junto com sua estatueta. Drexler disse que não havia sido um ato de vingança, apenas queria fazer o que mais gosta, cantar sua canção. Alguns anos depois, declarou que “ficou feliz por não participar da cerimônia, com aquela montagem e cenografia feias e um contexto difícil” e “em contrapartida, cantei do meu jeito, sozinho, com o microfone e em 22 segundos e depois fui embora. Não poderia ter me saído melhor.”. Após a premiação, Walter Salles escreveu outra carta, enaltecendo a vitória de Drexler, fazendo um paralelo com o próprio filme. “Se nos convidam para essa festa, que nos aceitem como somos, e não como acham que devemos ser”, encerra Salles. A carta foi assinada por mais de 400 artistas como Javier Bardem, Alejandro Irrañitu, Joshua Martson e Catalina Sandino Moreno e foi entregue pessoalmente a Frank Pierson, presidente da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas norte-americana.

Al otro lado del río saiu como faixa-bônus em Eco², a reedição do álbum Eco de Jorge Drexler, lançado em 2004. Nas apresentações ao vivo, Jorge Drexler costuma interpretar a canção a capella, uma autêntica e digna homenagem a essa epopeia (dica da Letícia).