Ginga no asfalto com samba torto

Juçara Marçal
O samba não levanta mais poeira
 O asfalto hoje cobriu o nosso chão.
Geraldo Filme

Tenho cada vez mais me interessado do que vem sendo chamado de samba torto paulistano. Pelo tamanho, ainda é difícil chamar de cena, mas esse coletivo onde orbitam os músicos Douglas Germano, Juçara Marçal, Thiago França, Kiko Dinucci, Rômulo Fróes, Rodrigo Campos e Marcelo Cabral possui uma ampla e interessante pesquisa com o samba. Trabalham sob diversas formas, seja nos projetos Metá Metá e Passo Torto, carreiras autorais ou na produção musical, como aconteceu em A mulher do fim do mundo, disco de Elza Soares lançado em 2015.

Essa pesquisa desenvolvida coletivamente viaja dentro da experimentação, das quebras, sempre tendo o samba como base. Em seguida, essa base é fragmentada e reconstruida, mas de um jeito que rompe o itinerário mais convencional na criação de sambas. Nessa ‘colagem’, ainda são amarradas outras referências da cultura afro-brasileira, como o jongo e a religiosidade e de fora, como a poesia marginal, o ideário tropicalista e movimentos relacionados. Em essência, é como se samba e os processos de criação da arte contemporânea se trombassem em uma encruzilhada.

Kiko Dinucci e Douglas Germano

O samba torto também se criou a partir da própria peculiaridade que fez o samba de São Paulo ser o que é. Segundo Oswaldinho da Cuíca, um dos nomes mais importantes do samba paulista, o samba tocado em sua terra tem foco maior na utilização do bumbo e do surdo e menos ‘miudezas’, dentro de um contexto de urbanização do ritmo, que saiu das áreas rurais no interior de São Paulo e rumou a capital nos anos 40 e 50. Ali, absorveu outras temáticas, cresceu, mas sempre alimentado por artistas vindos do interior e abençoado pelas tradicionais festas de Pirapora do Bom Jesus, na região metropolitana da capital.

Com o tempo, o samba que no asfalto se popularizou através dos cordões de rua movidos por apitos de bambas se perdeu entre decretos oficialescos das políticas paulistanas. Porém, mesmo diferente de outras épocas, o samba seguiu vivo com suas agremiações carnavalescas e núcleos duros, resistentes e apaixonados, que continuam a revelar talentos e firmar ainda mais a identidade do samba paulista.

Essa resistência trouxe frutos: a vanguarda paulistana, que bebeu da fonte nos anos 80; o samba romântico, cria da juventude que frequentou sambas e bailes de soul; e a música eletrônica, que se embrenhou de leve nos batuques nos anos 2000 através da imersão de alguns artistas, como Max de Castro e Dj Patife. Nessa nova década porém, faltava algo potente, que seguisse essa história bonita e o samba torto pode ser uma delas. Ainda é pequeno em números, mas o legado das produções e o alcance enquanto proposta já é um capítulo novo para o samba paulista.

Abaixo, uma pequena lista de discos que representam o samba torto e servem para entender a proposta:

Elza Soares — A mulher do fim do mundo (2015)

Passo Torto — Passo Elétrico (2013)

Thiago França — Malagueta, Perus e Bacanaço (2013)

Douglas Germano — Orí (2011)

Metá Metá — Metá Metá (2011)