Lupe de Lupe em São Paulo

(texto publicado no Facebook em 18 de julho de 2015)

crédito: Bolovo

Depois de alguns meses, a Lupe de Lupe voltou ontem, 17 de julho de 2015, a São Paulo, para o segundo show após o lançamento do Quarup, o disco duplo de 1h49min lançado em novembro de 2014. Dessa vez eles vieram pela turnê chamada Sem sair na Rolling Stone, que partiu de Belo Horizonte, passou por Campinas e Santo André e ainda passará por 19 cidades de 11 estados diferentes.

O show de São Paulo já vinha com diversos imprevistos. De última hora, tiveram que desmarcar a data na casa que eles tinham combinado meses atrás. Rolou um aperto e aos 44 minutos do segundo tempo, conseguiram um espaço pra tocar na Bolovo, espaço que fica na Vila Madelena. Não contente com esse aperto, o carro da banda resolveu dar trabalho e quebrou algumas vezes na estrada no caminho para SP.

Desde a primeira nota tocada, o show foi a personificação daquilo de quem acompanha os mineiros, pelos lançamentos e também pela posição nas redes sociais. Uma banda despreocupada com a polidez, tocando sem um repertório fixo, mas entregando muita energia em cima do palco. Eles começaram o show com SP (Pais Solteiros), o ode a paulicéia que consegue ser tanto um retrato de um turista sobre São Paulo ou também o relato de um nativo dentro de uma terra de estrangeiros. Na saudação final feita por Vitor, ele disse que o intuito era todo mundo se divertir no show.

Conforme as músicas foram passando, o show foi esquentando. Por ter sido em um porão e estar entupido de gente, o calor humano já era inevitável. Na primeira música mais pesada, o pessoal já saiu do estado passivo e partiu para trocar energias entre si. Nem as sucessivas paradas para ajeitar a bateria, que estava colocada em cima de um mini halfpipe e sem o devido cuidado, conseguiram apagar o pavio do público. Pelo repertório, foi um passeio pelos lançamentos da banda, desde os mais antigos até o Quarup. Em alguns momentos, parecia que eles estavam decidindo ali na hora o que iriam tocar. Até que depois, percebi que havia um setlist mambembe com um dos integrantes, escrito à lápis.

Após alternar momentos de entrega absoluta da banda e do público como em Orquestra pra Três e Homem e momentos mais contemplativos como RJ (Moreninha) e Colgate, no final veio a dobradinha mais esperada: Eu já venci e 17. Foi uma explosão geral. Com o pé-direito baixo do porão, teve gente que estava sendo carregada pela galera e encostando mãos e pés no teto. Aconteceu um delírio coletivo enquanto os versos pontiagudos da canção eram vociferados no microfone, tanto pelo Vitor quanto por alguns que estavam ali na frente que tomaram um dos microfones pra gritar que já venceram. O rapaz que controlava a mesa de som tentou abaixar o volume do microfone que foi tomado pelo público, mas foi em vão. O desespero era tanto que nem precisava de nenhum acessório para aqueles gritos ecoarem por aquele lugar.

Apesar das adversidades apresentadas antes e durante, a banda fez um grande show. Um show que corrobora a imagem da banda como uma guerrilheira para sua sobrevivência no cenário. Se colocam entre as poucas bandas que vêm enfiando o facão no mato e desbravando caminhos alternativos a aqueles que vivem se alimentando de relações duvidosas, “networking” ou qualquer tipo de interesse duvidoso. Eles imprimem uma alma nas suas canções e na interpretação ao vivo que possibilita que o público deixe de ser mera objeto de cenografia para ter interação com a arte. A Lupe de Lupe pode não ser a mais afinada, dissonante ou qualquer outra coisa que coloque num patamar de qualidade técnica elevada, entretanto, é uma das raras exceções de música feita com o coração que temos por aí. Eles continuam vencendo todos os dias.