Sobre o início, o fim e o meio

Neymar, ao contrário do Pelé, é gênio com as palavras também. #tois

Então assim, depois de 6 anos, me vi apresentando o meu último trabalho na universidade. Meu último e melhor trabalho, acredito, já feito e apresentado entre paredes de amianto, mato e bichos que são as salas 50s na Unesp Bauru. Mas falando sobre meu trabalho, ele consistiu em fazer um livro. Sim, essa coisa meio datada, velha, que não muda de forma e que não conecta na internet. Um livro feito de papel, retangular, capa dura e tinta. Tão velho quanto a China, escolhi-o para condensar todo o meu conhecimento aprendido nesses 6 anos estudando design gráfico. TCC é meio que isso, um grande reflexo do que você viveu dentro e fora da grade curricular universitária, e um livro até que soa bastante coerente se você pensar bem.

Capa do projeto gráfico com verniz localizado. Mais aqui: www.caiohenrique.com

Escolhi a obra da escritora paulista Ruth Guimarães, “Os filhos do medo”, para fazer uma reedição (um novo projeto gráfico) que pudesse tirar a obra do esquecimento e trazer para a contemporaniedade um livro tão importante para a cultura brasileira. Ele fala sobre o medo, e as manifestações deste, no imaginário do homem caipira do Vale do Paraíba. É uma pesquisa folclórica, documentação de causos, relatos e prosas: muitas coisas em pouco mais de 300 páginas. É um livro que merecia (merece) não só por sua qualidade, mas também por representar a pluralidade cultural e racial de nosso povo, sem citar o fato de que Ruth era mulher, negra e caipira também. Não sei se me fiz claro, mas é uma obra importante, importante demais para se deixar esquecida, principalmente no tempo em que vivemos.

Foram alguns meses trabalhando nesse projeto, e digo que eu me apaixonei de verdade por ele. Por todo o processo, desde pesquisar a fazer o projeto de captação do original à impressão, foi algo gostoso, mas cansativo também. Chega uma hora que cansa.

Você se estressa, nunca acha que está bom e, no final, dá tudo certo. Seja para o bem ou para o mal, as coisas se resolvem. O TCC é apenas mais um projeto na vida, o último da vida universitária, mas apenas mais um em nossas vidas de designers. Acredito que essa foi a lição que eu aprendi na reta final: existe sempre um projeto novo vindo pela frente.

Na música “Gita”, Raul Seixas canta: “Eu sou o início, o fim e o meio”. Nunca entendi direito o que isso significava, até ficar com essa frase na cabeça desde o final da minha apresentação. Ao final de tudo, eu não sabia muito bem como me sentir, eu era um mix de emoções e pensamentos que não conseguiam focar em uma coisa só. Não caiu a ficha ainda, talvez caia quando eu me formar de verdade, com beca e tudo, mas até agora está tudo na mesma. É igual fazer 18 anos, você acha que tudo vai mudar no dia seguinte, mas não, nada é tão diferente assim. Muda aos pouquinhos e, quando você percebe, já acha normal que nem nota o caminho diferente que sua vida tomou. Viver é passar por mudanças que você nem nota quão grandiosas são, e quando perceber vai achar bem mais ou menos. Vida sempre te dibrando. Ela é um eterno início, um fim e um meio. Início de uma nova etapa na vida, fim de uma curso de graduação e o meio de estudos e aprofundamentos pessoais e teóricos, por exemplo.

Como eu me sinto no momento? Início, fim e meio.


Queria ter agradecido um monte de gente no final da apresentação, mas eu estava meio nervoso e não conseguia focar em nada para dizer, ou parar de levantar vôos com a mão. Vou copiar a parte final do meu relatório por que preciso ver isso aqui publicado nas redes.

Gostaria de agradecer, principalmente, a minha família de São Vicente, a de sangue, que entre idas e vindas nesses últimos 6 anos foi meu porto seguro e meus principais apoiadores. Esse projeto nunca teria existido — e o resto desses agradecimentos — sem o apoio deles. Também gostaria de dedicar esse trabalho a minha família de Bauru, meio escolhida e meio recebida — por quê as melhores pessoas são aquelas que um dia não são conhecidas e, no outro, já são irmãos. Aqui incluo os Fernandes e os Lira pela amizade e a casa sempre aberta, aguardo uma visita de todos a Santos; a turma de 2011 do curso de Design da Unesp Bauru, vocês todos ajudaram a moldar o que eu sou hoje; as repúblicas Base, Frente e Esquina, vocês deixaram de existir mas as amizades ali feitas ficam para sempre; a Bangalô, que no último ano foi minha casa na cidade sanduíche, vocês e o Mandioca fazem parte desse projeto também; ao Inky Design e todas as gerações que passaram por lá e pude ter contato, só amor por todos vocês; as minhas mães adotivas e orientadoras Cassia e Ferdi, que pegaram um adolescente de 17 anos perdido, colocaram na asa e ajudaram ele a chegar ao final dessa jornada, não tenho palavras para agradecer tudo o que fizeram por mim nesses últimos anos, falar de tudo teria que fazer um livros só sobre isso. Por fim, gostaria de agradecer a Joaquim Maria Botelho que, sem o consentimento e a imensa ajuda com a parte textual nada disso existiria. Espero que eu tenha feito um trabalho a altura de Ruth Guimarães.

A banca maravilhosa e aos amigos que madrugaram. OBRIGADO!

p.s.: Vão ter alguns outros artigos que vou tirar do relatório do meu TCC, então se quiser ler algumas abobrinhas segue eu aqui e fica esperto! #tóiz