New York circa 1921. “Larrimore.” Francine Larrimore, French-born star of stage, screen and library. 5x7 glass negative, G.G. Bain Collection.

Sobre Star Wars, Lara Croft e Emma Watson


Eu pago pau para universos bem escritos. Aqui como universo bem escrito eu falo de todo tipo de livro, filme, jogo, card game, brinquedo, série de televisão e desenho animado que me apresente um lugar onde eu consigo esquecer a realidade em que vivo. Você mergulha de tal forma em seus universos que esquece que você vive numa terra onde orcs e elfos não existem, ou que numa realidade paralela existam duas luas no céu. Eles criam línguas, constroem mapas e geram mitologias, tudo para você crer que aquilo que está sendo contado é real. Quanto mais características mais crível seu mundo se torna. A beleza de um universo bem escrito, ou de uma narrativa bem escrita, está nos detalhes.

No breve curso que tive sobre escrita criativa, a professora sempre disse que a suspensão da realidade era a espinha dorsal de todo texto narrativo, seja ficcional ou não. No texto dado em aula, de Sandro Massarini (que você pode lê-lo na íntegra aqui) ele diz o seguinte:

Pode-se dizer que toda vez que começamos a ver ou ler uma obra narrativa, é estabelecido um “contrato” entre o autor e o seu público. Em troca de receber e sentir as emoções de uma história, o público realiza o que chamamos de suspensão da realidade, ou seja, por aquele período de tempo, nós não estamos mais no nosso mundo, mas sim nos transportamos para o mundo criado pelo autor.

Ele é o acordo invisível entre o narrador e o receptor. Você assina esse contrato no seu dia-a-dia e não percebe. E não estou falando de quando você vai ver um filme ou ler um livro, estou falando daquela conversa no escritório, ou na mesa do bar depois do expediente.

Você e seus amigos estão em uma mesa de bar, conversando sobre assuntos aleatórios. Até que um deles pergunta aos outros se eles gostariam de ouvir o que aconteceu na festa do último fim de semana. Todos dizem que sim e ele começa a contar. Nada de anormal: bebidas, música e muita gente louca. Mas, no meio da história, ele diz que viu a Emma Watson dançando Anitta junto com algumas amigas dele. Vocês e seus amigos interrompem a narrativa e falam que ele estava bêbado, que não aquilo não era possível ou até mesmo dizem que ele está mentindo. Seu amigo, então, se corrige: “Verdade. Acho que era a Manuela, sua ex-namorada Marco. Ela sempre me pareceu a Hermione, não sei por quê.” Ninguém questiona aquele fato, faz muito mais sentido do que Emma Watson dançando em uma festa qualquer no meio do interior do estado.

No momento que você aceitou ouvir essa história você está assinando o invisível contrato. Você escuta a história e julga se aquilo é crível ou não, tudo depende das regras que gerem o mundo daquela história. O mesmo acontece com as narrativas ficcionais.

Ao comprar o ingresso e sentar na poltrona do cinema para ver Star Wars: O Despertar da Força você assinou o contrato. Ele estava invisível, mas estava lá. Você queria se perder naquela galáxia muito distante, de muito tempo atrás. Alguma regras estão ali e você aceita até certo ponto: os planetas serem todos propícios para vida humana, BB-8 “andar” sem dificuldades por uma floresta de difícil locomoção, ou a clássica falta de mira dos stormtroppers. Mas e se, por exemplo, o BB-8 começasse a falar como um humano? Não seria estranho? Pela lógica criada pelo universo Star Wars, aquele tipo de droid não fala a língua humana. O C3PO tudo bem, mas R2-D2 e BB-8 não podem. Não faria sentido. A balança entre o crível e o absurdo é muito tênue quando falamos de narrativa.

No jogo Tomb Raider, a protagonista Lara Croft sofre muito ao matar seu primeiro inimigo no jogo. Você se sente mal, junto com a personagem, pela morte do homem desconhecido que queria te matar. Torna aquela personagem muito mais realista, muito mais próxima da gente. Porém, no instante seguinte, ela já está atirando flechas, trocando tiros e matando qualquer coisa sem nenhum remorso (incluo aqui animais de todos os tipos). Nenhum choro, nenhuma hesitação. Aí a suspensão da realidade, que até então te deixava totalmente imerso naquela universo, é quebrada. É semelhante ao momento que, no meio do sonho, percebemos que estamos sonhando e acordamos. E isso é ruim. Você se sente traído, você sente que o contrato não foi cumprido. É como ser pego em uma mentira. E é aí que a narrativa falha.

Então, creio eu, que a base de qualquer narrativa é manter a balança entre o crível e o absurdo. O lado negro e a luz. Yin e yang. Se fizermos um paralelo entre o mundo em que vivemos e o universo criado por George R.R. Martin, por exemplo, tudo acontece sempre entre o total absurdo e a coisa mais mundana possível. Se eles tem dragões, nós temos muitos animais que ainda nem foram descobertos. Se eles tem brigas internas pelo Trono de Ferro, o que dizer das nossas manchetes sobre política? Claro que muitas das coisas que Martin usa em suas obras são claramente pegadas da Idade Média, assim como Tolkien estudou muito a mitologia para escrever O Senhor do Anéis. A necessidade de contar uma história é forte desde os primórdios do ser humano. Contar uma história nada mais é que uma mentira muito bem contada. E qual a característica de uma mentira bem contada? Coesão entre todos os detalhes.

Quando você for ver pela segunda vez O Despertar da Força, tente perceber as pequenas regras propostas pelo filme, e veja se em algum momento ela é traída. Perceba se a balança é mais para o crível ou para o absurdo. Você já faz isso mas nem percebe. Depois vá ver a trilogia antiga e a nova. Veja em que momento George Lucas traiu seu próprio universo (você vai ver que Jar Jar Binks não é só irritante como é dele a culpa de ter dado tanta merda depois do episódio 2). Com outros olhos os filmes você verá.