
“Bancos funcionarão como plataformas financeiras”
por Felipe Faletti
VETERANO DO SETOR BANCÁRIO, SAJAL MUKHERJEE, DA IBM, UM DOS DESTAQUES DO CIAB FEBRABAN, ACREDITA QUE NO FUTURO AS INSTITUIÇÕES FINANCEIRAS ACOPLARÃO APLICATIVOS E PRODUTOS DE TERCEIROS, POSSIVELMENTE DESENVOLVIDOS POR FINTECHS
Sajal Mukherjee cumpre à risca o estereótipo do sonho americano. Nasceu na interiorana e superpopulosa cidade de Nagpur, na Índia, atravessou uma infância humilde e graduou-se com dificuldade em uma universidade local. Com notas brilhantes, conseguiu uma bolsa para cursar MBA na prestigiosa Universidade de Massachussetts, no final dos anos 90, nos Estados Unidos. Acabou contratado por bancos americanos, tornou-se um executivo de sucesso e nunca mais voltou a viver em sua terra natal.
Há quatro anos atuando em uma função que simplesmente não existia antes dele, o cargo de “líder para transformação de bancos”, Sajal coordena um time de 100 pesquisadores na IBM e virá pela quinta vez ao Brasil. Agora, para palestrar no Ciab FEBRABAN sobre um tema que é sua obsessão: como os gigantes financeiros podem manter-se relevantes frente às sucessivas revoluções digitais que sacodem modelos de negócio em todas as indústrias.
Para Mukherjee, há uma discussão muito viva sobre “uberização” dos serviços financeiros, e os bancos de varejo estão atentos às mudanças e farão as transformações necessárias. “Acredito que, no futuro, bancos funcionarão como plataformas financeiras, em que se acoplarão apps e produtos de terceiros, possivelmente desenvolvidos por fintechs”, afirma. “Não dá para surgir um Uber no meio dos bancos com a mesma força com que surgiu um aplicativo de transporte.”

Quando o senhor começou a trabalhar com bancos, na década de 90, imaginava que eles passariam por tantas transformações?
Sajal Mukherjee — São vinte e cinco anos de mercado financeiro e a única coisa constante ao longo de todo este tempo são as mudanças: elas nunca deixaram de acontecer. No início da minha carreira, o debate central se dava sobre como poderíamos reduzir os custos operacionais e dar alguma flexibilidade aos bancos, que eram instituições muito quadradas, tradicionais. Este debate acabou superado pelo boom da internet e por uma corrida para criarmos internet bankings funcionais e seguros, que acabaram substituídos por aplicativos de mobile banking. Neste momento, vemos a ascensão das fintechs. Honestamente, eu não imaginava que tudo isso aconteceria em pouco mais de duas décadas. Mas acho que ninguém esperava também.
O que deve vir depois da onda das fintechs?
Sajal Mukherjee — Eu avalio que todos os produtos que os bancos criarem daqui para frente devem obedecer a uma “mentalidade de nuvem”, ou seja, atender o consumidor em qualquer lugar, a partir de qualquer dispositivo. A partir desta plataforma em nuvem, veremos uma adoção progressiva do uso de inteligência artificial, que vai dar maior poder aos seres humanos e retirá-los de tarefas operacionais e matemáticas, assumidas por algoritmos.
Há o risco de os bancos comerciais tornarem-se menos relevantes no futuro, perdendo espaço para empresas de tecnologia?
Sajal Mukherjee — Não tenho bola de cristal, mas, por todos os indicadores que temos em mãos, a resposta é não. Os bancos são instituições muito sólidas e muito acreditadas pelas pessoas, inclusive pelos jovens, conforme indicam pesquisas. Como aconteceu no passado, estas instituições adaptaram-se às mudanças antes e farão isso de novo, no presente e no futuro.
Nos últimos anos, assistimos a empresas como Uber e Airbnb transformarem o mercado de transportes e hotéis, respectivamente. Isso não pode acontecer com os bancos?
Sajal Mukherjee — Se os bancos não se adaptarem, pode sim. Mas o fato é que eu acredito que os bancos de varejo estão atentos às mudanças e farão as transformações necessárias. Há uma discussão muito viva sobre “uberização” dos serviços financeiros e, de fato, eu creio que, no futuro, bancos funcionarão como plataformas financeiras, em que se acoplarão apps e produtos de terceiros, possivelmente desenvolvidos por fintechs. Mas, honestamente, é preciso levar em consideração o grau de exigência e regulação deste setor. Não dá para surgir um Uber no meio dos bancos com a mesma força com que surgiu um aplicativo de transporte.
E como os bancos podem assegurar que estão adaptando-se no ritmo e na direção adequadas?
Sajal Mukherjee — O fato de esta discussão acontecer dentro de um seminário organizado pela indústria dos bancos do Brasil já é um bom indicador. Mas eu diria que, além de discutir, um elemento-chave será construir habilidades digitais, departamentos que não tenham medo da mudança e que estejam prontos para absorver novas tecnologias. A empresa para a qual trabalho, a IBM, criou uma consultoria especializada em aconselhamento de bancos, com foco em itens que são os pontos mais sensíveis às instituições, como fraudes, KYC (do inglês know your custommer — conheça seu cliente) e lavagem de dinheiro; e o que estamos vendo com nossos clientes são discussões de altíssimo nível. Eles estão muito bem informados e preparados, no Brasil inclusive.
Há muitas aquisições de fintechs acontecendo. É uma forma de os bancos trazerem a inovação para dentro de casa?
Sajal Mukherjee — Pessoalmente, eu vejo esse fenômeno de um modo positivo, pois é uma relação ganha-ganha. O executivo do grande banco não tem a liberdade que um garoto tem na fintech. Ele é cobrado, tem metas, não pode errar. A fintech tem mais liberdade. Por outro lado, ela não tem a musculatura de um banco. Quando você junta os dois, você realmente torna a inovação testada em pequena escala em algo realmente poderoso. Nós mesmos, na IBM, criamos uma divisão de nuvem que oferece ferramentas como modelos cognitivos, APIs de inteligência artificial e blockchain para fintechs. Nós queremos é que elas inovem, pois sabemos que isso será absorvido pelos bancos, nossos clientes, em seu favor.
Há também bancos que criam suas próprias aceleradoras de startups financeiras…
Sajal Mukherjee — Eu gosto disso, embora eu tenha algumas desconfianças. A parte boa é o fato de os bancos acompanharem, desde o início, o processo de inovação, orientar bons projetos que poderiam morrer sem seu apoio e experiência. Por outro, acho que há algumas iniciativas que são apenas marketing, ações para mostrar para imprensa e isso, obviamente, não ajudará nada no longo prazo.
Muitos especialistas defendem que os bancos entreguem suas APIs (interface de programação de aplicativos) para fintechs e as deixem inovar livremente. Não é perigoso alimentar alguém que se tornará seu competidor no futuro?
Sajal Mukherjee — Não vejo as fintechs como competidoras, mas como aliadas. É melhor usar o poder criativo delas em seu favor que tentar bloqueá-las. Além do que não acho que os bancos possam fechar suas plataformas. Se você observar iniciativas como a Open Banking, criada pelo governo da Inglaterra, verá que simplesmente os reguladores exigirão que os bancos abram suas APIs no futuro. Então, é melhor surfar a onda que tentar impedi-la de acontecer.
O que podemos esperar de sua apresentação no Ciab 2017?
Sajal Mukherjee — Quero discutir três temas centrais, o primeiro é a importância de criar habilidades digitais dentro do seu banco, o segundo é transformar seu banco em uma instituição capaz de usar, de verdade, na prática, estas habilidades digitais. E o terceiro ponto é pensar o banco do futuro como uma plataforma, que integrará seus serviços proprietários e de terceiros. Avalio que este tripé é o que há de mais aconselhável para um banco brasileiro preparar-se para os próximos anos.
